Qual clube do Big Six mais lucrou nos últimos anos e o que rolou nesse tempo?

A partir de seus balanços financeiros anuais, a PL Brasil buscou dados sobre o saldo final de cada clube do Big Six nos últimos cinco anos e o que ocorreu nesse período

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Dave Thompson

O anúncio da Super Liga Europeia, no dia 18 de abril, estremeceu a relação entre clubes, suas torcidas e as federações de futebol (nacionais e internacionais). Resumidamente, esse seria um campeonato fechado e sem rebaixamento, composto por 15 clubes fundadores e 5 convidados, impulsionado principalmente pela crise econômica que os poderosos clubes da Europa passam com a pandemia da Covid-19. 

Com toda a adesão inicial do Big-Six ao projeto, tornou-se inevitável que os holofotes virassem para suas finanças. Visando embasar a discussão sobre o assunto, a PL Brasil investigou os balanços finais de cada um dos seis times durante os últimos cinco anos e alguns investimentos feitos nesse mesmo tempo.

Os dados sobre lucros ou prejuízos por temporadas pertencem aos relatórios anuais emitidos por cada time, enquanto as informações sobre transferências foram coletadas no Transfermarkt. Cabe lembrar aqui que os balanços da temporada 2019/2020 sofreram todos com as implicações da pandemia da Covid-19 no futebol e na economia em geral. As contratações listadas nesse levantamento não incluem jogadores que chegaram aos clubes sem contratos (free agents).

Arsenal

2015/16 2016/17 2017/18 2018/19 2019/20 Total 
Lucro/Prejuízo (£) 1.6m  35.2m 56.5m  27.1m 47.8m 18.4m
Nº de contratações 2 5 4 5 8 24 atletas
Gasto em contratações (€) 26.5 113m 152m 80m 160m 531.5m
Saldo das janelas (€) -24m -102.7m +5.1m -72.2m -106.4m -300.2m

*Dados financeiros expressos em milhões

Entre as temporadas 2015/2016 e 2019/2020 os Gunners fecharam três relatórios no azul e outros dois no vermelho. Nesse mesmo período, foram realizadas 24 contratações. Entre os contratados, é possível dividi-los em diferentes prateleiras. 

Aubameyang e Lacazette possuem bons números na Premier League, Tierney vêm agradando quando joga, Martinelli e Pépé parecem precisar de mais tempo para se consolidarem (seja positiva ou negativamente) e Xhaka, apesar de uma relação conflituosa com a torcida, sempre circula entre os titulares. Cedric Soares e Ceballos, contratados por empréstimo, também preenchem bem o elenco. 

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Enquanto isso, diversos milhões foram gastos em nomes que não vingaram no clube de Londres, como Mustafi, Pérez, Mkhitaryan, Sokratis e Torreira. Fato é que para um clube que gastou aproximadamente 513,5 milhões de euros em contratações nas últimas cinco temporadas, os Gunners têm um plantel aquém do esperado.

No entanto, quando se olha apenas para o retrospecto em campo e no mercado, percebe-se que a situação financeira poderia ser pior. Com um “déficit” próximo de 300 milhões de euros na relação de compra e venda de atletas, além de só dois títulos nos últimos cinco anos (FA Cup 2015/2016 e 2016/2017), o Arsenal poderia estar em piores condições. 

Chelsea

2015/16 2016/17 2017/18 2018/19 2019/20 Total 
Lucro/Prejuízo (£) 70.6m 15.3m 62m 96.6m 32.5m 57.4m
Nº de contratações 10 4 9 5 Transfer ban 28 atletas
Gasto em contratações (€) 96.5m 132.8m 260.5m 208.8m 45m (Kovacic) 743.6m
Saldo das janelas (€) -9m -23.9m -65.9m -125.5m +112.3m -112m

*Dados financeiros expressos em milhões

Assim como o rival vermelho de Londres, o Chelsea fechou três anos com lucro e dois com prejuízo nas últimas cinco temporadas. Apesar dessa similaridade, os períodos no vermelho dos Blues apresentaram valores bem altos. 

Entre o segundo semestre de 2015 e o primeiro de 2020, o Chelsea realizou 28 contratações. Para analisar esse número, é necessário considerar o transfer ban imposto sobre o clube na temporada 2019/2020. Sendo assim, é uma média de sete contratações por temporada, gastando o valor somado de cerca de 743.6 milhões de euros.

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E o aproveitamento em negócios dos Blues é razoavelmente questionável. O francês Kanté é provavelmente o maior acerto em todo esse período. Há também jogadores como Kovacic, Jorginho e Pulisic que já mostraram bom nível, mas ainda trabalham para se consolidarem no time. Por outro lado, a lista de decepções é grande: Kepa, Bakayoko, Higuaín, Morata, Batshuayi, Kenedy, Drinkwater, entre outros. 

Na temporada 2017/2018, os Blues registraram receita recorde de 443.3 milhões de libras, mesmo tendo vencido somente a FA Cup e terminado a Premier League em quinto lugar. Contudo, foram investidos 260 milhões de euros com reforços que – em sua maioria – não vingaram e isso obviamente reduziu os lucros. Apesar disso, o clube sabe administrar suas vendas e isso faz com que, mesmo contratando muito, os leões londrinos possuam o menor déficit total de janelas de transferência: 112 milhões de euros.

Liverpool

2015/16 2016/17 2017/18 2018/19 2019/20 Total 
Lucro/Prejuízo (£) 21.4m 39m 106m 33.3m 39.5m 117.4m
Nº de contratações 8 4 5 4 2 23 atletas
Gasto em contratações (€) 126.5m 79.9m 173.9m 182.2m 10.4m 573.5m
Saldo das janelas (€) -35.9m +5.4m +10.6m -140.8m +31.2m -129.5m

*Dados financeiros expressos em milhões

O clube comandado pela Fenway Sports Group só disponibilizou seu relatório financeiro da temporada 2019/2020 no dia 27 de abril, período final de preparação desse texto. Com o fechamento no vermelho dessa última temporada, o Liverpool registrou três anos de lucro e dois de prejuízo nos últimos cinco anos. 

Houve um profit espantoso de aproximadamente 106 milhões de libras na temporada 2017/2018. Curiosamente, nesse período os Reds não levantaram nenhuma taça, mas foram os 4º colocados da Premier League e vice-campeões da Champions League.

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Durante esses anos o clube realizou 23 contratações, sendo clara a mudança na estratégia de mercado com a chegada de Jurgen Klopp. Desde a primeira temporada completa com o alemão no comando, os Reds passaram a contratar menos, melhorando o grau de acerto. Em 2016/2017 vieram Mané e Wijnaldum entre quatro contratados, em 2017/2018 chegaram Robertson, Salah e van Dijk entre cinco e em 2018/2019 os acertos foram Alisson e Fabinho. 

Entre todos o clube da pesquisa, o Liverpool foi o único que apresentou mais janelas de transferências com saldo positivo do que negativo. Isso significa que, nesse período, mesmo gastando cerca de 573 milhões de euros em contratações, a instituição tem um saldo negativo considerado pequeno na relação de compra e venda de atletas, algo próximo de 129 milhões de euros. É um número impressionante para um clube que elevou tanto sua competitividade a nível nacional e internacional no fim da última década.

Manchester City

2015/16 2016/17 2017/18 2018/19 2019/20 Total 
Lucro/Prejuízo (£) 20.5m 1.1m 10.4m 10.8m 126m 83.2m
Nº de contratações 9 10 10 5 7 41 atletas
Gasto em contratações (€) 208.2m 215m 317.5m 78.6m 159.9m 979.2m
Saldo das janelas (€) -140.7m -179.6m -226.2m -21m -88.5m -656m

*Dados financeiros expressos em milhões

O clube de mais destaque na última década de Premier League fechou quatro dos últimos cinco balanços no azul. Apesar disso, o prejuízo foi grande na temporada 2019/2020, cerca de 126 milhões de libras, superando todos os anos de lucro juntos. 

Outro dado curioso é que, mesmo com todos os títulos vencidos entre as temporadas 2015/2016 e 2019/2020 (sete taças), o maior lucro registrado foi de aproximadamente 20,5 milhões de libras. Ainda que as receitas sofram com uma gama extensa de fatores, como uma torcida menor em relação a outros clubes do Big Six, é inevitável relacionar isso ao gasto em janelas de transferência. 

Durante essas cinco temporadas, o Manchester City gastou aproximadamente 979 milhões de euros em contratações, investindo 656 milhões a mais do que recebeu com vendas de atletas nesse período. Foram 41 jogadores contratados, ou seja, uma média pouco superior a oito atletas por janela. 

Por mais que diversos nomes tenham se consolidado em diferentes momentos, como Kevin de Bruyne, Raheem Sterling e Ederson, ainda é possível questionar o grau de acerto nas negociações em meio a um volume tão grande de transferências. Principalmente, uma vez que as transferências parecem inflacionar pela participação do Manchester City nos negócios. Os casos de Nicolás Otamendi e Benjamin Mendy são bons exemplos desse fenômeno.

Manchester United

2015/16 2016/17 2017/18 2018/19 2019/20 Total
Lucro/Prejuízo (£) 36.6m 39.2m 37.6m 18.9m 23.2m 33.9m
Nº de contratações 5 3 4 3 5 20 atletas
Gasto em contratações (€) 156m 185m 198.4m 82.7m 226.8m 848.9m
Saldo das janelas (€) -53.9m -137.7m -152.9m -52m -145.6m -542.1m

*Dados financeiros expressos em milhões

Os Red Devils concluíram três temporadas com saldo positivo e duas com saldo negativo nesses cinco anos utilizados como recorte deste levantamento. O clube fechou balanços com resultados razoavelmente constantes e que parecem influenciados diretamente pela conquista de taças. 

Entre os times do Big Six, o Manchester United foi o que menos contratou nesse período, registrando 20 reforços. No entanto, o investimento em negociações foi um dos mais altos: cerca de 849 milhões de euros, o segundo maior desta lista. Diferentemente do que esses indicativos tendem a apontar, o grau de acerto não foi agradável. 

Se Wan-Bissaka, Bruno Fernandes, Paul Pogba e Fred foram bons acertos, o outro lado da moeda possui atletas como Romelu Lukaku, Alexis Sanchéz, Henrikh Mkhitaryan, Memphis Depay e Morgan Schneiderlin. Outros nomes como Harry Maguire e Anthony Martial também geram questionamentos acerca dos altos valores desembolsados por eles.  

Por fim, esse recorte não mostra grandes preocupações com a economia do Manchester United, mas chama a atenção como a ausência de um projeto esportivo consolidado, a exemplo dos de Liverpool e Manchester City, certamente diminuiu as margens de lucro. Além de retornos por meio da competitividade, os bons reforços dos Red Devils que não vingaram poderiam ter construído histórias diferentes com a camisa vermelha. 

Tottenham

2015/16 2016/17 2017/18 2018/19 2019/20 Total 
Lucro/Prejuízo (£) 33m 36.2m 113m 68.5m 64m 186.7m
Nº de contratações 5 5 5 0 6 21 atletas
Gasto em contratações (€) 71m 83.5m 123.5m 0 148.5m 426.5m
Saldo das janelas (€) +16.5m -31.2m -19.7m +5.4m -84m -113m

*Dados financeiros expressos em milhões

O clube chefiado por Daniel Levy é a equipe mais lucrativa do Big Six. Entre as temporadas 2015/2016 e 2019/2020, a instituição londrina registrou quatro anos de lucro e apenas um de prejuízo. Essa única temporada no vermelho foi exatamente a última, na qual todos os clubes sofreram com as implicações do coronavírus. Ironicamente, apesar de ser o time mais lucrativo desse recorte, é o único entre os seis que não conquistou nenhuma taça no período.

Mesmo sem taças conquistadas, os números impressionam: na temporada 2017/2018 o time registrou um lucro de aproximadamente 113 milhões de libras no seu balanço anual. Esse foi o maior superávit entre todos os componentes da lista. 

Durante esses anos, o Tottenham realizou 21 contratações e concluiu dois anos com janelas no profit, ou seja, recebeu mais do que gastou com transferências. Ainda que o volume de contratações seja baixo, até o presente momento, poucos nomes se consolidaram. Heugh-Min Son e Toby Alderweireld são os destaques contratados nesse período. Somado a eles, Ndombelé mostrou nesta temporada que pode dar bons frutos aos Spurs. 

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Por outro lado, existem nomes que sequer deixaram lembrança no clube, como Clinton N’Jie e Kevin N’Koudou, enquanto outros como Davinson Sánchez e Serge Aurier volta e meia são questionados. Ryan Sessegnon e Giovani Lo Celso são também alvo de críticas, pois chegaram cobertos de expectativas, mas ainda são novos para tratá-los como erros do mercado. 

Aparentemente bem gerido e com uma estrutura impressionante, o Tottenham parece trilhar o caminho certo rumo à glória no que diz respeito a organização. Após as saídas de Maurício Pochettino e José Mourinho, a instituição precisa planejar bem a parte esportiva de seu projeto e tentar que a pressão desses anos sem títulos atrapalhe o mínimo possível o trabalho do seu próximo técnico.