Ex-Vasco, Lucas Covolan superou depressão e xenofobia para fazer história na 6ª divisão da Inglaterra

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O dia 27 de janeiro de 2024 foi um dos mais especiais dos 32 anos de vida de Lucas Covolan. Nessa data, o goleiro do Maidstone United entrou em campo pela quarta rodada da Copa da Inglaterra e teve uma atuação épica.

O goleiro parou a enorme pressão do quarto colocado da Championship (segunda divisão inglesa), Ipswich Town, com 12 defesas, e garantiu a classificação do Maidstone, clube da National League South (sexta divisão inglesa). Ele foi eleito o melhor jogador da partida.

A campanha do Maidstone United na Copa da Inglaterra já é histórica. Primeiro, o clube passou pelo Barrow, da League Two (quarta divisão), e pelo Stevenage, da League One (terceira divisão). E eliminou o Ipswich Town na casa do adversário para um público com quase 30 mil pessoas.

Dias depois do feito inesquecível e ainda emocionado pela repercussão, Covolan deu uma entrevista exclusiva à PL Brasil através de uma videoconferência.

Todos falavam que se a gente perdesse de cinco estava ótimo, porque poderia ser de nove. Nós já fizemos história, estaremos nos livros do Maidstone. Talvez não ocorra isso novamente. Tem torcedores que acompanham o clube por mais de 30 anos e que falam que foi o momento mais feliz da vida deles. A cidade ficou em festa depois da vitória. Muita gente deve estar bem brava comigo, porque perdeu bastante dinheiro nas casas de apostas (risos)– disse Lucas Covolan à PL Brasil.

Agora, o Maidstone United aguarda o vencedor do replay (segundo confronto) entre Coventry City e Sheffield Wednesday, ambos da Championship, para saber quem enfrentará nas oitavas de final. Um confronto que promete chamar mais atenção e que, naturalmente, deixa o arqueiro ansioso.

— Acho que agora, nas oitavas, os times vão um pouco mais preparados. Talvez o Ipswich tenha pensado que passariam por cima e no final eles desrespeitaram um pouco a gente. Não sei até que ponto eles estudaram o nosso jogo. Para a próxima fase, acredito que estaremos preparados, são 11 para cada lado de novo e todos entram em campo para dar o seu melhor.

Quem é Lucas Covolan?

A história de Lucas Covolan começou em Curitiba, onde nasceu. Na adolescência, ele jogava vôlei, handebol, futsal, golfe, tênis e natação, mas sua paixão mesmo era andar de skate com os amigos — prática que precisou abandonar.

— Até disputei alguns campeonatos (de skate), mas hoje em dia eu não faço mais pelo risco de lesão. Volto só quando eu aposentar.

A sua relação com o futebol começou nas escolinhas de futebol da sua cidade. Lucas Covolan levava a ideia como uma brincadeira, quando de repente um treinador disse que ele “levava jeito”. O jovem, então, decidiu que insistiria no futebol enquanto aquilo lhe fizesse feliz. “Vida de jogador é muito mais de altos do que de baixos e por isso é bom ter pessoas ao seu redor para apoiar.”

O início como goleiro

Torcedor do Athletico-PR, Lucas Covolan treinava na escolinha do seu clube do coração, aos 13 anos, quando o sonho pareceu possível — um treinador lhe prometeu que poderia se tornar jogador profissional um dia.

Entretanto, foi dispensado apenas um ano depois. O motivo? A altura exigida para um goleiro. “Minha idade óssea era de 12 anos. Demorou para eu chegar na estatura que tenho hoje (1,93m)“, conta ele.

Lucas Covolan rumou então para um clube formador de Curitiba, chamado Trieste. Ficou um ano por lá atuando na categoria juvenil e às vezes jogando com os juniores. Olheiros do Vasco estavam presentes em um dos jogos, gostaram da atuação do jovem e o levaram para passar um período de adaptação no Rio de Janeiro.

Após duas semanas no Rio, Lucas assinou seu primeiro contrato profissional com o clube cruzmaltino, aos 17 anos. O goleiro conseguiu boas atuações pela base do clube carioca, a ponto de ser chamado para a seleção brasileira sub-20 em 2010.

Ele também chegou a treinar com o profissional, mas não conseguiu o salto a ponto de entrar em campo pelo time de cima.

— Tinha 19 anos, quem coloca um goleiro tão jovem para jogar um Campeonato Brasileiro com um clube tão grande como o Vasco? Mas aprendi muito com o Fernando Prass. Ele sempre foi uma boa inspiração. Apesar de ser mais velho, ele nunca deixou cair o rendimento nos treinos. Tem muitos goleiros experientes que já não treinam tanto.

Goleiro “oficial” de Juninho Pernambucano

Juninho Pernambucano – 05.08.2012 – Vasco De Gama / Corinthians –
Juninho Pernambucano em sua segunda passagem no Vasco. Foto – PPG IconSport

Um fato curioso da carreira de Lucas Covolan é o fato dele ter sido “escolhido” para ser o goleiro que treinaria faltas com Juninho Pernambucano no Vasco.

— O Fernando Prass não iria ficar treinando falta com o Juninho. Então, eles colocavam os goleiros da base para ficar lá com ele treinando falta, jogada ensaiada, pênalti. Fui um saco de pancada. Eu e um cone era a mesma coisa. Ele me chamava no final do treino para treinar e eu respondia: “Você que vai treinar, né, porque eu vou ficar só olhando, treinar a cabeça a ficar olhando ‘na gaveta’, ‘na gaveta’, na gaveta'”.

“Uma coisa simplesmente absurda. Nunca vi nada parecido. Ele chutava, você pensava que a bola ia para um lado, no meio do caminho ela ia para outro, vinha em zigue-zague.”

Apesar do bom período no Vasco, o clube carioca não quis renovar com o jovem goleiro, que viu a oportunidade de voltar para o Athletico-PR — dessa vez com a estatura ideal.

— Minha família é toda atleticana e eu sempre tive um grande carinho pelo clube, então foi uma enorme emoção voltar para Curitiba e jogar num clube que eu seguia desde pequeno. Foi uma experiência boa porque eu estava no time B, mas tinham oito ou nove goleiros. Não tive oportunidade para ficar e jogar no profissional.

Em 2013, Lucas Covolan acabou emprestado para o Esportivo para jogar o Campeonato Gaúcho. Fez uma boa pré-temporada, mas machucou a coluna, o que o impediu de finalmente atuar como jogador profissional, após dois anos tentando.

O goleiro, então, retornou ao Athletico-PR, tratou das costas, mas o clube não teve interesse em ficar com ele e, faltando um ano de contrato, houve um acordo para o rompimento do vínculo para que o arqueiro pudesse seguir com sua carreira.

Chegada à Europa

Lucas Covolan finalmente teve a oportunidade de jogar como profissional no Toledo, clube paranaense que disputa a Série D do Brasileirão, e depois foi campeão acreano em 2014 com o Atlético-AC.

Apesar da conquista, ele foi dispensado pelo time do Acre logo depois e recebeu uma boa proposta do seu empresário na época. O brasileiro, que também tem cidadania italiana, foi perguntado sobre seu interesse de atuar na Europa.

Eu respondi que sim, porque não queria ficar no Brasil para ficar rodando nesses times menores. Eu precisava tentar pelo menos, porque se não sentiria um remorso.

O empresário de Lucas Covolan tinha a ideia de levar o goleiro e outro atleta para o Real Sporting de Gijón, da quarta divisão da Espanha. Mas foi emplacar os dois jogadores na mesma equipe.

“Todo time precisa de mais um atacante, mas de mais um goleiro não”.

— Pintou uma oportunidade no Mallorca, eu fui para, pelo menos, ficar treinando. Era setembro (de 2014) já. Acabou que me deram uma oportunidade (no time B), porque um goleiro machucou e outro brigou com o treinador. A gente jogou até dezembro, mas ele (João) resolveu voltar para o Brasil, porque queria ficar com a família. Eu terminei a temporada. Treinei com o Mallorca durante quatro meses. Tinha 24 anos, chegaram para mim e disseram que a minha idade era acima do que eles assinavam (23)

Chagada à Inglaterra

Lucas Covolan tentou prosseguir sua carreira na Espanha jogando por clubes pequenos de Mallorca — Atlético Rafal e Alaró. Mas, em nenhum dos dois times, sua carreira engrenou. Então, o goleiro voltou para o Brasil para passar as férias.

Foi nessa época que seu amigo Alexandre Paschoalato (mais conhecido como Alexandre Cajuru), goleiro que começou a carreira no Athletico-PR na mesma época do arqueiro do Maidstone United, ligou para ele e alertou sobre uma oportunidade de ir para a Inglaterra.

Sempre tive o sonho de ir para a Inglaterra, desde pequeno assistia à Premier League. Todo mundo chama de melhor campeonato do mundo, foi onde nasceu o futebol.

O brasileiro, então, enviou uns vídeos atuando na Espanha para o Whitehawk, clube do subúrbio da cidade de Brighton e que disputa a Isthmian League, liga regional amadora da Grande Londres. O time enviou o contrato sem nem exigir um período de testes.

Na época, o Whitehawk era treinado pelo argentino Pablo Asensio, que queria implementar o jogo sul-americano nas divisões inferiores da Inglaterra. O clube contava com nove brasileiros. Atualmente, só Rodrigo Mann, lateral-direito que jogou no Paraná e na Penapolense, segue com a carreira profissional.

‘Havia um pouco de racismo’

Acabou que o sonho do treinador argentino não deu muito certo devido ao jogo físico que é disputado na Inglaterra e a dificuldade dos sul-americanos de se adaptarem ao país, segundo Lucas Covolan.

— Brasileiro não está muito preparado para isso. Nós tentávamos passar a bola e os campos no inverno, nas divisões menores, não são os melhores. Então, os contratos de todos os brasileiros foram rescindidos, menos o meu.

Para o lugar de Pablo Asensio, o Whitehawk trouxe o inglês Richard Hills, que, segundo Lucas Covolan, não gosta de estrangeiros e levou muitos jogadores britânicos para o elenco.

— Foi um momento bem ruim na minha carreira. Havia um pouco de racismo por parte dele. Todo dia tinha ameaças para a tentar fazer a gente (estrangeiros) sair do clube. Ele acabou me emprestando para o Lewes (também da Isthmian League), clube pelo qual me apaixonei. O pessoal do time me recebeu muito bem durante o mês que fiquei lá. Não perdemos nenhum jogo. Quando cheguei, ele estava na metade da tabela e quando deixei, o clube estava lá na ponta.

Após voltar para o Whitewawk, Lucas Covolan treinou com por apenas mais três semanas e denunciou as ameaças de xenofobia de seu treinador ao “UOL”. A reportagem repercutiu na Inglaterra.

— O pessoal do clube me chamou para conversar e perguntou por que eu não havia falado com eles. A diretoria já sabia que tinha isso e os estrangeiros não tinham muito a palavra. Era o meu primeiro ano na Inglaterra e eu não falava um inglês que poderia fazer uma reunião e falar tudo o que eu queria. O treinador já tinha um histórico envolvendo racismo com outros jogadores e ele saiu do clube.

Andy Woodman, que hoje comanda o Bromley, clube da National League North (quinta divisão inglesa), assumiu o comando da equipe e colocou o brasileiro no banco. Assim, Lucas Covolan se transferiu para o Worthing, da National League South (sexta divisão).

Comparação com Alisson

Depois das dificuldades, Lucas Covolan finalmente se estabeleceu na Inglaterra. Jogou pelo Worthing de 2017 a 2019, chegando a ser nomeado o Jogador do Ano pelos torcedores do clube em sua primeira temporada.

O brasileiro, inclusive, chegou a fazer testes em clubes de divisões superiores, como Aldershot Town, da National League North, Stevenage e até o Luton Town, que havia acabado de subir da League Two para League One e que hoje joga a Premier League.

— O treinador do Worthing conhecia uma pessoa no Luton e me indicou para lá. Era pré-temporada e eles me pegaram para treinar por uma semana. Me falaram que tinha muito potencial, mas já tinham três goleiros na época. Mas voltei para o Worthing. Eu quebrei meu braço depois, numa partida de FA Cup e demorei quatro meses para voltar a jogar. Terminei bem a temporada no Worthing e o Torquay me contratou.

No Torquay United, clube da National League North (também na sexta divisão), Lucas Covolan viveu um de seus grandes momentos na carreira. Em 20 de junho de 2021, o time do brasileiro enfrentou o Hartlepool United na decisão do play-off para o acesso. A equipe adversária vencia pelo placar mínimo até os 50 minutos do segundo tempo, até que o goleiro foi para a área e marcou um gol de cabeça.

O gol do arqueiro lhe rendeu comparações com Alisson, que também havia marcado de cabeça pelo Liverpool no início do mesmo ano.

Foi surreal. Descrever todos os sentimentos que tive ali foi impossível. Foi uma coisa que me marcou muito. Depois do 1 a 1 eu tive que me acalmar ainda, porque tinham os dois tempos da prorrogação e os pênaltis. Voltar para a terra naquele momento foi difícil, mas eu defendi os dois primeiros pênaltis. Só que os meus companheiros não ajudaram, perderam três, e fomos desclassificados.

A relação entre Lucas Covolan e Alisson não é apenas pela comparação. Ambos se enfrentaram em uma pequena competição de juniores em Curitiba semanas antes de Becker ser chamado para o profissional do Internacional.

— Ele é um ano mais novo do que eu. Teve uma competição que fizemos no CT do Caju quando eu estava no Athletico-PR, que veio o Internacional e outros clubes da região de Curitiba. Foi um campeonato de dois dias e eu joguei contra o Alisson. Não lembro quem ganhou, faz tanto tempo. Eu sei que a gente venceu aquele torneio.

O grande sonho veio acompanhado da depressão

A carreira de Lucas Covolan ia de vento em popa após o gol. O brasileiro foi contratado pelo Port Vale, da League Two de 2021/22, e teria a oportunidade de ser titular numa liga profissional pela primeira vez na Inglaterra, seis anos depois de chegar ao país. Porém, a mudança se tornou o ponto mais baixo de sua carreira.

Lucas Covolan foi expulso em um amistoso de pré-temporada e em sua estreia na League Two. Após conseguir se estabilizar, ele foi novamente expulso em janeiro de 2022, o que desagradou o treinador na época.

— Tudo veio depois do gol. Ter a experiência de estar num momento tão alto na carreira que é difícil você replicar aquilo em um jogo normal. O gol viralizou muito aqui na Inglaterra. Ir para o Port Vale foi um sonho. Cheguei jogando divisões muito baixas na Inglaterra e chegar num time de expressão da League Two foi muito impactante. Minha cabeça não estava preparada para lidar com um sucesso tão repentino assim.

Um dos problemas que afetaram o emocional de Lucas Covolan foi o curto período de folga. Acostumado a passar férias com a família e amigos no Brasil, ele teve que se mudar de Torquay para Stoke em uma semana.

Eu comecei a não gostar tanto de futebol mais e a me autossabotar. Eu era titular, mas eu pensava que nada estava bom. Comecei a treinar sem parar. Entrei em depressão, pensando que as pessoas estavam falando mal de mim toda hora e comecei a ficar bem mal. Ia para o treino, mas não queria. Queria só ficar na cama e não falava com a minha família. Demorou um pouco para eu entender o que estava acontecendo comigo. Comecei a ter mais lesões e não dormia muito bem.

Lucas Covolan ficou tão mal que decidiu falar com o assistente técnico do Port Vale. “Eu chorei e desabafei com ele”. A situação delicada do brasileiro foi levada à federação inglesa e o goleiro realizou sessões de terapia fornecidas pela entidade.

A pior coisa que eu fiz foi não falar com ninguém antes. Nunca pensei que teria depressão por sempre ter sido uma pessoa com alto astral, que brinca o tempo todo. E quando vi estava naquela situação. Não tenho nada a dizer sobre o Port Vale ou o treinador. Tudo o que aconteceu foi porque eu não soube aproveitar.

Além do quadro depressivo, Lucas Covolan enfrentou uma nova lesão nas costas, que durou meses para curar. Nas partidas finais da temporada, ele voltou ao banco de reservas e fez parte da equipe que conseguiu o acesso para a League One.

— Fui para Wembley para o jogo contra o Magesfield, eu estava no banco. Quando recebi a taça, não consegui parar de chorar. Depois de tantos altos e baixos na temporada. Não joguei a final, mas eu tive impacto na temporada, joguei metade dela. No final, eu estava de volta. Foi uma premiação.

O Port Vale decidiu emprestar Lucas Covolan ao Chesterfield, que disputa a quinta divisão inglesa, a fim de recuperar de vez o jogador. Mas ele acabou sofrendo uma lesão no tornozelo que o tirou dos gramados e viu o seu concorrente na posição, Fitzsimons fazer bons jogos. Assim, o brasileiro não conseguiu aproveitar a chance durante o empréstimo e acabou sendo desvinculado do time de Burslem, que detinha os direitos econômicos do atleta.

Em 4 de agosto de 2023, faltando menos de 24 horas para o início da temporada 2023-24, Covolan assinou com o recém-rebaixado clube da Liga Nacional Sul, Maidstone United.

Futebol inglês ou brasileiro?

Há sete anos na Inglaterra, Lucas Covolan não pensa em retornar ao futebol brasileiro por conta da cultura do país.

“Os 10 primeiros clubes da National League podem facilmente bater de frente com clubes da segunda divisão do Brasil, em termos de infraestrutura”

— A quantidade de dinheiro que os clubes têm e a organização dos mesmos é muito diferente dos times do Brasil. Aqui você sabe que vão te pagar o salário corretamente. A cultura é que o jogador faz o seu trabalho, pode ir bem num dia ou mal no outro, como qualquer trabalho. Não tem a cultura do Brasil de que não se pode jantar com a família em algum lugar se o time perdeu ou está mal. Isso me faz não querer voltar a jogar no Brasil.

E o futuro?

O contrato de Lucas Covolan com o Maidstone United se encerrou no dia 31 de janeiro. Mesmo com outros clubes interessados, o brasileiro renovou o vínculo com a equipe da sexta divisão inglesa até o final da temporada.

— Eu gostaria de agradecer a todos que estão aqui por todo o suporte até agora. Eu ficarei até o fim da temporada, então eu espero que o apoio dos torcedores estejam conosco como sempre esteve — declarou Lucas Covolan nas redes sociais do Maidstone United.

Romulo Giacomin
Romulo Giacomin

Formado em Jornalismo na UFOP, passou por Mais Minas, Esporte News Mundo e Estado de Minas. Atualmente, escreve para a Premier League Brasil.