Liverpool ignora raízes ao aceitar que governo pague seus funcionários

Reds se aproveitaram de benefício governamental destinado a pequenas e médias empresas

Liverpool ignora raízes ao aceitar que governo pague seus funcionários
Laurence Griffiths/Getty Images

Se a atual gestão do Liverpool merece diversos elogios por tudo que fez nos últimos anos, infelizmente ganhou uma nota negativa em meio à pandemia do novo coronavírus, indo de encontro às suas raízes. Isso porque, no último sábado, o clube anunciou que todos os funcionários não ligados ao futebol receberiam seus salários sem cortes. Uma medida que inicialmente parece inquestionável, mas carrega algo negativo por trás.

E qual seria essa carga negativa? Simplesmente o clube só vai pagar 20% dos salários dos funcionários. Vai deixar 80% dos vencimentos mensais nas mãos do governo britânico, que anunciou no último dia 20 de março que arcaria com as despesas para ajudar neste momento tão difícil.

No entanto, a ideia do governo era socorrer as pequenas e médias empresas neste momento, e não o Liverpool que lucrou absurdamente nos últimos anos com a boa gestão do FSG. Era um socorro para quem realmente precisava…

Decisão do Liverpool vai de encontro às suas raízes

Liverpool é um local diferente do restante da Inglaterra. É uma cidade que, por ser bem distante de Londres, vai criando sua própria cultura. É um lugar que defende os conceitos trabalhista, sindicais e de muitos imigrantes.

E se você acha que o clube e torcida não seguem os conceitos da cidade, está enganado. Isso porque um dos maiores técnicos do Liverpool, Bill Shankly, tinha no socialismo a sua ideia de vida.

“O socialismo em que acredito é que todos trabalhem uns para os outros, todos tendo uma parte das recompensas. É como vejo o futebol, a maneira como vejo a vida”, disse Shankly.

Nos dias de hoje, o técnico Jürgen Klopp também se identifica com a esquerda dentro do especto político. Ele já afirmou que, se tem uma coisa que ele nunca vai fazer em sua vida, é votar na direita. Sobre o Brexit, por exemplo, o treinador já se manifestou contrário à saída do Reino Unido da União Europeia.

Na estreia da Premier League desta temporada, por exemplo, o técnico alemão ganhou uma imagem sua ao lado de outros técnicos lendário da história do Liverpool em uma homenagem que também faz referência à propaganda comunista de dezenas de anos atrás, onde Karl Marx e Friedrich Engels apareciam enfileirados.

Então, o espírito coletivo sempre se fez presente em – e no – Liverpool. Cidade, torcida, técnico e torcidas andam lado a lado. Em busca do bem estar social que por anos e anos tentaram tirar da terra dos Beatles.

Para se ter ideia, durante o governo de Margaret Thatcher, no qual ela isolou a cidade politicamente e até apoiou a farsa de Hillsborough, os jogos do Liverpool e do Everton eram um refúgio para os moradores dali.

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Uma decisão decepcionante para todos

Se o Liverpool sempre honrou suas raízes, por que aproveitar essa ajuda do governo quando o clube têm totais condições de bancar os funcionários durante esse período?

Em entrevista à BBC, um dos funcionários do clube, que não teve seu nome divulgado pela reportagem, se disse bem decepcionado com a atitude grotesca e indefensável do Liverpool.

“Eles dizem que seus empregados são sua família, mas não estou me sentindo um membro da família. Por que um clube com um volume de negócios de centenas de milhões de libras está usando um esquema do governo para seus funcionários quando outros negócios têm mais necessidade disso? Sinto-me decepcionado e acho que este programa poderia estar sendo usado por empresas em dificuldades”, disse à reportagem da BBC.

O sentimento de um dos funcionários representa o de milhares de torcedores e de outros trabalhadores da cidade. Liverpool sempre priorizou aqueles que mais necessitam – seja qual for o momento.

É uma decisão difícil de entender e injustificável em todas as frentes. Como o trabalhador se sente ao receber uma notícia de que o clube que sempre teve ao seu lado só vai pagar apenas 20% dos vencimentos mensais?

O Liverpool não precisa que o governo banque os salários dos seus funcionários. Isso porque, só na última temporada, o volume de negócios do clube apresentou recordes de 533 milhões de libras, além de um lucro de 42 milhões de libras antes dos impostos do mês de fevereiro.

Liverpool sempre foi uma cidade progressista e que valoriza suas raízes e seu povo. Mas parece que o clube esqueceu desses valores em meio à uma das maiores crises da história da humanidade. Mas ainda dá tempo de publicar um pedido de desculpas e admitir o erro.