A temporada em que o Liverpool foi comandado por dois técnicos

Ídolo e ex-seleção francesa comandaram o Liverpool por três meses em 1998

Liverpool

Ninguém esperava, mas não houve necessariamente surpresa. Afinal, um clube com o tamanho do Liverpool que em 1985 anunciou o ídolo Kenny Dalglish como técnico-jogador, era capaz de tudo. Além do mais, uma “moda” iniciada nos clubes ingleses desde o fim dos anos oitenta, normatizou, de certa forma, a manobra dos Reds em 1998.

O fato é que, muito antes da Islândia fazer barulho na Eurocopa de 2016 com sua dupla de treinadores, o Liverpool foi comandado por dois técnicos. Em julho de 1998, o francês Gerard Houllier se juntou no comando técnico ao histórico Roy Evans, treinador desde 1994 do clube que na época era o maior campeão da Inglaterra.

Dentre todos os resultados possíveis dessa incursão vanguardista, o mais esperado, o fracasso. A parceria durou um pouco mais de três meses. O Liverpool terminou a Premier League na sétima colocação, sendo eliminado cedo de todas as copas e sem vagas pela primeira vez em cinco anos.

As motivações, os acertos, os erros, as vitórias e as derrotas desta curiosa situação, a PL Brasil conta a seguir.

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O fim do Boot Room

Bob Paisley comprimenta o jovem Evans em sua apresentação como membro da comissão técnica (Foto: LFC History)

Foi logo no primeiro dia de trabalho visando a temporada 1998/1999 que aconteceu. Roy Evans foi recebido de volta em seu escritório em Merseyside pelo presidente David Moores, e seu vice, Peter Robinson. O papo era direto e estranho. Dividir o cargo com Gerard Houllier, ex-técnico da seleção francesa e recém saído de um cargo executivo na Federação Francesa de Futebol.

Mais estranho ainda foi o sim que deu como resposta, que anos depois Evans admitiu ter sido equivocada. Ele disse ter sido influenciado pelo bom humor de quem tinha acabado de voltar de férias e não pensou muito bem sobre o caso. Mas há mais por trás do “sim” de Evans.

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Personagem histórico em Anfield, Evans ingressou nas categorias de base do clube, em 1965. Zagueiro de imenso caráter mas de qualidades técnicas diminutas, fez somente onze jogos na equipe profissional, entre 1970 e 1974, até que recebeu outra curiosa proposta, a de treinar o time reserva do Liverpool. O argumento era de que o que lhe faltava em bola, sobrava em liderança e entendimento do jogo.

Então, com 25 anos, Roy Evans tornou-se o mais jovem técnico a trabalhar na Liga Inglesa. Inserido numa época em que os Reds “formavam” seus próprios técnicos, o ex-zagueiro foi então preparado para no futuro assumir a direção técnica do clube, passando por experiências e cargos na comissão técnica, ganhando experiência e moral no time.

A expectativa, portanto, quando assumiu, era altíssima, dentro e fora do clube. Evans não fez menos e em sua primeira temporada, conquistou a Copa da Liga Inglesa e um bom quarto lugar na Premier League.

Nas três temporadas seguintes, não conseguiu títulos, mas manteve a média no campeonato, ficando sempre entre o terceiro e o quarto lugar. O problema era que aquilo era o Liverpool, o maior campeão inglês, que via cada vez mais o Manchester United, de Alex Ferguson, e o Arsenal, de Arsene Wenger, incomodarem seu posto.

Portanto, naquela manhã de julho de 1998, apesar de bem humorado pelas merecidas férias, Evans disse sim também porque sentia na pele o peso e a pressão da expectativa de uma torcida “mal-acostumada” e de uma diretoria que via na ruptura da lógica do Boot Room, isto é, formar seus próprios treinadores, um passo decisivo para voltar a ser campeão.

“É um clube gigante – o mais bem sucedido da Inglaterra – e nós queremos que ele volte a esse estado”, declarou o presidente David Moores, no primeiro semestre de 1998.

De fato, a liga estava em transformação. Cada vez mais pessoas do “continente” chegavam ao futebol inglês. Atletas de países africanos e outras nações europeias traziam estilos de jogos diferentes, Arsene Wenger revolucionava o comando do Arsenal e Moores e Robinson sendo cada vez mais convencidos de que precisavam mudar.

E tudo começou porque Peter Robinson viu uma notícia maravilhosa. O amigo Gerard Houllier deixava a direção da seleção francesa, campeã mundial de 1998.

Em sua primeira temporada, Evans liderou o Liverpool ao título da Copa da Liga (Foto: David Rawcliffe/Reprodução)

O francês de Alsop

Enquanto o jovem Roy Evans suava nas categorias de base de Melwood, lutando por uma chance de brilhar em Anfield, o jovem Gerard Houllier também traçava um caminho para os seus sonhos.

Estudante de Língua Inglesa na Universidade de Lille, na França, Gerard conseguiu um intercâmbio para a escola de Alsop, justamente na cidade de…Liverpool.

Incialmente um estágio supervisionado, Gerard acabou atuando pelo Liverpool Alsop, clube amador da cidade, o que curiosamente fez Roy e Gerard atuarem nos gramados da cidade concomitantemente.

Mas o acontecimento mais importante do período do francês na Inglaterra foi o jogo entre Liverpool e Dundalk, em setembro de 1969. A atmosfera apaixonante de Anfield por si só já cativou Houllier, e os acachapantes 10 a 0 que os ingleses aplicaram nos irlandeses

A admiração do estudante foi tamanha que ele foi fazer uma visita ao centro de treinamentos do Liverpool, de modo a acompanhar o dia a dia de Bill Shankly e estudar os métodos do hoje lendário treinador inglês.

Lá, ele foi muito bem recebido pelo jovem Peter Robinson, que viabilizou todo o estágio de Houllier, criando laços que durariam décadas.

Um forasteiro em Melwood

Logo após o fim da Copa do Mundo de 1998, Houllier anunciou que deixaria o cargo de diretor técnico da seleção francesa.

Depois de dez longos anos trabalhando com a federação de seu país, sendo dois deles como técnico da equipe principal, na campanha em que não conseguiu levar os Bleus à Copa de 1994, Gerard sentia que era hora de mudar de ares.

Seja pelo bom trabalho na Copa, seja pela notoriedade de Arsene Wenger na Premier League, Houllier era visto com bons olhos na Grã Bretanha. Anunciada sua saída, não tardou para o Celtics, da Escócia, procurá-lo.

Mas antes que pudesse negociar com os alviverdes de Glasgow, uma chamada de Pete Robinson chegou em seu telefone, e a ligação com o amigo e com o clube de sua juventude falaram mais alto.

A ideia dos cabeças do Liverpool era combinar a gerência moderna de Houllier, de muita tecnicidade na administração – controlando alimentação, horários e comportamentos dos jogadores – , com a experiência e voz de Roy nos vestiários de Anfield. Ao mesmo tempo, a dupla faria uma transição do Boot Room para os tempos modernos.

Apesar da ideia heterodoxa, a admiração pelo clube falou mais alto e Gerard Houllier foi animado e confiante para sua nova empreitada inglesa.

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Os dois técnicos do Liverpool

O início dos dois foi surpreendentemente bom. Os Reds mantiveram o estilo ofensivo de Evans e pareciam ter mais cartas na manga com Houllier.

Uma forte linha de frente com Steve McMannaman, Karl-Heinz Rieddle, Robbie Fowler e Michael Owen facilitava o trabalho dos dois. Entre o fim de agosto e começo de setembro, o Liverpool liderou a Premier League, vencendo três das quatro primeiras partidas do campeonato.

A vitória sobre o Newcastle por 4 a 1 foi a tônica deste momento, com um time pra frente e com um Michael Owen inspiradíssimo, fazendo um enérgico hat-trick.

Até que veio o West Ham. Não bastasse a derrota por 2 a 1 que custou uma liderança que não seria mais recuperada, as primeiras rachas da nova estrutura do Liverpool começaram a aparecer.

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O atacante alemão Kar-Heinz Rieddle, campeão mundial em 1990, começou a partida no banco, poupado para o confronto da Copa da UEFA dias depois. Os jornais da época apuraram que foi um forte ponto de discussão entre Evans e Houllier. Para piorar foi o centroavante quem marcou o único gol vermelho da partida.

A derrota em si não teve muito impacto, dado que foi seguida de uma boa vitória contra o Kosice, da Eslováquia, na estreia da Copa da UEFA. No entanto, o empate em Anfield com o Charlton e a derrota para o Manchester United acenderam um alerta no clube e na torcida.

Neste período, como Roy contou muitos anos depois em sua biografia autorizada, o problema na dinâmica da dupla era menos de decisões técnicas, como no caso de Rieddle, mas gerenciais. Os jogadores, por exemplo, não sabiam quem de fato era o chefe.

Liverpool

A situação piorava com a fama de Houllier de evitar confrontos. Com mais voz e moral no vestiário, sobrava, então, para Evans dar as broncas nos jogadores, criando uma certa divisão no grupo no sentido de sua visão dos treinadores.

O problema, de qualquer maneira, foi esquecido por algumas semanas, numa sequência de duas vitórias e três empates, entre Premier League, Copa da UEFA e Copa da Liga. Uma derrota por 1 a 0 para o Leicester fez aparecer alguns burburinhos, mas nada que preocupasse.

Até que veio o jogo contra o Valencia, ainda pela segunda fase das eliminatórias da competição secundária da UEFA. A primeira partida, em Anfield, terminou num empate sem gols. A volta, no Mestalla, foi emocionante. Claudio López, do Valencia, abriu o placar aos 45 do primeiro tempo.

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McManaman e Berger viraram o placar, mas Claudio López, mais uma vez, marcou no estouro do cronômetro. O placar continuava favorável, mas houve uma confusão e McManaman e Paul Ince, dois dos principais jogadores dos Reds, foram expulsos, junto de Carboni, do Valencia.

Mesmo com a classificação, Roy Evans estava muito irritado com o comportamento de seus jogadores, mas principalmente com a arbitragem, que expulsou dois de seus jogadores que poderiam – e iriam – fazer falta na fase seguinte.

No entanto, como Evans revelou em sua biografia, Gerard teria se omitido nos vestiários, tanto da bronca em McManaman e Ince como no juiz do jogo. Pior: se preocupou em distribuir camisas do clube à equipe de arbitragem.

Para o inglês, aquilo foi a gota d’água. Na viagem de volta, ficou claro para Evans que a dupla não daria certo e começou a considerar seriamente a sua saída do clube, já que a imagem e as relações de Houllier o mantinham praticamente intocável no cargo.

As derrotas para o Derby County e para o Tottenham, esta última resultando na eliminação do Liverpool na Copa da Liga, foram o empurrão que Evans precisava, e, no dia 13 de novembro de 1998, anunciou sua saída do Liverpool, marcando o fim da dupla de uma inusitada dupla de técnicos e de uma passagem de de vinte e três anos de um homem dedicado inteiramente ao clube.

A Era Houllier

Foto: This is Anfield

Após a saída de Evans, Houllier teve o cargo só para ele. Isso marcaria o início de uma era que resultaria em muitos títulos aos Reds, como o da hoje chamada Liga Europa. O resto da temporada, no entanto, não foi tão especial.

Apesar da esperada melhora de desempenho, o Liverpool foi eliminado nas oitavas de final da Copa da UEFA para o Celta de Vigo, eliminado na FA Cup pelo Manchester United e terminou a Premier League na sétima colocação, fora de competições europeias.

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Ainda assim, não é uma temporada para os torcedores dos Reds esquecerem. Na história, ficou marcada como uma transição da era do Boot Room para os tempos modernos.

Foi a temporada em que marcou a consolidação de um jovem Michael Owen, marcando 21 gols; a primeira em que Jaime Carragher foi titular e a temporada de estreia de ninguém menos Steven Gerrard, duas lendas do clube de Merseyside.

Não podemos esquecer que foi o ano em que houve a icônica e polêmica comemoração de Robbie Fowler, contra o Everton.

Enquanto isso, Roy Evans seguiu com a sua vida. Sua carreira não durou muito após a saída do Liverpool, ficando por um ano no Fulham, numa estranhamente similar situação de dois técnicos com seu antigo comandado, Karl-Heinz Rieddle, em 2000, e três meses apagados no Swindon Town, em 2001.

Evans garante que não há mágoas com Houllier, desmentindo problemas pessoais com o francês, transpondo a culpa para a dinâmica de dois treinadores.

“Simplesmente não funcionou. Eu penso que não é a formula certa para os jogadores. Eles não sabem que é o chefe”, ele encerrou, ao Independent.