Liverpool do Boot Room, parte 2: Paisley, Fagan e o espírito do Boot Room

A PL Brasil conta como o Liverpool superou a saída de uma lenda

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Esta é a parte dois do especial da PL Brasil sobre o Liverpool do Boot Room, período mais vitorioso da história do clube. Você pode acessar a parte um aqui.

O fim como um início

A pequena sala estava abarrotada de gente. Jornalistas, fotógrafos, executivos, funcionários, todos estavam nela. Mas estava quieta. O anúncio já tinha sido feito, o choque já havia passado.

O chairman John Smith já tinha lido seu breve comunicado, os flashes dos fotógrafos e o burburinho indistinguível das perguntas dos repórteres já se dissipara. O que restava era um silêncio atencioso.

– Algum arrependimento? – pergunta um jornalista, forçando a voz a sair.

 – Aye, – respondeu firmemente Bill Shankly – apenas um, não vencer a Europa.

O então ex-comandante levantou-se e dirigiu-se à porta, mas não sem antes comentar, enquanto ajeitava seu terno:

– Não haverá muitos dias como esse, rapazes.

E saiu. Realmente, imaginava-se ali não haver tão sentida despedida. Ele era o Liverpool e o Liverpool tinha sido ele pelos últimos quinze anos. Poderia alguém ser tão Liverpool quanto ele?

Obviamente, essa dúvida foi o tema da maioria das perguntas daquela improvisada coletiva de imprensa de despedida. Mais cedo, Shankly fora questionado sobre o seu sucessor, pergunta a qual respondeu lavando as mãos, figurativamente.

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Foram quase automáticos os sorrisos sarcásticos que tomaram os rostos dos presentes. Para quem conhecia Bill Shankly, era inconcebível um homem tão atento aos detalhes e tão ligado ao seu legado ter tamanho desapego.

De fato, a resposta de Shankly para a diretoria numa reunião horas antes tinha sido diferente da apresentada à imprensa. O escocês ditou uma lista com alguns nomes de treinadores da primeira divisão, um ou dois promissores talentos da segunda divisão e foi isso.

Para a sorte do Liverpool e talvez de todo o futebol, o próprio John Smith se mexeu em sua cadeira, apoiou os cotovelos na mesa, e perguntou, olhando nos olhos de Shankly:

– E Bob Paisley?

– Sim – respondeu Shankly, quase que imediatamente, sem desviar o olhar.

O complemento que tardou um pouco mais para sair:

– Não tinha parado para pensar no Bob, mas sim.

O Comandante Relutante

Foram 46 anos de Bob Paisley no Liverpool, de jogador a treinador. (Foto: These Football Times)

Dentre todos os pedidos de Shankly à sua comissão técnica, desde o seu primeiro dia, havia apenas uma exigência, a lealdade. Seria um desrespeito de sua parte, portanto, a não indicação de Paisley, seu assistente por todo o seu período no clube, justo no seu último dia como comandante.

Seria se os quinze anos de parceria com o inglês não ensinassem nada ao escocês. Bob Paisley não tinha nenhuma pretensão de ser o manager do Liverpool, e Shankly sabia disso. Mas os anos também ensinaram algo ao presidente John Smith sobre seu empregado.

Bob tinha certas características que não eram exatamente compatíveis com as de um líder. Era um tanto quanto pessimista, tinha certa aversão aos holofotes e não era exatamente um disciplinador.

Mas era Liverpool, acima de seu jeito, de suas pretensões, de tudo – e era justamente o que Smith precisava.

Engraçado era que por ser Liverpool que Paisley relutava em ser o novo manager. Para ele, ser Liverpool era o que tinha sido pelo últimos quinze anos, um assistente, um homem de equipe, um dos Boot Room Boys.

Mais engraçado ainda é que exatamente por isso ele era a pessoa certa para o cargo.

Boot Room Boys

Nem sempre o que Kenny Dalgish (esq), Ronnie Moran (centro) e Paisley (dir) bebiam era chá. (Foto: Liverpool Echo)

A cena se repetia ao fim de cada jogo em Anfield. Dado o apito final, enquanto a torcida fazia as saudações, os jogadores desciam aos chuveiros e Shankly em seu escritório, Bob Paisley e seus colegas de comissão se dirigiam à sala de chuteiras para, bom, conversar.

Era um cômodo pequeno, de cerca de 5 metros quadrados, com o teto irregular, já que era parte da fundação das arquibancadas.

Na parede de frente para a porta, uma espécie de estrado de madeira repleto de suportes de metal servia de suporte para as chuteiras lavadas, dispostas de uma maneira que somente o roupeiro saberia dizer qual a chuteira de tal jogador e onde estava.

Ao lado da estrutura, uma parede com fotos de mulheres seminuas, recortadas de revistas ou de calendários. No chão, o espaço disponível também não era o dos maiores.

Uma estante com mais chuteiras, bolas e outros aparatos ocupava uma das laterais da sala. Paralelo à ela um grande cooler branco. Entre eles, barris e engradados de cerveja e uma pequena mesa com duas cadeiras.

Aquele era o Boot Room.

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Um espaço apertado, úmido e brilhante. Ao fim de cada jogo, as mentes pensantes do Liverpool ali se reuniam para confraternizar, tomar umas bebidas e trocar ideias sobre a partida que acabara a poucos minutos, sobre partidas que acabaram há alguns dias, sobre o futebol, e, claro, sobre o próprio Liverpool.

Sabe a cadeira? A disposta junto da mesa, entre a estante e o cooler? Era a cadeira de Bob Paisley. Todos que entravam, seja Fagan, Bennet, Moran, Evans, se esparramavam pelo cômodo, dividindo o banco, virando os engradados, se apoiando na estante, mas não Paisley. Ele tinha seu lugar, no centro de tudo.

Paisley conquistou títulos em todos os seu anos no comando. (Foto: Liverpool Echo)

Era somente depois que ele sentava em seu lugar que a resenha realmente começava. “Então, o que acharam?”, perguntava. E cada um respondia sob sua perspectiva: Fagan mediava o assunto entre o técnico e o tático; Bennet, sobre o desempenho físico; Ronnie Moran e Roy Evans sempre faziam a ligação com os treinos e Saunders sobre os destaques adversários.

Paisley, apesar de ser “só” o cara da tática, dava seus pitacos em todas as áreas. Até porque era de seu cargo. Como primeiro assistente, era o braço direito de Shankly. Se o manager pensava em tudo, Paisley tinha de acompanhar.

Tudo isso, sempre bom lembrar, num clima descontraído, regado à muita adrenalina, do jogo; cerveja, dos barris; e uísque, do copo de Bob. Risadas nas vitórias e xingamentos nas derrotas eram tão presentes quanto conceitos e ideias.

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Dessas conversas, mais até do que de reuniões engravatadas em salas espaçosas e decoradas, saíam as estratégias para o jogos seguintes, uma alteração no treinamento, a indicação de um jogador para reforçar o elenco, seja ele advindo da base, como na maioria das vezes, seja de outra equipe.

As decisões, é claro, tinham de passar pelo crivo de Shankly. E era Paisley quem fazia esta ligação entre o Boot Room e o comandante. Assim sendo, Bob estava presente – o único, inclusive -, em todos os momentos da gestão shankliana, da concepção ao sim ou não.

Não tinha como ser mais Liverpool do que isso. E por isso mesmo, com a saída de Shankly, o Liverpool tinha de ser ele. E foi, assim que percebeu que podia ser manager e ser Liverpool, do seu jeito, da sua cadeira.

A Dinastia do Liverpool do Boot Room

A temporada de 1980-1981 foi a mais vitoriosa sob Paisley, com três títulos. (Foto: Daily Mail)

O primeiro ato de Bob Paisley como técnico do Liverpool não poderia ser outro: manter tudo como estava. Não por comodismo, mas por consciência de que não havia motivo para mudar. Bob tinha em mãos um Rolls Royce, bastava manter o óleo e a água em dia.

Foi assim mesmo, mantendo o motor ligado e as engrenagens funcionando, que Bob fez o Liverpool permanecer no caminho das vitórias. Sob seu comando, os Reds conquistaram vinte títulos num espaço de nove anos, a maior média de conquistas por temporada da história do clube.

Três vezes campeão da Copa Europeia (a atual Champions League) e uma vez da Copa da UEFA (Liga Europa), seis vezes do Campeonato Inglês, mais três títulos da Copa da Liga Inglesa, para ficar “só” entre o mais importantes. Para ter esse currículo, não basta somente a continuidade.

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“Homem da tática” de Shankly, Paisley evoluiu suas ideias com a maior liberdade nas decisões de como seu time deveria jogar. Pegou o jogo coletivo e estético instalado pelo antigo chefe e adicionou suas doses de intensidade e estratégia.

“Ter a bola e a velocidade”, ele costumava dizer. Com a maior pressão pelo resultado e maior atenção dos adversários, o novo manager fez do Liverpool um time mais direto, combinando as associações de passes curtos com bolas longas e rápidas. Um meio termo entre a mentalidade coletiva de Shankly e o futebol direto praticado na Inglaterra.

Paisley também tinha um excelente olho para possíveis reforços. Kenny Dalglish, Graeme Souness, Ian Rush, todos foram “descobertos” pelo treinador e elevados a protagonistas em sua administração.

A intuição valia também para membros do staff. Ainda em 1974, sua primeira temporada, convenceu o limitado defensor Roy Evans a se tornar um promissor assistente, futuramente um icônico membro do Boot Room.

De um relutante comandante a um líder sábio e campeão inigualável. O reconhecimento, obviamente, veio galopante: todos queriam saber do homem que substituiu a lenda, e como o fez.

Não tardou, portanto, para o Boot Room ganhar fama no meio do futebol. Jornalistas, jogadores, dirigentes, técnicos, sempre aparecia alguém para conhecer o verdadeiro escritório de Bob Paisley.

No alto da boa-aventurança de um time vencedor, os gentlemen do Liverpool recebiam seus adversários no mais ilustre cômodo de Anfield. Tomavam cerveja, discutiam o jogo, o futebol de um modo geral, além de trocar informações sobre métodos de treino, num rompante de espírito esportivo.

A prosa, no entanto, era uma armadilha. “Eles sentavam-se naquela sala, batiam um papo, serviam um pouco de ‘hospitalidade’ líquida aos treinadores visitantes, mas eram muito astutos”, relembra Kenny Dalglish, lendário jogador do Liverpool, ao The Guardian.

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“Mas enquanto isso, Ronnie (Moran) e Roy (Evans) captavam todas as informações soltas sobre jogadores, às vezes táticas, novas ideias, como outras pessoas estavam trabalhando (…) e levavam às reuniões de segunda-feira”, completa o atacante, que jogou sob o comando de Paisley e chegou a ser técnico do clube em duas oportunidades.

Eventualmente, os adversários acabaram percebendo – na maioria das vezes, tarde demais – o “esquema”. As visitas foram então diminuindo, assim como as informações deixadas por lá.

Ainda assim, o prestígio do Boot Room como um centro de inteligência se fortaleceu, como foi visto à época da aposentadoria de Paisley, em 1983.

Tanto Paisley (esq) quanto Fagan (dir) iniciaram suas carreiras de treinador como preparadores físicos. (Foto: Daily Mail)

Diferente do pesar, quase luto, da saída de Shankly, lamentava-se, sim, a saída da figura de Bob Paisley, mas não havia a mesma dúvida sobre a continuidade da dinastia iniciada em 1959. Bastava, pois, passar o trono ao próximo da linha de sucessão.

Fagan, ou A Tríplice Coroa e a Tragédia

Apesar do apoio da opinião pública, não houve menor relutância por parte de Joe Fagan, o então primeiro assistente, para assumir como manager do Liverpool. Tal qual Paisley, Fagan era muito apegado à familiaridade do staff e do Boot Room.

Na verdade, Fagan era ainda mais apegado à pequena sala de chuteiras do que qualquer outro funcionário dos Reds. Foi ele que em 1959 viu num quarto bagunçado uma possível sala comum.

Enquanto trabalhava na comissão técnica do Liverpool, antes mesmo da chegada de Shankly, Joe Fagan fazia “bicos” como treinador do time da cervejaria local, trabalho pelo qual recebia, além de um breve ordenado, caixas e barris de cerveja, aos montes.

Sem ter onde guardar em casa e aparentemente em nenhum lugar nas salas comuns de Anfield, Fagan foi orientado a armazenar os litros e litros de cerveja na hoje histórica sala de chuteiras.

Empilhando os engradados, viu o enorme potencial que tinha aquele espaço próximo ao vestiário. O resto é história.

A passagem de Fagan como comandante de fato do Liverpool é curta, mas brilhante. Logo em sua primeira temporada, conquistou nada menos que a Tríplice Coroa: o Campeonato Inglês, Copa Europeia e Copa da Inglaterra.

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Fagan (centro), junto de Moran (esq.) e Evans (dir.). Ele foi o único da história do Liverpool a conquistar a tríplice coroa. (Foto: Colorsport/REX Shutterstock)

À revelia do estigma de bom moço, isto é, de ser “bonzinho demais” para liderar uma equipe de futebol, Fagan foi capaz de reunir o grupo em torno de sua ótima reputação – Fagan era desde sempre o “psicólogo” dos jogadores, atencioso com os problemas extracampo –  e extrair o melhor dos jogadores.

Fora que o esperto treinador deixava o trabalho sujo das broncas e cobranças para Ronnie Moran, que virou primeiro assistente após a sua promoção.

A segunda temporada teve mais frustrações do que glórias. Em 1984-1985, o Liverpool foi vice-campeão da Supercopa da Inglaterra, Supercopa da Europa, do Mundial de Clubes e do Campeonato Inglês (perdendo para o arquirrival Everton).

Mas o último vice foi o pior. Antes do início da final da Copa Europeia de 1984/1985, uma combinação de fatores entre violência da torcida, despreparo policial e planejamento errôneo da UEFA levou a uma confusão generalizada dentro do estádio de Heysel, em Bruxelas, que deixou 39 mortos e mais de 600 feridos.

A pior parte, porém, foi que o jogo aconteceu, mesmo depois de tudo isso. A Juventus, rival do Liverpool naquela tarde, venceu por um 1 a 0, mas não houve comemoração.

O acontecimento foi um forte baque para o envolvidos. Para os clubes ingleses, uma suspensão de 5 anos de competições europeias. Para Fagan, uma desilusão tamanha que o levou à imediata aposentadoria. Já para o Liverpool, a morte da magia que acreditava vir de sua mais icônica sala.

Dalglish, Moran, Evans e o Fim

Fagan apelou aos torcedores pelo sistema de som de Heysel durante a confusão inicial (Foto: Daily Mail)

A tragédia fez feridas ao espírito do Liverpool do Boot Room que foram difíceis de cicatrizar.

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O choro e estado inconsolável de Joe Fagan no desembarque do voo de Bruxelas fizeram a diretoria e os próprios membros da comissão técnica repensar a proximidade da relação que tinham com o clube.

Além do mais, aquele ano tinha sido bastante decepcionante futebolisticamente, com todos aqueles vices.

O anúncio de Kenny Dalglish como técnico-jogador em 1985 foi o segundo golpe. A linha de sucessão quebrava-se, ainda que Dalglish fosse um dos mais icônicos jogadores desta era, o herói do título da Europa de 1984, e que tivesse a companhia de Ronnie Moran e Roy Evans, os remanescentes do Boot Room original.

Dalglish fez apenas os dois primeiros anos como técnico-jogador, até tornar-se exclusivamente treinador. (Foto: Liverpool Echo)

Foram três anos até o mais duro dos golpes na alma do Liverpool, e mais três para o golpe final.

Em 86, conseguiu o double com o título da Liga e da FA Cup.  Em 87, Dalglish promoveu uma renovação no elenco, que daria frutos em 1988, com o 17º título inglês dos Reds, jogando um futebol ofensivo e avassalador, lembrado até hoje pelos torcedores.

No ano de 1989, a tragédia de Hillborough, em que 96 torcedores do Liverpool morreram durante a semifinal da FA CUP, praticamente extinguiu qualquer brilho que ameaçava a voltar dos tempos gloriosos do Boot Room.

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Os títulos, ah sim, continuaram. A mesma FA Cup foi vencida naquele ano, numa emocionante final contra o Everton. O Campeonato Inglês de 1990 também, o 18º da história do clube.

Mas os sucessivos golpes foram apagando o brilho da aura em volta da pequena sala de chuteiras.

Em 1991, Dalglish deixou o cargo, mesmo com 11 títulos na bagagem, certamente afetado pelos acontecimentos anteriores. Seu substituto, Ian Souness, outro que brilhou com a camisa vermelha em Anfield, teve a infortuna tarefa de demolir o lendário Boot Room, para dar espaço a uma moderna sala de imprensa, à pedidos da renovada Premier League.

Até houve um último suspiro da Dinastia de Shankly, com Roy Evans assumindo o cargo de manager de 1994 a 1998, mas sem a sala, os companheiros e a magia de outros anos, não foi capaz de repetir o feito de seus antecessores, apesar de ter conquistado uma Copa da Liga.

Nos dias de hoje, o Boot Room é um moderno café nos andares superiores de Anfield. Nas arquibancadas, porém, é a lembrança de tempos gloriosos e do resiliente espírito de uma equipe campeã.