Como as torcidas LGBTQIAPN+ estão (felizmente) dominando a Premier League

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A Premier League tem sido um exemplo no meio do futebol em apoio à comunidade LGBTQIAPN+. A liga promove diferentes campanhas sobre o tema e os clubes constantemente demonstram suporte na luta contra a LGBTQfobia.

🏳️‍🌈🏳️‍⚧️O dia 28 de junho é conhecido como o Dia Internacional do Orgulho LGBTQIAPN+, mas essa data é celebrada por todo o mês. A escolha se dá pelos acontecimentos de 1969, ano da Rebelião de Stonewall, em Nova York, quando frequentadores do bar Stonewall Inn enfrentaram a violência policial contra o grupo. O local se tornou epicentro de uma marcha do orgulho um ano depois, reunindo 10 mil pessoas.

Mas a luta não é apenas durante o mês de junho. Ela é diária. Segundo dados do Grupo Gay Bahia, a ONG LGBT+ mais antiga da América Latina, o Brasil liderou o ranking de países que mais matam pessoas LGBTQIAPN+ no mundo pelo 14º ano consecutivo. A organização também aponta que 257 pessoas morreram no país em 2023 vítimas da violência e LGBTQfobia.

⚠️No ano passado, a Inglaterra apareceu na 17ª colocação entre os países que mais apoiam a comunidade LGBTQIAPN+, segundo a ILGA-Europa (Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Trans e Intersexo).

2024 Premier League Football Tottenham v Wolves Feb 17th
Tottenham exibe no telão de seu estádio homenagem à torcida LGBTQIAPN+. Foto: Icon Sport

A violência na Inglaterra contra o grupo também tem aumentado. Segundo a ONG Stonewall, que luta pelos direitos da comunidade LGBTQ+, houve aumento de 112% nos casos de violência com base na orientação sexual nos últimos cinco anos. No entanto, esse número pode ser maior. Os dados do governo inglês apontam que apenas uma em cada dez pessoas LGBTQIAPN+ denunciam crimes ou incidentes de ódio.

O sinal de esperança por mudanças pode estar no futebol.

Em uma pesquisa realizada pelo “YouGov” — empresa sediada no Reino Unido e de pesquisa de mercado sobre a opinião da população em assuntos variados — aponta que 46% dos torcedores ingleses acreditam que a lgbtfobia é um problema no esporte, enquanto 55% afirmam que os casos de discriminação diminuíram nos últimos dez anos.

Mas indo além das pesquisas, grupos se reúnem para demonstrar o apoio aos clubes da Premier League e promovem a representatividade nas arquibancadas. Discutindo temas importantes e a conscientização sobre a LGBTQfobia não apenas no esporte, mas na sociedade.

As campanhas da Premier League

💪A Premier League está engajada em diferentes causas sociais, sendo a luta contra a lgbtfobia uma das principais. Uma de suas campanhas mais importantes é a Rainbow Laces.

Desde 2016, a Stonewall realiza o trabalho em conjunto com a Premier League pela causa. A parceria criou a Rainbow Laces (“Laços de arco-íris”, em português), com objetivo de impulsionar mudanças na luta LGBTQIAPN+.

Todos os anos, durante as 14ª e 15ª rodadas da Premier League, as braçadeiras dos 20 capitães e os cadarços das chuteiras dos jogadores são estampadas com as cores do arco-íris. Os estádios também contam com placas e as bandeiras de escanteio com a marca da Rainbow Laces.

Durante todo o ano, a liga demonstra apoio na luta pela causa. No site oficial, foi criada uma página para a Rainbow Laces, onde são divulgadas entrevistas e conteúdos especiais sobre o assunto. Em 2023, a Premier League também criou um canal de denúncias online para qualquer descriminação e informações de como denunciar os abusos online nas redes sociais ou enviando mensagem de texto para os clubes.

A liga não divulga o número de denúncias de torcedores pelo canal oficial, mas em 2022, investigou 400 casos de discriminação contra árbitros, dirigentes, jogadores e seus familiares. Os tipos de abusos não são especificados, mas a liga afirma que qualquer discriminação pode ser denunciada, por exemplo ameaças ou ofensas.

Indo além das campanhas do Rainbow Laces, os clubes demonstram apoio fora das arquibancadas. Desde 2013, torcedores se reúnem para acompanhar o time do coração na Premier League. A “Pride in Football” é uma rede de grupos de fãs de futebol LGBTQIAPN+ do Reino Unido, sendo 48 torcidas organizadas de times da Inglaterra, nos quais 17 são da primeira divisão.

Kop Outs e a paixão pelo Liverpool

Em um cenário completamente diferente do futebol brasileiro, a Inglaterra conta com número significativo de torcidas LGBTQ+ frequentando os estádios de forma aberta. Entre eles está a Kop Outs, que reúne grupos de apaixonados pelo Liverpool. O nome é uma referência a uma famosa arquibancada de Anfield.

A Kop Outs foi fundada em 2016 por Paul Amann e teve sua criação apoiada pelo Liverpool. Inicialmente, ela contava com 60 membros, mas o número já chega a mais de 430 hoje, além de milhares de seguidores nas redes sociais.

O grupo trabalha com democracia em sua organização. Todos os anos, pelo menos metade dos membros oficiais se candidata às eleições anuais para a formação do comitê, com mandato de dois anos. Esse comitê é responsável pela escolha do representante da torcida no Conselho de Apoiadores do Liverpool.

Paul Amann em Anfield na partida do Liverpool.
Paul Amann, fundador do Kop Outs, em Anfield durante partida do Liverpool. Foto: Divulgação/Kop Outs

Presença nos estádios

A presença da Kop Outs não fica restrita às redes sociais. O grupo de torcedores também está nos estádios, principalmente em Anfield.

Conseguir ingressos para acompanhar os jogos na casa do Liverpool não é fácil, mas ocasionalmente alguns membros conseguem as entradas. Quando vão para as partidas, as bandeiras e banners da Kop Outs são exibidas nas arquibancadas do estádio dos Reds.

— Nosso banner é hasteado periodicamente quando conseguimos assentos na Kop (em Anfield), o clube vende uma variedade de mercadorias do orgulho LGBTQIAPN+, com muitos membros da Kop Outs usando-o quando assistem aos jogos — contou Paul Amann à PL Brasil.

O trabalho de conscientização não acontece apenas em Anfield e junto aos Reds. A Kop Outs tem realizado ações com outros grupos de torcedores para coordenar abordagens e melhorar a experiência de torcedores LGBTQIAPN+ nos estádios.

Apoio dos jogadores e encontro com Klopp

👏O Liverpool é considerado um pioneiro na luta pela causa. O clube não se limita aos posts em redes sociais e recepção em Anfield. Jogadores e diretoria já demonstraram apoio publicamente e realizam trabalhos com a Kop Outs.

— O clube foi o primeiro do mundo a marchar em evento do Orgulho, a convite de Paul (Amann). A diretoria se reuniu com Paul para discutir cantos preconceituosos em um vídeo que ajudou muito a melhorar a atmosfera para os fãs LGBTQ+. Os jogadores fizeram declarações públicas de apoio aos direitos LGBT+, incluindo Van Djik, Matip e Alexander-Arnold — comenta Paul Amann à PL Brasil.

Mas o momento crucial mesmo foi o encontro com Klopp. Em agosto de 2021, o técnico alemão conversou com Paul sobre cantos preconceituosos nos estádios. Na ocasião, torcedores presentes no Carrow Road em partida contra o Norwich cantaram a música “rent boys”, um termo em inglês usado de forma pejorativa para se referir a garotos de programa que fazem sexo com outros homens.

— O que as pessoas não necessariamente percebem é que isso é cantado para o jogador, mas na verdade as pessoas que ouvem isso são outros fãs como eu, que então deixam de ouvir “You’ll Never Walk Alone” e são abraçados pela torcida e pela atmosfera fantástica para então, de repente, ser deixado no frio. É como se um balde de água fria tivesse sido jogado sobre você em termos do estado emocional que o atinge. Porque é um canto tão desnecessário que deixa muitos torcedores gays totalmente desamparados. E está errado — disse Paul em conversa com Klopp, divulgada nas redes oficiais do clube.

Na conversa com Paul, em vídeo que foi publicado nas redes sociais oficiais do Liverpool, Klopp lamentou o ocorrido e chegou a criticar a atitude dos torcedores.

— Nunca entendi por que você cantaria uma música que é contra alguma coisa em um estádio de futebol. Eu nunca entendi isso. Nunca gostei e não gosto disso. Especialmente no nosso caso, temos provavelmente a melhor canção do mundo (You’ll Never Walk Alone).

Segundo a Kop Outs, essa conversa entre Paul e Klopp foi fundamental para conscientizar os torcedores não apenas em não serem preconceituosos, mas serem ativos na luta.

O trabalho do Rainbow Devils e Manchester United

Outro time que é ativo na causa LGBTQ+ é o Manchester United. O Rainbow Devils mistura a paixão pelo United com a luta pela inclusão. O grupo foi fundado em 2019 por Eric Najib, presidente da torcida desde então e fanático pelo clube.

Najib não trabalha apenas no United. Desde 2004, ele é o técnico do Stonewall FC, time que leva o nome da cidade e está localizado ao leste de Londres. O clube existe há mais de 30 anos, com o objetivo de aumentar a representação LGBTQ+.

O Stonewall FC reúne cinco times diferentes, promovendo treinos semanais para participação de homens, mulheres e não binários. O clube também tem parceria com a Adidas e EA Sports.

Em termos de adesão, o Rainbow Devils é uma das maiores torcidas LGBTQ+ da Inglaterra. O grupo reúne aproximadamente 1.700 associados e 20 pessoas formam o Comitê, que ajudam na organização de eventos sociais e publicações nas redes sociais.

Segundo Cass Hyde, que faz parte do Comitê do Rainbow Devils, o grupo reúne torcedores de diversas idades e que estavam presentes em momentos históricos do United, além de apoiar o clube em jogos no Old Trafford e outros estádios.

— Temos membros que apoiam o time masculino, feminino, membros que possuem carnês de ingressos desde as décadas de 1960 e 1970 ou que estiveram no Camp Nou em 1999, em Moscou em 2008 (nas finais da Champions League). Também temos membros que se apaixonaram pelo futebol por causa da sexualidade ou identidade de gênero, mas querem voltar a apoiar o United e sentem que podem fazer isso com grupos como Rainbow Devils — comentou Cass Hyde à PL Brasil.

Apoio do Manchester United

A existência do Raibown Devils se dá graças aos apoio do United. O clube mantém banners do grupo de torcedores sendo exibidos em Old Trafford e Leigh Sports Village — estádio usado pela equipe feminina e sub-21 masculina –, mas não é apenas isso.

Na atual temporada, durante a campanha do Rainbow Laces, clube e o grupo de torcedores, em parceria com a Adidas, promoveram o evento “One Love Live”, no Old Trafford. No local, foram feitas ações em apoio à inclusão da comunidade LGBTQ+ no futebol e a exibição do curta metragem sobre o Rainbow Devils, que faz parte da série “One Love”, produzida pela MUTV.

— O clube ajudou a promover a adesão ao Rainbow Devils nas redes sociais, auxiliando o grupo a atingir um número de membros de quatro dígitos. Como comitê, nos esforçamos muito no Rainbow Devils, mas nosso trabalho não teria um décimo do impacto que tem sem o apoio do Manchester United — comenta Cass Hyde.

Luta contra a lgbtfobia

Nos últimos anos, o Reino Unido tem evoluído na luta contra a lgbtfobia. No caso do Manchester United, o clube enviou um e-mail no início de abril aos torcedores que estariam presentes em Stamford Bridge contra o Chelsea junto com a divulgação de um vídeo nas redes sociais explicando a natureza ofensiva de cantos ofensivos em “provocação” aos rivais. Esse trabalho foi feito em parceria com o Rainbow Devils.

Segundo Cass Hyde, a iniciativa trouxe resultado. Torcedores, além de não cantarem gritos preconceituosos, tomaram atitudes drásticas com objetivo de enfrentar o preconceito.

— Descobrimos que durante o jogo com o Chelsea, e mesmo na derrota por 4 a 3 em Stamford Bridge no início desta temporada, qualquer tentativa de cantar o cântico rapidamente fracassou e foi impedida por outros torcedores. Um progresso está sendo feito no Manchester United. Progresso que teria sido impossível sem o apoio do clube.

A conscientização deve continuar

Mesmo com o avanço da conscientização e o apoio de clubes ou da Premier League, o trabalho precisa continuar. Como relatado por Kop Outs e pelo Rainbow Devils, os estádios estão mais acolhedores para torcedores LGBTQ+, mas a mudança ainda não acabou.

— Ainda há muito a fazer em todos os clubes, mas envolver outros torcedores é fundamental para alcançar a mudança. Não vamos reprimir nosso combate à LGBTQfobia — declarou Paul Amann do Kop Outrs.

No mês do Orgulho, Paul, do Kop Outs espera que torcedores do Liverpool e de outros clubes continuem demonstrando solidariedade para a causa.

— ‘You’ll Never Walk Alone’ veio de um musical, foi popularizado por Judy Garland e tem um significado que está embutido no espírito de inclusão e solidariedade de Liverpool — completou Amann, citando a cantora e atriz norte-americana Judy Garland (1922-1969). Além de ter interpretado Dorothy em “O Mágico de Oz”, ela foi um ícone LGBTQ+ por toda sua resiliência nessa luta ao longo de sua carreira.

Cass Hyde acredita que a iniciativa também deve ser tomada pelos jogadores dos times masculinos. A influência dos atletas ao falarem publicamente sobre o assunto pode ser crucial. Além disso, há a esperança de que grupos de torcedores LGBTQ+ de outros países recebam o apoio e acolhimento nos estádios.

— Ainda há muito trabalho e educação para fazer na luta contra a discriminação, mas o mundo do futebol está muito mais receptivo do que há 10, 15 anos. Com o trabalho árduo dos clubes de futebol e das organizações de torcedores, a discriminação contra os torcedores LGBTQ+ no futebol pode acabar. Há muita esperança para o futuro. Não importa que alguém diga o contrário, o futebol é para todos — declara Cass Hyde.

Rainbow Devils na Manchester Pride
Rainbow Devils na “Manchester Pride”, Parada do Orgulho LGBT+ da cidade. Foto: Reprodução/Rainbow Devils
Gabriel Lemes
Gabriel Lemes

Me formei em Jornalismo pela Univap em 2019 e sou redator da PL Brasil. Já escrevi para o Quinto Quarto, Minha Torcida, Futebol na Veia e Portal Famosos.