Laurie Cunningham, um pioneiro e ícone contra o racismo na Inglaterra

Cunningham derrubou estereótipos, foi referência para jovens negros e deixou legado no futebol inglês

Laurie Cunningham
Arte: Rômulo Amorim

Acima de tudo, Laurie Cunningham foi um homem à frente do seu tempo. Embora o seu legado tenha demorado a ser reconhecido, ele quebrou barreiras com a mesma facilidade que driblou adversários.

No rígido futebol inglês da época, Cunnigham ousava ao driblar. Chamava atenção pelos dribles, mas também pelo comportamento fora de campo. Por gostar de conversar sobre música, cinema e cultura, derrubou vários estereótipos referentes à população negra muito fortes na época.

O filho de imigrantes jamaicanos ajudou a pavimentar o caminho para jovens jogadores negros, permitindo que o futebol inglês apreciasse nos anos seguintes o talento de nomes como John Barnes, Ian Wright e Les Ferdinand.

Contexto da Inglaterra na época

Os grandes centros urbanos do país receberam milhares de imigrantes (majoritariamente negros) naquela época, principalmente, de países da América Central e Caribe, como Jamaica, Bermudas e Trinidad e Tobago.

A sociedade inglesa se transformava tanto cultural como socialmente. Mas o cotidiano da Inglaterra para a população negra na década de 1960 era intimidante, fosse dentro ou fora dos estádios.

O fim da década também marcaria a criação e ascensão de grupos de extrema-direita e defensores da segregação racial.

O partido político National Front foi fundado em 1967 e defendia a visão de que apenas os brancos deveriam ser cidadãos do Reino Unido. Um ano depois, o neonazista British Movement era criado e também ganhava força. Ambas organizações usavam as arquibancadas para recrutar jovens e estimular agressões verbais aos atletas negros e físicas aos torcedores negros.

Para os jogadores negros, os gritos da arquibancadas, na grande maioria das vezes, eram brutais. Xingamentos, cusparadas, imitações de macaco e bananas arremessadas no campo eram cenas mais do que comuns.

Paixão pela dança na noite londrina

Assim como nos gramados, os holofotes também procuravam Laurie Cunningham na noite londrina. Era nas pistas de dança pela capital inglesa que ele também se encontrava, ao som de soul e funk.

O talento de Cunningham não era apenas nos gramados. Ele chegou a participar de concursos de dança três a cinco vezes por semana e deixava até a última gota de suor antes de voltar para casa. Os rumores da época davam conta de que ele usava parte da premiação para pagar suas multas ao clube por atrasos aos treinos.

Ele integrou a juventude que moldou Londres em uma cidade mais plural culturalmente. Foi justamente entre uma boate e outra, que conheceu Nicky Brown, que se tornaria sua amiga e, anos depois, namorada.

O namoro com uma mulher branca não foi bem visto por parte da sociedade. Por mais de uma vez, Cuninngham precisou defender a si mesmo e sua namorada de agressões nas ruas.

Dispensado pelo Arsenal e recebido pelo Leyton Orient

Naquele período, estava surgindo o que viria a ser um ícone no combate ao racismo no futebol inglês. Apaixonado por dança e futebol, o jovem Laurie, aos 16 anos, recusaria uma oferta para integrar o Ballet Rambert para começar sua carreira de jogador no Arsenal.

No entanto, o garoto logo foi dispensado do seu primeiro clube. Ele seguiu em Londres, trocando os Gunners pelo Leyton Orient.

Em seu primeiro treinamento na nova equipe, ele logo chamou a atenção de todos. Mas não foram pelos dribles, que seriam sua característica marcante. Ele não apareceu na hora do treino e um representante do clube foi enviado até sua casa. Cunningham ainda dormia tranquilamente na sua casa.

Quando finalmente chegou ao local do treinamento e cumprimentou seus colegas de equipe, já despertou desconfiança sobre seu comprometimento e disciplina. Mas no treino, envergonhou os companheiros, com jogadas plásticas e truques com a bola, prática que se tornaria repetitiva em todos os treinamentos seguintes.

Leia mais: A luta histórica de 5 jogadores negros contra o racismo na Inglaterra

O técnico George Petchey sabia que estava diante de um atleta especial. Os dois logo se aproximariam um do outro. Seria Petchey o responsável pelas chances de Cunningham no time titular e orientações tanto dentro como fora de campo.

E foi aos 18 anos que o garoto estreou nos profissionais. No dia 12 de outubro de 1974, ajudou o Orient a vencer o Oldham por 3 a 1, pela Segunda Divisão, na frente de modestos 6.511 torcedores. A partir daí, o jogador viveria três anos de grandes atuações, chamando a atenção de clubes maiores do país todo.

Os anos gloriosos de Laurie Cunningham no West Brom

Em 1977, ele deixaria o Leyton Orient para subir de patamar e acabou se transferindo para o West Bromwich. Embora o técnico Jonny Giles fosse o responsável por sua contratação, o treinador viria a ser demitido pouco tempo depois. O substituto era Ron Atkinson, que seria uma grande influência na carreira do ponta.

Com um grande ego, Atkinson não era alguém que passava despercebido onde estivesse. A autoconfiança que tinha, ele transmitia para os próprios jogadores. O ambiente do clube era leve, de boa convivência e a temporada 1977/1978 ficaria marcada na história.

Primeiro atleta negro a representar a Inglaterra

Ainda em 1977, em seu primeiro ano no novo clube, Cunningham faria história ao se tornar o primeiro atleta negro a representar a seleção inglesa. Ele fora convocado para a equipe sub-21 e marcou o gol da vitória contra a Escócia logo na estreia.

Além da convocação, ser o responsável pelo triunfo foi mais um marco histórico. O futebol inglês estava mudando, e era ele quem liderava, com os habilidosos pés, essa mudança.

Com Laurie Cunningham em campo e as contratações do atacante Cyrille Regis e do lateral Brandon Batson, o West Brom era, então, o único time da época que jogava regularmente com três jogadores negros.

Leia mais: Jack Leslie: o craque que não jogou pela Inglaterra por ser negro

Ninguém ali sabia, mas o futebol seria usado como um importante instrumento de transformação social. O West Brom era a vanguarda.

Os três atletas também representavam a imigração, tão forte na época. Cunningham era filho de jamaicanos, Batson nasceu em Granada (Caribe), enquanto Regis era da Guiana Francesa e naturalizado inglês.

O trio Cunningham, Regis e Batson encaixou tanto dentro como fora de campo. Logo o ótimo desempenho dos três – e do time – ganharia as manchetes e as conversas nos pubs. Cunningham, Regis e Batson, inclusive, receberam o apelido de “Three Degrees”, um trio de cantoras de soul dos Estados Unidos famoso à época.

Assim como outros jogadores negros da liga, os três atletas também sofriam com o racismo nas arquibancadas e recebiam cartas de ameaça. Em uma ocasião, uma bomba de gasolina foi colocada na caixa de correio da casa de Laurie e sua namorada Nicky.

Em campo, respondiam com bom futebol. A equipe seguia vencendo e convencendo. Uma das grandes vitórias foi o 5 a 3 sobre o Manchester United em pleno Old Trafford em 30 de dezembro de 1978.

Laurie Cunningham e seus companheiros mostravam, mais uma vez, que não estavam para brincadeira.

“Nós, provavelmente, viramos o segundo time de muita gente”, disse o técnico Ron Atkinson à época.

Nas temporadas 1977/1978 e 1978/1979, o time de West Midlands chegaria, respectivamente, ao sexto e terceiro lugares no Campeonato Inglês.

A grande campanha em 1977/1978 levou o West Brom a sua primeira participação na Copa da Uefa. Depois de eliminarem Galatasaray e Sporting Braga, a equipe despachou o Valencia.

O time espanhol contava com o argentino Mario Kempes, que foi ofuscado pelo grande desempenho de Cunningham. Suas arrancadas e o jeito leve e abusado de ultrapassar os marcadores chamaram a atenção de grandes clubes.

Brancos x negros

Em maio de 1979, um jogo foi organizado para homenagear o defensor Len Cantello, uma lenda do clube que estava se aposentando. A ideia de jogar uma partida amistosa contra um rival local era comum à época, mas foi substituída por uma motivação inusitada.

O jogo colocaria jogadores brancos de um lado e negros de outro. O que parece inimaginável atualmente, foi tratado com naturalidade por atletas de ambos os times. Coube a Cyrille Regis escalar a equipe com seus companheiros Cunningham e Batson, além de atletas negros de vários times da liga.

“Nenhum de nós hesitou ou se sentiu desconfortável. Foi apenas mais um jogo para nós, como jogadores, mas lembro de ver mais rostos negros e asiáticos na torcida do que normalmente receberíamos nos jogos. Naquela época, não víamos muitos torcedores negros e asiáticos em nossos jogos, mas a participação naquele dia foi mais multirracial do que o normal”, disse Batson ao Daily Mail.

Enquanto os jogadores brancos atuaram com o uniforme do West Brom, a equipe de atletas negros vestiu camisas, shorts e meias brancas. Os “All Blacks”, apelido que o time ganhou, venceram a partida por 3 a 2.

Real Madrid: aplauso de rival, títulos e lesões

Após as ótimas atuações contra o Valencia pela Copa da Uefa, Cunningham chamou a atenção do Real Madrid. O West Brom, certamente, não queria perder o seu melhor jogador e astro em ascensão. No entanto, o clube inglês sabia que não poderia competir com as cifras dos espanhóis.

O novamente pioneiro Cunningham se tornou o primeiro jogador inglês a vestir a camisa do Real Madrid e o segundo atleta negro da história do clube, atrás do brasileiro Didi. A contratação bombástica parou a capital espanhola.

“Quando chegamos a Madrid, as pessoas ficaram impressionadas em como éramos livres. Chegamos numa época da Espanha após a era (do ditador Francisco) Franco e a sociedade era bem conservadora. Eles eram fascinados pelo Laurie e tudo foi muito intenso”, disse a namorada Nicky ao Daily Telegraph.

Cunningham marcou duas vezes em sua estreia e ajudou o Real Madrid a vencer o Campeonato Espanhol e a Copa do Rei logo na primeira temporada no clube. Além dos dribles, conseguiu assistências memoráveis.

Nas cobio, ele batia de trivela e o efeito na bola enganava os adversários. Cabia aos companheiros de time apenas testarem a bola para o gol. Mas o que, realmente, ficou marcado foi o que pouquíssimos jogadores na história conseguiram fazer.

Naquele 9 de fevereiro de 1980, Cunningham voltaria a marcar seu nome na história. Na vitória por 2 a 0 do Real Madrid sobre o Barcelona, no Camp Nou, teve atuação tão magistral a ponto de ser aplaudido de  pelos torcedores adversários.

Apesar dos grandes momentos, a última parte de seu período no clube foi prejudicada por contusões.

Lesão no pé

O Real Madrid não conseguiu diagnosticar corretamente uma lesão em Cunningham, resultando em duas operações cirúrgicas no atleta. Para piorar, em campo, os adversários, muitas vezes, acertavam propositalmente a perna recém-operada do jogador.

Quando quebrou o dedão do pé jogando contra o Real Betis e apareceu, após o jogo, em uma boate, com seu pé engessado, a imprensa não perdoou. Foi acusado de irresponsável e parte da torcida embarcou nas críticas. A partir daí, a situação entre jogador e clube amargou de vez.

As lesões também prejudicaram qualquer chance de reatar o relacionamento de antes. Quando estava em campo, Cunningham não conseguia reproduzir os mesmos dribles desconcertantes de antes. As pernas não acompanhavam mais. Os movimentos corporais não eram tão leves e dinâmicos como antes. No total, foram três operações sérias no joelho esquerdo.

“Os dois primeiros anos foram muito bons. Mas depois o azar tomou conta com as lesões e cirurgias”, disse o jogador.

Ele, então, voltaria à Inglaterra, emprestado pelo Real Madrid ao Manchester United. O responsável pela contratação era Roman Atkinson, com quem brilhou no West Brom anos antes.

Como a explosão não era mais a mesma, Cunningham passou a adaptar seu estilo de jogo. Mas o aspecto físico ainda era um dificultador. Dessa forma, ele desfalcou o United nos jogos da final da Copa da Inglaterra de 1983.

A partir daí, virou um andarilho. De 1984 a 1989, rodou a Europa, jogando em seis clubes: Sporting Gijón, Olympique de Marselha, Leicester, Rayo Vallecano, Charleroi (Bélgica) e Wimbledon.

Enfim campeão na Inglaterra

Laurie Cunningham Wimbledon
Credit: Allsport UK /Allsport

De volta à Inglaterra em 1988, ele viria a conquistar seu primeiro título em solo inglês e de forma surpreendente. Era um completo choque de ideias a chegada de Cunningham ao modesto Wimbledon.

Na época, o time jogava muito duro, por vezes faltoso, com uma proposta mais de destruir, do que construir. Era o oposto do estilo ofensivo do jogador.

Mesmo assim, ambos conseguiram algo que parecia impossível.

O pequeno clube chegou à final da Copa da Inglaterra de 1988. O Wimbledon era a grande zebra e teria pela frente o multicampeão e favorito Liverpool. O que quase todos não imaginavam, aconteceu. Com Cunningham saindo do banco ainda no primeiro tempo, a vitória magra do Wimbledon por 1 a 0 garantiu o título após o apito final.

Acidente automobilístico fatal

Ainda em 1988, ele voltaria à Espanha para atuar no Rayo Vallecano. Mas os dribles tão vistosos que marcaram sua carreira não foram suficientes para evitar o destino. Em 15 de julho de 1989, Laurie Cunningham faleceu, aos 33 anos, em um acidente de carro.

Depois de uma curva, ele não conseguiu desviar a tempo de um carro que estava parado na beira da estrada com um pneu furado. Após sua morte, ganhou estátuas nos estádios do Leyton Orient e do West Bromwich, esse último ao lado dos amigos e companheiros Cyrille Regis e Brandon Batson.

Cunningham foi um ícone do futebol vistoso e referência na inclusão dos jogadores negros no futebol inglês, deixando um legado marcante na história.

https://www.instagram.com/p/BcHnUcQgrd8/