Novo Odegaard? Por que Kubo, da Real Sociedad, é a nova sensação do futebol europeu

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Entra ano, sai ano e sempre surge alguma promessa “bizarra” nas categorias juvenis que rapidamente são contratadas por gigantes como Real Madrid ou Barcelona. Martin Odegaard, hoje capitão e destaque do Arsenal, foi um deles. E um japonês que viveu caminho semelhante pode ser o próximo a atingir o estrelato.

Takefusa Kubo tem uma história semelhante à do astro dos Gunners. Destaque da base do Kawasaki Frontale, do Japão, foi convidado a se desenvolver em La Masia. Fez parte da base do Barcelona dos 10 aos 14 anos e ficou mundialmente famoso por ter feito 74 gols em 30 jogos, enquanto humilhava adversários.

O “Messi japonês”, como ficou conhecido, não poderia jogar pelo profissional do Barça porque o clube foi acusado de ter cometido ilegalidades na sua transferência. Aos 18 anos, assinou com o Real Madrid também com status de joia, mas passou por diversos empréstimos até chegar em definitivo à Real Sociedad.

Odegaard estreou no profissional do Strømsgodset, da Noruega, com 15 anos – foi o mais jovem da história do campeonato a jogar e marcar um gol. Em 2015, antes de completar 17 anos, já era considerada uma das principais promessas do futebol e foi contratado pelo Real Madrid. Também não teve espaço no clube merengue e “explodiu”, também, na Sociedad.

Assim como Odegaard se encontrou no clube basco e conseguiu alcançar a expectativa colocada sobre suas atuações da adolescência, Kubo vem traçando o mesmo caminho e pode estar a um passo de dar o salto à primeira prateleira do futebol mundial.

Quem é Kubo e como se tornou sensação na Europa?

O japonês de 22 anos é um ponta-direito habilidoso, rápido, canhoto e com 1,73m – características que levaram à comparação com Messi. Assim que assinou com o Real Madrid, foi emprestado ao Mallorca, onde aterrorizou defesas adversárias com grande capacidade de drible e arranque.

Sem espaço no Real Madrid, teve outros três empréstimos (Villarreal, Getafe e novamente Mallorca), e contratado pela Sociedad por cerca de 6,5 milhões de euros no início da temporada. Lá, Kubo assumiu um papel marcadamente diferente no sistema de posse de bola de Imanol Alguacil.

kubo vinicius junior
Foto: Icon Sport

Agora, já não é mais a única fonte de magia para equipes ameaçadas pelo rebaixamento – um jogador que ficava na lateral do campo, recebia a bola e esperava que os outros torcessem para que ele fizesse o resto. O japonês se encontra em um sistema flexível e dinâmico, capaz de recuar ou se mover para o centro para buscar a bola tão frequentemente quanto desejar.

A efeito de comparação, enquanto sua última temporada no Mallorca o viu com uma média de 10,5 passes no último terço por jogo, essa média foi para 16,1 na sua primeira temporada na Sociedad, alternando livremente com jogadores como David Silva e Brais Mendez durante a construção das jogadas.

Por conta dessa mudança de contexto, o tempo adicional que Kubo passou a ter com a bola permitiu que a sua habilidade técnica brilhasse, revelando um driblador elusivo em espaços apertados com um olhar para um passe inteligente que pode penetrar na defesa adversária.

Técnica apurada, drible e criação

Durante grande parte de sua primeira temporada na Real Sociedad, Kubo atuou quase como um segundo atacante ao lado de Sorloth, um camisa 9 clássico de 1,93m de altura. Nesse sistema, ele podia avançar para aproveitar as “casquinhas” ou pivôs de Sorloth com sua velocidade acima da média, mas também tinha a capacidade de recuar, pegar a bola e movimentá-la em direção ao seu parceiro de ataque.

Mesmo em uma equipe repleta de armadores no meio-campo, Kubo foi o jogador mais envolvido em jogadas que levaram a finalizações na última temporada, contribuindo com cerca de 4,3 por jogo.

Foto: Icon Sport

O jovem ainda é um ponta-direito de alma e adora a oportunidade de enfrentar um lateral adversário com a bola nos pés. Em uma equipe mais baseada na posse de bola, sua tomada de decisão tem sido mais variada.

Por exemplo, em suas passagens por Mallorca e Getafe, 8,6% de seus dribles incluíram um drible no adversário, segundo dados do “The Athletic”. No entanto, esse número caiu para 7,4% na Real Sociedad. Com menos pressão para fazer com que cada toque na bola conte, Kubo pode economizar energia se a oportunidade de driblar não for favorável.

Comparações justas e injustas

Muitas vezes um jovem destaque é fadado a comparações absurdas – como o próprio japonês viveu na pele ao ser colocado como o “Messi japonês”. A quantidade de “Messis”, de diferentes nacionalidades, espalhados por aí, é incontável.

Apesar das características físicas e até mesmo alguns padrões em campo se assemelharem ao do argentino, Kubo é, na verdade, muito parecido com dois grandes destaques da Premier League.

Segundo levantamento da temporada passada da base dados “Opta”, o japonês está na mesma categoria que o compatriota Kaoru Mitoma, do Brighton, e o destaque do Arsenal pela direita, Bukayo Saka — dupla que tem 85,5% de semelhança com o jovem da Sociedad.

Foto: Reprodução/Opta

Os três são pontas muito incisivos em situações de um contra um e estão entre os 2% melhores do mundo, dentro da base da Opta, em toques na área adversária, por exemplo. Também são superiores a ao menos 88% dos outros jogadores em finalizações, gols e dribles tentados.

A comparação não é necessariamente um indicativo de que um é “tão bom” quanto o outro, ou que Kubo performaria tão bem quanto os dois na Premier League. Mas ainda assim, é uma forma de entender que a promessa “vingou” e pode alcançar voos mais altos.

Kubo, Odegaard e a pressão para promessas vingarem

Odegaard foi ao estrelato em 2015 a alguns anos de esquecimento do grande público, por conta do tempo que passou no Castilla e empréstimos no Heerenveen e Vitesse, ambos da Holanda.

Foi um trabalho longo e, depois de quatro anos, em 2019, que o norueguês conseguiu alcançar um nível consistente e explodir ao estrelato. O mesmo vale para o japonês de 22 anos, praticamente com o mesmo caminho.

Odegaard comemora gol do Arsenal
(Foto: Icon sport)

Foram diferentes empréstimos e uma temporada de ascensão na Sociedad, depois de quatro anos, a coincidência no trajeto dos dois canhotos ao mais alto nível. Kubo ainda é três anos mais novo do que o jogador do Arsenal, então pode ter ainda mais tempo para alcançar seu melhor futebol.

A pressão, evidentemente grande para as promessas adolescentes, não é para todos. Muitas vezes talentos são minados por ela (e outros fatores psicológicos), como foi o caso de Hachim Mastour e Alen Halilovic, contemporâneos de Odegaard, mas que não chegaram perto do nível do colega.

“Eu não poderia mais errar”, disse Kubo em maio, olhando para uma primeira temporada bem-sucedida na Real Sociedad:

— Porque eu sabia que estava à beira de as pessoas não me quererem.

Com apenas 22 anos e tanta experiência valiosa, este é o verdadeiro começo da carreira de Takefusa Kubo.

Guilherme Ramos
Guilherme Ramos

Jornalista pela UNESP. Escrevi um livro sobre tática no futebol e sou repórter da PL Brasil. Já passei por Total Football Analysis, Esporte News Mundo, Jumper Brasil e TechTudo.

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