Kleberson relembra ‘traição’ de Ronaldinho no United, cita episódio hilário com Ferguson e compara lenda a Felipão

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Kleberson foi o primeiro brasileiro a jogar pelo Manchester United. Ele chegou no Reino Unido em 2003, já com títulos de Campeonato Brasileiro e de Copa do Mundo no currículo. O pentacampeão mundial venceu a Supercopa da Inglaterra de 2003 e a Copa da Inglaterra de 2003/04. Foram dois gols e cinco assistências em 30 jogos com a camisa dos Red Devils.

Em entrevista exclusiva à PL Brasil, Kleberson contou que sua ida para o Old Trafford teve a influência de Ronaldinho Gaúcho, que também gerava interesse do Manchester United na época.

— Essa história é muito engraçada. Lembro que estávamos em Paris disputando a Copa das Confederações, o Assis (irmão e empresário de Ronaldinho) foi no meu quarto com o Ronaldo e falou “parece que o pessoal quer você também lá”. Debatemos a possibilidade e ficou tudo confirmado que o Ronaldinho e eu iríamos para lá, guardamos o segredo. Fui para a Inglaterra e depois de um tempo o Ronaldinho apareceu no Barcelona. Eu brinquei com ele depois “poxa vida, você foi para a Espanha, ficou sossegado no clima mais agradável, fui para Manchester onde chove todos os dias”. Ele até brincava “pô, mas eu coloquei você lá, está bom”.

O futebol inglês é conhecido por ter muito contato físico e pelo jogo posicional taticamente, principalmente nos tempos mais antigos. Ainda assim, Kleberson não vê que isso seria um problema para Ronaldinho disputar a Premier League.

— O Ronaldinho daria certo em qualquer lugar. Se ele fosse para Arábia, daria certo. A fase que ele estava vivendo, seria protagonista onde fosse. Acho que o talento que ele tinha, a maneira que ele jogava, ele teria sucesso onde fosse. Teve sucesso no Barcelona, poderia ter me levado para lá depois, mas fazer o que né.

Relação com Cristiano Ronaldo

Kleberson ouviu conselhos do seu companheiro de seleção Gilberto Silva, que jogava no Arsenal na época, e decidiu ir para Old Trafford. Foi apresentado no Manchester United no dia 12 de agosto de 2003 ao lado de um jovem e pouco conhecido Cristiano Ronaldo. Curiosamente o brasileiro chegava com mais nome que o português de 18 anos, já que era o único do elenco a vencer uma Copa do Mundo.

— Nós ficamos muito amigos no começo, porque quando eu fui, só fui eu e minha esposa grávida. Ele acabou indo com mais pessoas, por Portugal ser mais próximo e por ele ser bem novo. Ele levou a irmã, a mãe, alguns tios. Onde eu morava a casa era grande e a gente sentia falta de falar em português. Então, ficamos amigos. Eu fazia churrasco e chamava ele, a família, amigos do clube.

O brasileiro contou qual foi o papel de Sir Alex Ferguson na formação de Cristiano Ronaldo. Ele relata que o português já demonstrava uma enorme qualidade com a bola nos pés e o treinador lendário do Manchester United o ensinou a utilizá-la de forma mais objetiva.

— O Cristiano Ronaldo sempre demonstrou o talento que tem. Tem uma habilidade fenomenal. Ele era muito dedicado e ele se tornou o que ele foi por conta de sua dedicação e pelo professor Ferguson. Ferguson soube controlar o Cristiano Ronaldo com aquela ansiedade dele de querer resolver as coisas. O Ferguson ajudou ele na parte técnica e tática a mostrar para ele melhores situações para ele tirar proveito.

“No começo, o Cristiano Ronaldo driblava, driblava, driblava e não saía do lugar. Alguns jogadores até reclamavam por ele não passar muito a bola.”

— E o Ferguson foi importante nisso porque mostrou que ele poderia driblar em velocidade para criar situações de gol para a equipe. O Cristiano Ronaldo começou a trabalhar na parte muscular dele e, conforme o nível das competições iam aumentando, ele ia treinando mais. Não é à toa que ele se tornou um atleta de altíssimo nível.

Kleberson acredita que o futebol inglês limitou Cristiano Ronaldo, diferente de Madrid, onde ele mudou seu estilo de jogo e teve liberdade dentro de campo.

— Ele era muito procurado na Inglaterra, as pessoas sempre tentavam derrubar ele com falta e eliminar as chances dele. A Premier League na época era muito de transição, então os passes eram menores. Na Espanha, ele começou a jogar com jogadores mais técnicos em um estilo de jogo diferente, um pouco mais aberto para novas táticas.

Episódio com Ferguson

Levou um tempo para Kleberson ter um carro na Inglaterra, costumava andar com um motorista. Então, nunca tinha experimentado dirigir com a mão contrária e também não havia estacionado no centro de treinamento do Manchester United. Até que comprou um Lincoln Navigator, um automóvel grande, com sete lugares, que andava “esmagado” nas apertadas ruas inglesas.

O veículo era americano, então o lado de direção era o mesmo de costume no Brasil. Kleberson chegou ao CT do Manchester United empolgado com o novo carro, mas acabou passando por um episódio constrangedor. Ele simplesmente estacionou na vaga destinada a Alex Ferguson.

— Como todo brasileiro, cheguei em cima da hora e tinha uma vaga bem próxima da entrada do vestiário. Eu falei “Nossa, Deus está do meu lado. Vou estacionar e sair”. Estacionei, fui para o café, troquei de roupa e fui para o treino. Estou treinando normal e de repente eu vejo o Ferguson vindo correndo e gritando. Meu inglês era muito ruim naquela época e eu só entendi “estacionamento”. Os caras começaram a olhar para mim, foram sacanas, porque todo mundo viu e ninguém falou nada. Quando ele chegou lá, ele ficou muito bravo. Quando viu que fui eu que tinha feito a cagada, ele “tinha que ser esse cara, não conhece as coisas aqui ainda”.

“O cara ficou mais de 20 anos no clube, ganhou não sei quantos títulos, se o cara para lá, qualquer jogador falaria “nem morto que eu vou parar ali. Nem do lado eu paro para não ter perigo de encostar na porta dele.”

Manchester United Champion - Sir Alex Ferguson
Alex Feerguson com a taça da Premier League de 2012/13 (Foto: Icon Sport)

Além do episódio, Kleberson leva um grande aprendizado de seu tempo com Ferguson no Manchester United, principalmente na parte de gestão, já que hoje o brasileiro trabalha como treinador.

Ele gere o clube de uma maneira fantástica. Era antenado a todas as coisas, ele sabia de tudo. Tanto que quando eu estava lá eu percebi que a preocupação dele era mais na parte fora do campo, onde o jogador andava, o comportamento do jogador nos treinamentos, como que o jogador vivia pelo clube, as coisas sociais que o clube pedia para o jogador fazer. Ele se preocupava muito com isso, porque a parte técnica e tática ele já sabia o que tinha que fazer.

Kleberson conta que no seu tempo de Manchester United, quem cuidava da parte tática nos treinamentos era o assistente português Carlos Queiroz. Ferguson focava nas situações em volta do campo e questões extracampo dos jogadores.

— O que ele queria mesmo era ter um jogador que contribuísse com o clube, que fazia as coisas por amor ao clube. Isso é algo que eu tirei muito dele e que aplico como gestor hoje. Tento fazer uma mesclagem entre Ferguson, Felipão, e a parte tática do Parreira.

“Há uma semelhança muito grande, os dois são muito explosivos. Quando a coisa não sai do jeito que eles gostam, os dois tomam a liderança de uma forma muito agressiva.”

Dificuldades no Manchester United

Kleberson encontrou muita dificuldade de adaptação na Europa. Além do clima frio e da distância da família, o brasileiro não se encontrou no estilo de jogo que é jogado na Inglaterra. E ainda, o ex-jogador foi prejudicado por muitas lesões no Manchester United.

— Quando cheguei lá vivenciei pela primeira vez intensamente uma função tática em que cada jogador tem sua tarefa. No Brasil, somos conhecidos pelo improviso e pelos resultados, na Inglaterra tive que me adaptar a seguir a linha da questão tática que o Ferguson queria. Aliado a isso, começaram as lesões. Cada vez que eu me lesionava, me puxava um pouco para trás, porque eu perdia treinamentos e outras coisas importantes que o Ferguson queria do time.

Quando voltava de lesão, Kleberson precisava adaptar sua forma física, alimentação e simplesmente brigar por posição com craques do Manchester United, como Paul Scholes, Ryan Giggs e Nicky Butt.

— Às vezes, o Ferguson tentava me colocar para jogar aberto e eu tinha que brigar com Cristiano Ronaldo. No ataque, às vezes eu jogava como segundo atacante, e tinha Van Nistelrooy, Wayne Rooney, Alan Smith que chegou depois. Então, foi uma série de coisas que atrapalharam.

Antony e Casemiro pelo Manchester United (Foto: Icon Sport)
Antony e Casemiro pelo Manchester United (Foto: Icon Sport)

Fazendo um paralelo a Antony e Casemiro, que atuam no United atualmente, Kleberson acredita que a dificuldade dos brasileiros não está relacionada à adaptação. Ele conta que a cidade de Manchester cresceu muito desde que saiu de lá, tendo restaurantes e mercados brasileiros no município. Para o ex-jogador, a questão é mais voltada à reconstrução e resgate da identidade do clube.

— São muitos jogadores que estão tentando colocar o Manchester onde ele esteve muitos anos atrás. Para isso acontecer, leva-se tempo. Quando se fala de Antony e Casemiro, são dois gigantes dentro do futebol, mas são muitos atletas que estão querendo demonstrar sua capacidade. Então, o que acontece hoje no Manchester é que tem muitos jogadores tentando fazer alguma coisa, mas o momento de reestruturação do Manchester está sendo longo, porque os títulos não vêm e a dúvida aparece, troca os treinadores. Qualquer clube passa por isso.

“Talvez, se o Manchester não tivesse toda essa história, Antony e Casemiro não fossem tão cobrados como são agora. Tem que ter paciência, seguir um caminho e tentar resgatar os números positivos que o Manchester teve durante muito tempo.”

Seleção brasileira

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Kleberson com a taça da Copa do Mundo. Foto – Lucas Figueiredo/CBF

O ex-volante do Manchester United tinha apenas 22 anos quando venceu o Campeonato Brasileiro de 2001 pelo Athletico-PR e foi chamado por Felipão para integrar o grupo de craques que conquistou o pentacampeonato mundial da seleção brasileira. Durante a competição, Kleberson substituiu Juninho Paulista, que era titular, e formou uma ótima parceria com Gilberto Silva.

Uma partida que ficou marcada na carreira de Kleberson foi contra a Inglaterra na Copa de 2002. O Brasil venceu de virada aquele jogo com uma grande exibição da revelação do Athletico-PR. Para ele, foi naquele confronto que o Manchester United abriu os olhos para o ex-volante, pensando na reposição de Verón, que havia se transferido para o Chelsea.

Eu acho que ali que o United abriu o olho para mim. Naquele dia, eu fui um jogador muito tático. As pessoas que estavam na minha frente — Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho — tiveram liberdade de desempenhar o futebol de alto nível que eles queriam. Fui um jogador de preencher espaços. Quando tinha liberdade, eu chegava ao ataque. Como o Manchester sabia que o Beckham iria se desligar, eles pensaram no Ronaldinho. Pensaram que o encaixe entre Kleberson e Ronaldinho seria muito bom.

Brazil v Turkey - FIFA World Cup 2002
Kleberson contra a Turquia na Copa do Mundo de 2002 (Foto: Icon Sport)

O pentacampeão também comentou sobre a atual crise da Seleção, que não conseguiu mais ser campeã mundial depois de 2002. O Brasil passa por uma constante mudança de planejamento após a saída do Tite e ainda soma duras derrotas para a Argentina na final da Copa América no Maracanã e em partidas das Eliminatórias.

— Eu acho que o futebol brasileiro evolui a cada ano, mas a gente vê mais jogadores saindo cedo do Brasil e perdemos um pouco da referência de seleções antigas. Muitos jogadores antigamente jogavam em seus clubes no Brasil e pretendiam ficar por muitos anos. Hoje, com a demanda do futebol e do que os treinadores europeus pedem, quando um jogador se destaca, eles querem levar. Acho que falta um pouco dessa vivência no nosso futebol.

Porém, o ex-jogador do United entende que a situação é complexa, já que muitos clubes precisam vender seus jogadores para equilibrar as contas e jovens atletas não querem desperdiçar a chance de ir para a Europa.

— Não tem como você impedir isso. É um processo longo que o Brasil leva de uma Copa do Mundo para outra, mas se você vê todas as seleções (brasileiras) que tiveram desde 2000, são muitos talentos, jogadores de altíssimo nível. Falta mesmo um pouco da gente reviver a nossa história, resgatarmos isso para nós. Corre risco de um jogador talentoso como o Neymar encerrar uma carreira sem um título de campeão mundial e olha a grandeza dele para o nosso futebol. Isso aconteceu com Zico e outros jogadores. É um momento de união para resgatarmos nosso espírito novamente.

Futuro

Hoje, Kleberson é treinador. Possui licenças pró da CBF homologada na Conmebol e A nos Estados Unidos. Passou recentemente no New York City, clube da Major League Soccer (MLS) que pertence ao Grupo City (cujo o time matriz é o rival do United), e agora está de volta ao Brasil. Ele voltou ao Paraná para estar mais próximo do Athletico-PR no ano de seu centenário e pretende atuar na área no futebol brasileiro.

— Eu queria ficar mais próximo para participar um pouco do Athletico-PR. Terão muitas homenagens e o meu nome é muito forte dentro do clube. Eu queria que minha esposa e meus filhos vivessem isso comigo. Paralelo a isso, estou tentando desenvolver a minha carreira profissional. Uma das coisas que me aprofundei muito nos Estados Unidos foi a questão técnica e na gestão. Estou analisando algumas conversas, alguns convites, projetos. E na parte pessoal, estou com alguns projetos sociais. Estamos tentando junto das prefeituras fazer um projeto social para retribuir o que Paraná fez para mim.

Romulo Giacomin
Romulo Giacomin

Formado em Jornalismo na UFOP, passou por Mais Minas, Esporte News Mundo e Estado de Minas. Atualmente, escreve para a Premier League Brasil.