Juanma Lillo, Pep Guardiola e o ciclo temporal de Dark

Entre paradoxos e criações, esta é a terceira vez que os caminhos dos treinadores se cruzam

Lillo Manchester City
Credit Manchester City

No começo do mês de junho, o Manchester City anunciou Juanma Lillo como o novo auxiliar técnico do time. A priori, a contratação soa meio estranha. Afinal, o recém-chegado é um treinador de 54 anos, então não ocupa o espaço de ‘jovem promessa’. Além de nunca ter ganho nenhum título de primeira divisão em sua carreira, então por quê?

Recentemente, no dia 27 de junho de 2020, o seriado alemão Dark teve sua terceira e última temporada lançada. A série ficou conhecida pelo seu roteiro confuso à primeira vista, mas que se tornou genial depois. Além disso, ela sustenta a ideia de ciclos temporais, quando tudo se repete e repete. ‘O começo é o fim e o fim é o começo'. 

O paradoxo de Juanma Lillo

Como se fosse um personagem de algum seriado, Juan Manuel Lillo é alguém que tem uma importância muito maior do que aparenta. Espanhol, nascido em Tolosa, foi o técnico mais jovem a treinar na primeira divisão espanhola, aos 29 anos. Resumindo muito sua trajetória no futebol, ele é, apesar de rechaçar esses títulos e a importância deles, ‘pai’ do jogo de posição e do 4-2-3-1, esquema que domina o futebol atual.

Claro, nós sabemos que essa ideia de futebol coletivo não nasceu agora, já que Jimmy Hogan compartilhava desse pensamento lá no inícios dos anos 1900, por exemplo. Mas, assim como os viajantes de Dark, Juanma Lillo vai por aí tentando explicar algo, visando um bem maior. Ele é, antes de um técnico, um dos grandes pensadores e facilitadores do futebol. Caras como Marcelo Bielsa, Ricardo Lavolpe e Lillo são viajantes que guardam sua importância na trajetória, e não no resultado final. 

Eles vivem um verdadeiro paradoxo: são muitíssimos importantes para o futebol, mesmo sem ganhar tantos títulos. São aclamados pelos mais vitoriosos treinadores da história, enquanto são despedidos de seus clubes por falta de vitórias. Outras grandes mentes do futebol vivem nesse ciclo paradoxal, mas alguns conseguem quebrá-lo, como Pep Guardiola

Juanma Lillo e Guardiola sempre se encontrando

Não é a primeira vez que os caminhos de Guardiola e Lillo se cruzam, aliás, esse encontro em 2020 só acontece por conta daquele de 2005, que por sua vez só aconteceu por conta daquele nos anos 1990.

Na temporada 1996/1997, JuanMa era treinador do Real Oviedo, enquanto Pep jogava pelo Barcelona. Após o confronto entre os dois times, Guardiola foi até o vestiário do adversário para conhecer e simplesmente tentar ser amigo de Lillo. “Amo seus times, ouvi grandes coisas sobre você. Podemos ser amigos?”, disse Pep.  “Como é que eu não vou querer ser amigo de um jogador que eu admirava, como o Guardiola?”, contou Lillo, anos depois, ao jornal britânico The Guardian.

Uma amizade forte se construiu em cima da paixão de ambos na busca pelo melhor futebol possível. Depois de passar por vários clubes sem muito sucesso nos resultados, Lillo acabou parando no Dourados de Sinaloa, no México, em 2005. Sabendo que ele estava por lá, Pep Guardiola aceitou jogar uma temporada, sua última, no Campeonato Mexicano.

Durante esse período, Guardiola disputou apenas 10 jogos. Entretanto, ele não estava lá só para entrar campo, mas sim para ser moldado por Lillo. Lá foi como um estágio para a carreira de treinador de Pep. O técnico um verdadeiro mentor de Guardiola.

Eu acho que eu sou muito grato a ele, porque ele foi muito generoso e passou seu conhecimento para mim.”  Três anos depois, Pep venceu a Champions League com o Barcelona e começou a revolucionar o futebol moderno baseado no Jogo de Posição.

O reencontro dos dois parece mais um ciclo

É bem ‘Dark’ pensar que se Juanma Lillo não tivesse despertado a admiração no jogador Guardiola e não tivesse conhecido-o em 1996/1997, Pep não teria ido ao Dourados em 2005 passar aquele tempo por lá. Sendo assim, sem viver esse período fundamental na sua formação, sua trajetória como treinador teria começado diferente e provavelmente seria outra. 

Dentro de campo, a chegada de Lillo não deve ter muitos frutos visíveis, mas ela parece ser essencialmente especial para Pep. O técnico do Manchester City recentemente recusou a extensão de contrato com o clube e vai entrar no seu último ano de acordo.

Tudo isso durante um ano “ruim” para o nível City e iminência da exclusão do clube na Uefa Champions League, o que acaba corroborando com as especulações da saída dele. O auxiliar chega num momento crucial para a continuidade de Guardiola no Manchester City. 

Nos resta esperar o desenrolar dessa história para depois entender o verdadeiro papel de Juanma Lillo ali. Chegou para auxiliar o City ou a pessoa Josep? Há quem teorize que Pep Guardiola possa estar de malas prontas para Barcelona, enquanto Lillo teria chegado para ser seu futuro substituto. Improvável? Talvez. Mas vai saber. Até dia 26 de junho eu também achava que várias coisas eram impossíveis.

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