John Barnes: a exemplar história de um dos maiores jogadores ingleses

Barnes foi jogador do ano em 1988, membro da Ordem do Império Britânico e introduzido ao Hall da Fama do futebol inglês

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John Barnes
Simon Bruty/Allsport

John Charles Bryan Barnes, ou simplesmente John Barnes é, sem dúvidas, um dos mais icônicos nomes na história do futebol inglês. O canhoto, que brilhou durante os anos 1980 e 1990 com as camisas de Watford e Liverpool, principalmente, desperta um encantamento quando é lembrado.

São três títulos ingleses, dois da Copa da Inglaterra, uma Copa da Liga Inglesa e três da Supercopa da Inglaterra (Community Shield). Jogador do ano em 1988, membro da Ordem do Império Britânico e introduzido ao Hall da Fama do futebol inglês. “Não me considero como uma superestrela”, afirma o hoje comentarista.

Ele é lembrado por marcar um gol histórico pela Inglaterra, contra o Brasil, no Maracanã, em 1984. Porém, assim como vários outros jogadores ingleses, nunca conseguiu atingir todo o seu potencial defendendo a seleção. Ao longo dos anos, foram 79 partidas com 11 gols, no período entre 1983 até 1995.

O começo de John Barnes

Barnes nasceu em Kingston, na Jamaica. Filho de militar, ele sempre ressaltou como a disciplina foi algo que norteou a sua criação, em função da profissão do pai. Ainda morando no Caribe, conheceu o futebol. Praticava muito com amigos e via o próprio pai, o Coronel Barnes, jogar partidas. A paixão pelo jogo nascia e crescia com o passar do tempo.

A grande mudança na sua vida aconteceu quando tinha 11 anos. Por motivos profissionais, o pai foi transferido para a Inglaterra. Dessa forma, o garoto acompanhou sua família e foram para Londres. Ele recorda a felicidade porque, mudando para a Europa, teria mais possibilidades de praticar futebol – ainda que se tornar profissional fosse algo que nem passava pela sua cabeça.

Aos 16 anos, Barnes já jogava regularmente e fazia parte do clube amador Sudbury Court. Em uma determinada partida, um motorista de táxi assistia e ficou impressionado com o talento daquele canhoto. O motorista então comentou com um olheiro do Watford. O olheiro foi ao jogo e fez um convite para Barnes realizar um teste pelos Hornets. Após brilhar numa partida atuando pelo time B, ele foi contratado pelo clube.

Watford e as primeiras convocações

Robinson/Daily Express/Hulton Archive/Getty Images

Barnes foi contratado por Graham Taylor e fez sua estreia aos 17 anos. O pai havia voltado para a Jamaica, junto da família, e o prodígio ficou na Inglaterra para perseguir seu sonho, apoiado pelos familiares. O Watford, naquela temporada de 1981/1982, não estava na Primeira Divisão.

Atuando pela ponta esquerda, Barnes mostrava toda a sua qualidade jogo a jogo. Foi peça vital da equipe que conseguiu o acesso para a elite do futebol inglês. A equipe despertava a atenção nacional por ter conseguido, em anos consecutivos, escalar da quarta para a primeira divisão. Além disso, era o time presidido por Sir Elton John.

A temporada de estreia na elite foi mágica. A desacreditada equipe começou vencendo em quatro das cinco rodadas inciais do torneio. John Barnes, junto de Mo Johnston, George Reilly e Nigel Callaghan combinavam num sistema ofensivo muito eficiente. No entanto, o diferencial daquele time, na visão de Barnes, era o esforço dentro de campo na defesa.

“Sabíamos que não éramos o melhor time da Liga. Sendo assim, precisávamos nos esforçar defensivamente. Sou muito grato ao meu tempo no Watford e especialmente por ter sido com Graham Taylor. Ele me ensinou muito sobre a parte defensiva e também sobre comprometimento com a equipe” – John Barnes

Os esforços foram recompensados com um surpreendente vice-campeonato. Sim, o Watford, recém-promovido, terminou a temporada 1982/83 em segundo lugar no Campeonato Inglês. Para a temporada seguinte, os Hornets conseguiram manter sua base e esperavam se estabilizar ainda mais na elite inglesa.

O destaque do time, sem dúvidas, era Barnes. Pelo lado esquerdo do campo, o canhoto sempre chamava a atenção. Marcava gols, criava chances para os colegas de time e sempre conseguia desempenhar suas funções defensivas. Dono de uma explosão física invejável, Barnes também encantava com seu poder de drible e finalização.

Em 1983, foi convocado pela primeira vez para a seleção inglesa. Estreou num empate sem gols diante da Irlanda do Norte e se tornou presença certa nas convocações em diante. No ano seguinte, em 1984, marcou um golaço no Maracanã que decretou a vitória dos ingleses contra os brasileiros. Definitivamente, Barnes estava entre os melhores jogadores do país.

John Barnes
Allsport UK /Allsport

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Na temporada 1983/1984, o Watford não conseguiu repetir o sucesso na Primeira Divisão, ficando apenas em décimo primeiro lugar. A equipe caiu na terceira fase da Copa da Uefa, perdendo para o Sparta Praga. A glória daquela temporada foi a campanha na Copa da Inglaterra, competição que os Hornets chegaram à final, pela primeira vez na sua história.

A equipe entrou na terceira rodada e deixou pelo caminho Luton Town, Charlton, Brighton, Birmingham Plymouth até encontrar o Everton na grande decisão. No jogo disputado em Wembley, os Hornets foram batidos pelos Toffees por 2 a 0. Foi o ponto alto de uma trajetória que durou até 1987. Regularmente ele era ligado a transferências para times como Arsenal, Manchester United e Liverpool.

O último acabou contratando o jogador por 900 mil libras. Estava encerrada a trajetória do jogador pelo Watford. Nos Hornets, John Barnes atuou 233 vezes e marcou 65 gols.

O primeiro título inglês e as decepções na seleção

Contratado a pedido de Kenny Dalglish, John Barnes chegou em Anfield com 23 anos. No clube de Liverpool, se juntou a Peter Beardsley e John Aldridge para formar um marcante trio de ataque. Barnes lembra que a temporada foi como um sonho: “Tudo o que eu tentava fazer em campo, dava resultados”, comenta o ex-winger.

A campanha foi marcante para os Reds que, naquela temporada 1987/1988, se sagraram mais uma vez campeões nacionais. O trio de ataque, formado naquela temporada, foi vital para a conquista daquele título. O destaque de Barnes foi tão grande que ele foi considerado o Jogador do Ano pela Associação dos Jogadores Profissionais (PFA).

Titular absoluto no clube inglês mais importante à época, toda a produção de Barnes nos clubes não se via em campo, pela seleção. O jogador fez parte da equipe que foi ao Mundial de 1986 que foi eliminado pela Argentina. Nas partidas que esteve em campo, parecia perdido e pouco colaborava ofensivamente.

Durante comando de Sir Bobby Robson (1982-1990), a queixa de Barnes é que nunca era colocado em sua posição de origem – na ponta-esquerda. Além disso, Bobby atribuía, segundo o próprio Barnes, mais obrigações defensivas do que ofensivas. A relação nunca foi das melhores, o que refletia dentro do campo, com atuações abaixo do que se esperava de um jogador da qualidade do winger.

Luta contra o racismo

Durante a passagem pelo Liverpool, ficou marcada na história uma foto em que Barnes chuta uma banana para fora do campo. O registro foi feito num jogo diante do Everton, em um dos primeiros dérbis disputado pelo jogador. “Sofrer aquilo em campo apenas o encorajava mais”, afirmou Kenny Dalglish, anos depois.

Segundo Barnes, a primeira vez que ele sofreu com o racismo foi na primeira partida que fez pelo Watford. Era constante que torcidas adversárias imitassem barulhos de macaco enquanto o jogador estava com a posse de bola em campo.

Para Ian Wright, as ações direcionadas a Barnes iniciaram os movimentos que resultariam na criação da organização “Kick Racism Out Of Football”, em 1993. Para Barnes, o futebol não é mais ou menos racista que qualquer outro meio. O jogador também afirma que, todo o preconceito sofrido dentro de campo, nunca fez com que ele se ofendesse.

“Nunca me afetou em nada. Sempre fui muito consciente e nunca me deixaria abalar por isso, mesmo jogando bananas em mim” – John barnes

Mais títulos pelo Liverpool e auge interrompido por lesão

John Barnes evoluía em campo e crescia e, consequentemente, impulsionava o Liverpool. A temporada 1988/1989 foi marcante em aspectos negativos. Os Reds iam bem em campo e brigavam pelos títulos nacionais, mas o fato mais marcante foi o desastre em Hillsborough.

Além da tragédia, o Liverpool perderia a liga naquele ano numa derrota, na última rodada, para o Arsenal. O gol que confirmou o título do Arsenal, no último lance da partida, tem origem num lance que envolvia Barnes.

O atacante, com a posse de bola no campo do Arsenal, tentou driblar a zaga adversária ao invés de prender a bola no ataque e segurar a derrota por 1 a 0 que, até aquela altura, dava o título ao Liverpool. Ao tentar ir em direção ao gol, o ponta-esquerda foi desarmado e a jogada adversária resultou no gol do título inglês da equipe londrina.

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No entanto, o Liverpool não saiu daquela temporada sem títulos. A equipe foi campeã da Copa da Inglaterra, num confronto diante do maior rival, em Wembley. A partida estava na prorrogação, empatada em 2 a 2, quando Barnes acertou o cruzamento na cabeça de Ian Rush e colocou o Liverpool em vantagem e decretou o placar final: 3 a 2.

A presença ofensiva e eficiente de Barnes foi notada também na temporada 1989/1990. O ano marcou mais um título inglês do Liverpool, dessa vez com Barnes como principal artilheiro da equipe. Foram 28 gols em 45 partidas, marcas que levaram o clube a mais um título nacional e as semifinais da Copa da Inglaterra.

O momento mais dramático da carreira aconteceu em 1992, quando estava em campo pela Inglaterra, num amistoso contra a Finlândia. Num lance no meio-campo, sozinho, o jogador rompeu o tendão de aquiles da panturrilha direita. A lesão, que encerrou a carreira de alguns jogadores, tirou Barnes de campo por mais de um ano.

Reta final no Liverpool, Newcastle e Charlton

Apos voltar de lesão, Barnes teve que mudar seu estilo de jogo. As arrancadas e a explosão física foi tomada pela lesão na panturrilha e o jogador se deslocou para a posição de meia-central. Foi assim que ele jogou seus últimos anos pelo Liverpool, chegando a ser capitão em algumas temporadas. Altos e baixos marcaram as temporadas após a séria lesão que sofreu.

Em 1997, dez anos após chegar a Anfield, Barnes deixou o clube. Foram 407 jogos, 108 gols e quatro títulos em Anfield. Até hoje é considerado um dos maiores jogadores da história da equipe.

Fora contratado pelo Newcastle, treinado por Kenny Dalglish. A temporada de estreia do agora meia-central pelos Magpies foi regular. Marcou sete gols em 39 partidas e era presença constante na faixa central.

Em 1998, apesar da campanha irregular na Premier League, chegou à final da Copa da Inglaterra pelo clube. A derrota por 2 a 0 diante do Arsenal marcou o quarto vice-campeonato de Barnes na competição. Após a derrota, Dalglish foi demitido e Barnes perdeu espaço na equipe.

O último clube da carreira foi o Charlton, em 1999. Recém-promovido à Premier League, o clube viu no jogador um bom ativo para dar experiência ao elenco. A experiência, no entanto, foi frustrada e Barnes atuou apenas 11 partidas. Ao fim da temporada, anunciou sua aposentadoria como jogador.

A vida de John Barnes após deixar os campos

Barnes se aventurou como treinador logo após deixar a vida de jogador. Foi contratado, novamente por Kenny Dalglish, para ser técnico do Celtic, na Escócia. A passagem iniciada na temporada 1999/2000, durou apenas oito meses e foi marcada por uma eliminação na Copa da Escócia para o desconhecido Inverness Caledonian Thistle.

A derrota custou o cargo de Barnes, que depois passou sem brilho pela seleção da Jamaica e pelo pequeno Tranmere Rovers. Para Barnes, a falta de oportunidades para novos trabalhos como treinador é uma das maiores decepções com o futebol.

Após isso, ele deu várias entrevistas atribuindo a falta de chances ao racismo, comentando sobre a dificuldade em ver pessoas negras em posições de comando em toda a sociedade.

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John Barnes
ISAAC LAWRENCE/AFP via Getty Images

Atualmente, Barnes faz trabalhos com instituições de caridade e é comentarista na TV Inglesa e tem um programa na LFC TV chamado “The John Barnes Show”. Ele também fez aparições em programas como Big Brother e uma espécie de “Dançando com as estrelas”.

Em 2005, ele foi introduzido ao Hall da Fama do futebol inglês. Em 2006, numa enquete com os torcedores do Liverpool para determinar o jogador mais querido pela torcida, ficou em quinto lugar.

A revista FourFourTwo apontou Barnes como o melhor jogador da história do Liverpool. Já em 2016, ele foi votado pelos leitores do The Times, como o melhor canhoto da história do futebol inglês.

“Eu nunca me vi como uma superestrela ou o melhor do mundo naquilo que fazia”, ele afirmou em uma das várias entrevistas que deu sobre a carreira. “Só quero ser lembrado como um jogador que divertia a sua torcida”, finalizou.