Listamos 5 jogadores refugiados da Premier League

Eles superaram grandes barreiras para alcançar o sonho de jogar futebol

Catherine Ivill Collection Getty Images Sport
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Ao longo da história, podemos observar diversas oportunidades onde o futebol, além de ser uma atividade física ou recreativa, tem ainda um forte poder de transformação e inclusão social, servindo como um importante promotor de integração para imigrantes e refugiados. Assim, vamos conhecer as histórias de superação de cinco atuais jogadores refugiados da Premier League e de suas famílias antes deles terem carreiras de sucesso.

Refugiados no futebol inglês Parte II: 5 refugiados hoje estrelas da Premier League

Granit Xhaka

Catherine Ivill Collection Getty Images Sport
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O fato de a Sérvia ter sido sorteada como adversária da Suíça na Copa do Mundo de 2018 teve significado mais profundo para alguns jogadores do time suíço, e um deles foi Granit Xhaka. Nascido em Basel, ele é filho de pais albaneses-kosovares, que foram obrigados a deixar o país onde moravam e buscar abrigo na Suíça no início dos anos 1990, em função das guerras após o fim da Iugoslávia.

A partir da morte de Josep Broz Tito, em 1980, a Iugoslávia nunca mais conseguiu ter a estabilidade que teve nas décadas anteriores. Começaram a surgir uma série de insurreições nas diversas regiões que formavam o país, contestando o poder excessivamente autoritário do governo central, em Belgrado, e começando a buscar independência.

Uma dessas regiões era o Kosovo, onde a maioria da população é formada por albaneses, como a família de Xhaka. Em 1986, o pai de Xhaka, Ragip, então estudante da Universidade de Pristina, participou de protestos contra o governo de Belgrado.

Ele acabou sendo detido pela polícia, e, sem um julgamento que respeitasse os principais preceitos do devido processo legal, foi sumariamente condenado a passar seis anos preso, começando a cumprir a pena imediatamente. Um tio de Xhaka também foi preso e posteriormente condenado.

Na prisão, o pai de Xhaka foi sistematicamente espancado e torturado. Após cumprir três anos e meio da sua pena, do dia para a noite ele foi solto, juntamente com o tio de Xhaka. Logo após ser libertado da prisão, em 1990, Ragip imediatamente começou a preparar sua saída do país junto com a família, pois ele sabia que poderia ser preso novamente a qualquer momento.

Christian Kaspar-Bartke Collection Bongarts
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Além disso, as tensões pelo desmembramento da Iugoslávia cresciam exponencialmente, sendo o Kosovo uma das regiões que mais seriam afetadas nos próximos anos.

Portanto, assim como outros albaneses-kosovares já haviam feito, a família de Xhaka foi buscar refúgio na Suíça, eventualmente se estabelecendo em Basel. Em 1991, já em solo suíço, nasceu o primeiro filho do casal, Taulant. Granit nasceu 18 meses depois.

Assim como seu irmão mais velho, Granit começou a jogar futebol desde muito cedo, e, aos 10 anos de idade, foi convidado a se juntar às categorias de base do Basel, um dos maiores clubes da Suíça.

Aos 18 anos, em 2010, fez sua estreia no time profissional, e, duas temporadas depois, já foi contratado pelo Borussia Monchengladbach. Na Alemanha, Granit continuou seu rápido desenvolvimento como jogador e como líder. Na sua terceira temporada no clube alemão, Xhaka foi eleito para o time ideal da Bundesliga, por ter ajudado o Gladbach a terminar a competição em terceiro e se classificar para a Champions League.

Ele virou capitão, na temporada seguinte. No verão seguinte, anterior à temporada 2016/2017, ele foi comprado pelo Arsenal, onde está desde então. Recentemente, foi oficialmente apontado como o capitão do clube, mesmo sem ser unanimidade entre os torcedores.

Em 2011, Xhaka fez sua estreia pela seleção principal. Seu irmão, porém, optou por defender a seleção principal albanesa. Em 2016, os dois irmãos se encontraram em campo, em lados opostos, quando Suíça e Albânia se enfrentaram pela fase de grupos da Eurocopa.

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Clive Rose Collection Getty Images Sport
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Ao todo, Granit disputou as Copas do Mundo de 2014 e 2018. E foi justamente na Copa da Rússia que o destinou alinhou um confronto muito mais significativo para Xhaka do que um jogo regular de copa do mundo já o é: a oportunidade de confrontar a Sérvia.

O destino foi ainda mais especial para Granit; coube a ele marcar o gol de empate do jogo, que os suíços posteriormente virariam e sairiam vitoriosos. Ao comemorar o seu gol, Xhaka fez com as mãos gestos imitando uma águia, que é o símbolo nacional da Albânia, país de origem dos seus pais e da maioria da população do Kosovo.

A comemoração de Xhaka repercutiu no mundo todo, e a FIFA, que proíbe manifestações políticas em jogos oficiais, multou o jogador pelo gesto. Granit não deve ter se importado em pagar, pois, de certa maneira, “vingar” o período que o seu pai ficou preso e foi torturado a mando do governo de Belgrado certamente não teve preço.

Apesar de o Kosovo ter declarado sua independência em 2008, até hoje a Sérvia não reconhece o país como independente. Todos os anos, um total de aproximadamente 130 milhões de libras são enviados pelos kosovares que moram fora do Kosovo de volta para o país, o que forma a grande maioria do seu rendimento anual.

Granit e Taulant ajudam consideravelmente com esse número, pois eles doam 80% dos seus salários aos pais, que repassam boa parte desse valor de volta ao seu país de origem.

Xhaka credita boa parte do seu espírito de liderança à história de superação do seu pai.

“Meu pai mostrou uma força incrível na sua vida. Nós tivemos em casa esse ídolo, esse modelo de comportamento, que nos ensinou que devemos ser fortes para alcançar nossos objetivos. Então crescemos com essa força mental, e tentamos passar isso para o campo.”

Xherdan Shaqiri

O jogo entre Suíça e Sérvia na Copa do Mundo da Rússia também teve significado especial para Xherdan Shaquiri, que tem uma história de vida similar à trajetória de Xhaka. Shaquiri também é de uma família albanesa-kosovar, e ele inclusive chegou a nascer no Kosovo, em 1991, quando a região ainda fazia parte oficialmente da Iugoslávia, que efetivamente se desmembrou em 1992.

Foi também em 1992 que a família de Shaquiri foi obrigada a sair do Kosovo e buscar refúgio na Suíça, assim como a família de Xhaka já havia feito há alguns meses. A violência causada pelas guerras das repúblicas buscando sua independência em relação ao poder de Belgrado já estava insustentável, e atingiu sua família diretamente.

Em Gjilan, cidade onde Xherdan nasceu, e o local onde a maioria da sua família morava, a casa do seu avô foi queimada por sérvios, simplesmente por ele ser de origem albanesa. A casa dos pais de Shaquiri não foi queimada, porém, foi invadida e completamente saqueada, enquanto a família estava fora.

Esses fatos foram a gota d’água para a família buscar sua proteção em outro país, e a opção escolhida foi a Suíça, que, àquela altura, já possuía uma comunidade considerável de refugiados vindos do Kosovo.

A família de Shaquiri também se estabeleceu no cantão de Basel, mas na cidade de Augst. Shaquiri, com sete anos de idade, começou a jogar no pequeno time da cidade onde ele morava, o SV Augst. Por apresentar um talento muito acima da média, ainda com nove anos, ele foi convidado a se juntar ao FC Basel.

JAVIER SORIANO Collection AFP
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No Basel, Shaquiri virou profissional, fazendo sua estreia em 2009, com apenas 17 anos. Após três temporadas de muito destaque, duas delas ao lado de Xhaka, Shaquiri foi vendido ao Bayern de Munique, clube pelo qual jogou outras três temporadas.

Após uma breve passagem pela Inter, Shaquiri chegou à Premier League através de uma surpreendente contratação do Stoke City, onde ele jogou por três temporadas. Quando o Stoke caiu, em 2018, Shaquiri foi contratado pelo Liverpool, com o intuito de ser um substituto confiável para Mané, Salah e Firmino.

Shaquiri também já possui uma longa carreira pela seleção suíça. Desde 2007, quando tinha 15 anos, ele defende a seleção, tendo passado por todas as categorias de base desde o sub 17.

Com 18 anos, em 2010, ele estreou pela seleção principal, já tendo representado a Suíça nas Copas do Mundo de 2010, 2014 e 2018. Assim como Xhaka, Shaquiri teve a chance de enfrentar a Sérvia na fase de grupos da Copa da Rússia.

Clive Rose Collection Getty Images Sport
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E Shaquiri também teve a felicidade de marcar um gol contra os sérvios, ainda mais importante que o do seu companheiro, pois o seu gol foi o da virada definitiva, marcado faltando pouquíssimos minutos para o fim da partida.

E, novamente como já havia feito Xhaka, Shaquiri também comemorou fazendo o gesto da águia com as mãos, lembrando sua origem albanesa-kosovar.

“Nunca vou esquecer que eu nasci no Kosovo. Eu sinto que tenho duas casas. A Suíça deu tudo para mim e para a minha família, então vou dar meu máximo pela seleção nacional. Mas sempre quando eu vou ao Kosovo, eu imediatamente me sinto em casa também.”

Dejan Lovren

Laurence Griffiths Collection Getty Images Sport
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Lovren nasceu na pequena cidade de Kraljeva Sutjeska, na Bósnia, em julho de 1989. Até os seus três anos, ele vivia tranquilamente com a sua família no pequeno vilarejo bósnio, até que, em 1992, também na esteira do desmembramento da antiga Iugoslávia, a sangrenta Guerra da Bósnia teve o seu início.

Do dia para a noite, a tranquila rotina da cidade onde Lovren morava foi quebrada. Soldados e rebeldes começaram a invadir o seu vilarejo, saqueando casas e aterrorizando a população local. O irmão de um tio de Lovren, após contestar uma ação de soldados na cidade, foi morto a facadas na frente de todos e apontado como exemplo.

Com o passar dos dias, os atos de violência apenas aumentavam, e a cidade de Lovren passou também a ser atingida por bombas. Um determinado dia, no meio da noite, Dejan acordou com o assustador barulho de fortes bombardeios. Sua mãe o pegou pelo braço e eles foram se esconder no porão.

Lá, passaram várias horas de angústia e sofrimento, temendo por suas vidas. Quando o bombardeio finalmente cessou, a mãe de Lovren decidiu que era impossível para eles permanecerem no local.

Com as roupas do corpo mesmo, sem nem fazer as malas, eles entraram no carro da família e fugiram, só parando mais de 500 quilômetros depois, em Munique.

Na Alemanha, Lovren e sua família passaram a viver temporariamente como refugiados. Outros parentes foram depois se juntando a eles, chegando a 11 o número de total de familiares vivendo juntos. O jogador do Liverpool recorda que, chegando ainda criança em um país diferente do seu, sem falar a língua, ele se sentia como “um cego.”

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“Simplesmente acontece, e muda tudo da noite para o dia. Guerra entre todos, entre três diferentes culturas. Eu cresci em uma pequena cidade. Honestamente, nós tínhamos tudo lá. Tudo. Então veio a Guerra… São nessas pequenas vilas que acontecem as coisas mais horríveis”

Sobre a fuga da sua família do país, ele recorda os sacrifícios.

“Fomos sem praticamente nada, com as roupas que estávamos usando, sem malas. Não pegamos nada. Eu era criança e não entendia muito, mas sabia que estávamos indo a um novo lugar e que estaríamos seguros. Eu e minha família, nós tivemos sorte.”

Clive Brunskill Collection Getty Images Sport
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Com o passar dos anos, a família de Lovren foi se adaptando à vida no novo país. Seus pais arranjaram empregos, Dejan começou a frequentar o colégio, aprendeu alemão e também começou a jogar futebol em pequenos clubes da região onde morava. Porém, também subitamente, a vida da sua família mudaria novamente de maneira radical.

Após seis anos morando na Alemanha, as autoridades alemãs informaram que a família de Lovren deveria sair do país, pois a guerra da Bósnia já havia terminado. Então, em pleno frio inverno alemão, eles sofreram uma espécie de deportação, sendo expulsos da Alemanha. A família de Lovren, cujo os pais eram croatas, foi obrigada novamente a se mudar, dessa vez se estabelecendo em Karlovac, na Croácia.

De volta aos Bálcãs, Lovren começou a jogar no time da cidade onde morava, o NK Karlovac. Ao se destacar, foi convidado a se juntar à base do Dynamo de Zagreb. Em 2006, aos 17 anos, fez sua estreia no time profissional, onde permaneceu jogando até 2010.

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Na janela de transferências do verão de 2010, Lovren teve sua primeira chance de vir para a Premier League, mas, surpreendentemente, recusou uma oferta do Chelsea, campeão da competição na época, e optou por ir ao Lyon.

Sua evolução na França não ocorreu como ele esperava, e quando Maurício Pochettino ofereceu a Lovren uma segunda chance de jogar na liga inglesa, ele não pensou duas vezes e aceitou a oferta do Southampton em 2013.

Apenas um ano depois, Brendan Rogers já estava impressionado o bastante para o levar ao Liverpool, onde o zagueiro está até hoje, tendo sido campeão da Champions League na última temporada.

Lovren foi chamado a primeira vez para defender a seleção de base da Croácia em 2004, no sub-17. Em 2009, fez sua estreia no time principal, onde já fez mais de 50 jogos, tendo feito parte do time que foi vice-campeão do mundo em 2018, a melhor campanha da história do país na competição.

Naquele time da Croácia, além de Lovren, outros jogadores também foram refugiados em sua infância, como Modric, Mandzukic, Corluka e Rakitic. Depois da 2ª Guerra Mundial, a Guerra da Bósnia foi a mais longa e sangrenta ocorrida em solo europeu. Se arrastando desde o início de 1992 até dezembro de 1995, cerca de 200 mil pessoas foram mortas em decorrência dos conflitos.

“Se minha família tivesse ficado na Bósnia, eu ou meus pais poderíamos ser mortos. Os refugiados de hoje também merecem uma chance. Quando eu vejo o que está acontecendo com os refugiados hoje, eu lembro da minha situação, da minha família, e de como as pessoas não te querem no país delas. Não é culpa deles, são apenas pessoas lutando por suas vidas e tentando salvar os filhos. Eles só querem um lugar seguro para o futuro dos filhos.” 

Victor Moses

Clive Mason Collection Getty Images Sport
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Outro jogador que tem uma grande história de superação pessoal é Victor Moses. Nascido na Nigéria, em 1990, ele é filho de pais cristãos. Seu pai era pastor, e possuía sua própria igreja em Kaduna, cidade onde a família morava. Porém, subitamente, a vida de Moses sofreu uma mudança traumática.

A Nigéria é um país que sofre com violentos conflitos entre os dois principais grupos religiosos do país (muçulmanos 51% e cristãos 47% da população) desde a década de 1950, fruto da colonização exploratória que o país sofreu de nações europeias, principalmente da Inglaterra.

Nos anos 1960, o país passou primeiro pela sua guerra de independência, e depois por uma guerra civil. Em 1970, se iniciou um período que viu sucessivos governos militares administrarem o país, até que, em 1999, a Nigéria novamente se redemocratizou.

Após a redemocratização, alguns estados do norte do país, de grande maioria muçulmana, começaram a aplicar a Sharia, que é a interpretação legislativa mais radical e conservadora dentro do sistema político e jurídico islâmico. Esse fato acirrou os conflitos religiosos dentro do país, levando até a uma certa perseguição de grupos católicos – foi no norte do país que posteriormente surgiria o Boko Haram.

Em 2002, a Nigéria sediaria o concurso mundial de beleza Miss Mundo, pois em 2001 a nigeriana Agbani Darego foi a campeã da competição. Os muçulmanos mais radicais do país não aceitaram que a Nigéria fosse sede do concurso, o que desencadeou focos de conflitos em muitas regiões do país, inclusive em Kaduna, cidade onde moravam Moses e sua família.

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Durante esses conflitos, o pai de Victor, Austin, por ser um líder cristão proeminente na região, foi friamente assassinado em casa juntamente com a sua mulher, Josephine, por radicais que invadiram a residência da família. Moses tinha 11 anos, e jogava futebol apenas a algumas ruas de distância da sua casa quando seus pais foram assassinados.

Depois do assassinato dos pais, Moses foi protegido por um tio, que o escondeu em sua casa durante uma semana. Por Victor também ser alvo dos ataques, esse tio juntou dinheiro com a família e o mandou sozinho para a Inglaterra, onde ele posteriormente seria acolhido como refugiado.

Moses chegou à Inglaterra em novembro de 2002, órfão, com 11 anos e sozinho, em um país estranho onde ele não sabia falar a língua. Depois de algum tempo morando em um orfanato, ele passou a morar com uma família adotiva no sul de Londres.

Ao se destacar pelo time de futebol da sua nova escola, Moses recebeu um convite para começar a treinar nas categorias de base do Crystal Palace, que também o matriculou em uma das melhores escolas privadas de Londres, arcando com todos os custos de sua educação. Moses evoluiu rapidamente na base dos Eagles, e fez o seu debut como profissional com apenas 16 anos, em 2007.

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Após continuar se destacando, agora entre os profissionais, Moses foi vendido para o Wigan, então na Premier League, em janeiro de 2010. Duas temporadas e meio depois, com 21 anos, ele foi contratado pelo Chelsea, recém campeão da Champions League.

Após temporadas de empréstimo por Liverpool, Stoke City e West Ham, Moses finalmente se fixou como titular do Chelsea na temporada 2016/2017. Sob o comando de Antonio Conte e jogando como wing back, desempenhou papel decisivo no título inglês daquele ano, exatamente 15 anos depois dele ter chegado ao país como refugiado.

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Apesar de estar atualmente jogando pelo Fenerbahce, ele continua vinculado ao Chelsea. Pela seleção inglesa, Moses começou a ser chamado a partir de 2005, com 15 anos, para a seleção sub16. Ele jogou pelas seleções de base inglesas até o sub 21, em 2010.

Na hora de defender a seleção profissional, ele optou por defender a seleção do seu país natal, e passou a frequentar a seleção nigeriana principal a partir de 2012, justamente 10 anos depois de ele ter saído do país após o assassinato dos seus pais em Kaduna. Pelas Super Águias, Moses foi campeão da Copa Africana de Nações de 2013 e disputou as Copas do Mundo de 2014 e 2018.

Em entrevista ao Guardian, lembrando da sua história, Moses afirmou:

“Foi uma longa jornada da Nigéria até a Inglaterra. Agora, só quero permanecer trabalhando forte, e agradecer a deus por estar onde eu estou. Foi bem difícil no começo, ser jogado abruptamente em um país diferente com outra cultura. Sendo uma criança em um novo país, sem falar a língua, era bem difícil fazer amigos. O começo foi realmente difícil, mas eu sobrevivi. Definitivamente, onde quer que eles estejam, meus pais devem estar olhando para baixo e sentindo orgulho de mim.”

Christian Benteke

Marc Atkins Collection Getty Images Sport
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Benteke joga nas seleções da Bélgica desde 2007, quando tinha 16 anos, e começou a defender o time sub-17. Porém, o centroavante do Crystal Palace não nasceu em território belga, mas sim em Kinshasa, em 1990, quando a República Democrática do Congo ainda se chamava República do Zaire.

A RDC passou por uma colonização belga notoriamente violenta nas mãos de Leopoldo II, até que, liderados por Patrice Lumumba, o movimento nacional local conseguiu a independência do país. Lumumba foi eleito presidente no final de 1960, mas, pouco depois, foi sequestrado e assassinado, o que fez o país entrar em convulsão social.

Em 1965, Mobuto Joseph Désiré liderou um golpe militar e assumiu o poder, iniciando uma violenta ditadura que duraria até 1997. Entre outros arroubos de loucura, além dos muitos crimes e atos sanguinários que cometeu, o ditador mudou seu próprio nome para Mobutu Sese Seko Koko Ngbendu wa za Banga, que, modestamente, significa “o todo-poderoso guerreiro que, por sua resistência e inabalável vontade de vencer, vai de conquista em conquista deixando fogo à sua passagem.”

Em 1990, nasceu Christian Benteke, filho de Marie-Claire, a mãe, e Jean-Pierre, o pai, que era soldado do exército nacional do Zaire. Em 1993, por discordar das políticas do ditador Mobuto, o pai de Benteke decide deixar o exército, e passa a ser ameaçado de morte.

Com o seu pedido de prisão já decretado por Mobuto, no meio de uma noite ele consegue fugir clandestinamente do país com a sua família para a Bélgica. Christian tinha três anos.

Após ter o seu status de refugiado reconhecido pelo estado belga, a família acabou se estabelecendo na cidade de Liege. Lá, Benteke começou a jogar nas categorias de base do Standard Liege aos 14 anos.

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Aos 16, após começar a frequentar as categorias de base da seleção nacional do seu país de acolhida, Benteke foi contratado pelo Genk, clube pelo qual fez sua estreia no profissional.

Após empréstimos para diversos times belgas, inclusive um retorno para o próprio Standard, Benteke marcou 16 gols e deu 9 assistências pelo Genk durante a temporada 2011/2012. Suas atuações chamaram a atenção do Aston Villa, que resolveu trazer o atacante para a Premier League.

Desde então, Benteke passou três temporadas no Villa, uma no Liverpool e acaba de começar a sua quarta pelo Crystal Palace, tendo marcado 70 gols nas suas sete primeiras temporadas na liga. Além de ter defendido todas as seleções de base da Bélgica desde os 16 anos, Benteke já fez mais de 30 jogos pela seleção principal desde a sua estreia, aos 19 anos, em 2010.

Em entrevista à BBC, Benteke comentou a atual crise migratória na Europa, relembrando um pouco da sua história de superação: “Espero que refugiados possam ser tratados como qualquer pessoa, seres humanos normais, sejam quais forem suas histórias.”