‘Quantos precisam morrer?’: O drama de ex-jogadores com demência relacionada a choque de cabeça

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A Premier League e a Associação de Jogadores Profissionais (PFA) anunciaram recentemente que irão fazer uma doação conjunta de 1 milhão de libras (cerca de R$ 6 milhões) para ex-jogadores de futebol que sofrem com demência.

Conforme noticiou o “Telegraph”, o dinheiro seria imediatamente disponibilizado às famílias dos inúmeros ex-jogadores com doenças neurológicas para ajudar a custear os cuidados necessários.

As demências são definidas como transtornos neurodegenerativos caracterizados pelo declínio de funções cognitivas e/ou alterações comportamentais de forma persistente. Elas se manifestam com alterações na memória, comportamento, linguagem e atividades comuns da vida diária. A Doença de Alzheimer e a demência vascular, normalmente causada por uma AVC, são as formas mais comuns em idosos.

A decisão foi considerada histórica na Inglaterra por representar um reconhecimento formal das entidades sobre os riscos que o futebol pode trazer à saúde cognitiva dos atletas.

Em 2019, um grande estudo produzido pela Universidade de Glasgow mostrou que ex-jogadores de futebol têm uma taxa de mortalidade aproximadamente três vezes e meia maior devido a doenças neurodegenerativas, como demência e Alzheimer, do que o restante da população. Esse perigo está intimamente relacionado ao choque de cabeças que acontece em divididas durante as partidas.

Infografia: Julio Cardoso

Historicamente, essa relação vinha sendo ignorada pelas entidades do futebol inglês. Em uma forte entrevista recente ao “The Times”, o filho do ex-jogador do Manchester United Nobby Stiles declarou que o universo do futebol ainda faz muito pouco por ex-atletas que sofrem com demência.

O pai de John foi um dos integrantes da seleção inglesa que venceu a única Copa do Mundo do país, em 1966. Ele morreu aos 78 anos, em 2020, depois de passar anos tratando demência e câncer de próstata.

“Quantos heróis em todo o país devem morrer como meu pai morreu?

John Stiles, filho do ex-jogador do Manchester United e da seleção inglesa Nobby Stiles

Apesar da importância da doação, o valor também foi bastante criticado por pessoas envolvidas na causa. Em entrevista ao Telegraph, Judith Gates, fundadora da instituição de caridade “Head Safe Football”, definiu o anúncio como “um pontapé inicial”, mas reforçou a necessidade de apoio contínuo.

— É irônico que 1 milhão de libras seja o salário de um jogador de ponta da Premier League por duas semanas e, na verdade, só seja suficiente para cobrir os custos de cuidados residenciais para 10 a 12 famílias durante um ano. Esse 1 milhão deve ser visto como o pontapé inicial para resolver o problema. São necessários mais 89 minutos de jogo – e financiamento – para que o problema seja abordado de forma adequada — relatou Gates.

Como as “cabeçadas” podem prejudicar a saúde cognitiva dos jogadores

Gustavo Torres, da Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte (SBMEE), explica que o choque de cabeças pode representar riscos significativos para a saúde cognitiva dos atletas.

Tais impactos podem resultar em concussões ou lesões cerebrais traumáticas leves, que podem ter efeitos a curto e longo prazo na função cerebral. A repetição de choques de cabeça ao longo do tempo pode aumentar o risco de danos cerebrais a longo prazo, como a encefalopatia traumática crônica (ETC), que é associada a problemas cognitivos, emocionais e motores — relata Torres.

A ETC pode desembocar em perda de memória, demência, doença de Parkinson, entre outros problemas. O neurologista Renato Anghinah, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP), explica que o desenvolvimento de ETC é o principal perigo a longo prazo das concussões no esporte. Ele conta que o primeiro esporte ligado a essa condição foi o pugilismo, a partir de 1916. Tanto que ela era conhecida anteriormente como Síndrome do Pugilista.

— E quando trocou de nome? Quando começou a se discutir se ela afetava outros esportes. Então não dava pra chamar só de síndrome do pugilista. Aliás, ela não acontece só em esportes. É importante apontar que pode ter outras causas, como por exemplo, a violência doméstica — alerta Anghinah.

O nome da condição foi trocado há poucos anos, a partir de 2002, e um dos grandes responsáveis por isso foi o neuropatologista Bennet Omalu, médico americano de origem nigeriana que descreveu os primeiros casos de ETC na NFL.

— Outro braço da ETC são os veteranos de guerra. Não só por “pancada” na cabeça direto, mas pelo efeito da onda de choque das bombas. Se explode uma bomba a 160 metros de você, ela gera uma onda de deslocamento de ar e te catapulta para longe. Imagina isso acontecer várias vezes na sua carreira militar? É assim que eles acabam desenvolvendo ETC — complementa o neurologista.

Mas e o futebol?

O primeiro caso de ETC descrito neste esporte aconteceu justamente no Brasil. Anghinah conta que ele teve a possibilidade de se envolver com este caso por fazer parte do grupo de estudos.

— O primeiro caso na literatura no Brasil é o estudo do cérebro do Bellini, capitão da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1958. Foi o primeiro descrito no futebol — conta o especialista da USP.

O ex-zagueiro, que também atuou por São Paulo e Vasco da Gama, morreu em 2014 com diagnóstico de Alzheimer. Na época, sua esposa concordou em doar o cérebro do jogador para ser estudado por pesquisadores da USP.

Foi durante essa investigação que o verdadeiro diagnóstico de Bellini foi descoberto: a ETC. Esse ato revolucionou a área médica e esportiva, pois permitiu que fossem estudadas novas formas de proteger os jogadores de futebol e prevenir esse problema.

Cabecear a bola causa algum malefício?

Os especialistas ouvidos pela PL Brasil pontuaram que já é consenso na medicina os riscos cognitivos do choque de cabeça em jogadores de futebol. Mas e o cabeceio? Será que fazer gols de cabeça pode levar a quadros de demência?

Um estudo realizado por universidades do Reino Unido, com 459 jogadores aposentados na Inglaterra, mostrou que aqueles que realizavam mais cabeceios por partida — principalmente zagueiros — tinham mais risco de sofrer comprometimento cognitivo.

A pesquisa, no entanto, não obteve um resultado conclusivo por ter sido realizada apenas à base de entrevistas, sem um acompanhamento com os atletas ao longo de suas carreiras.

Anghinah explica que, ao contrário das concussões, os cientistas ainda não bateram o martelo sobre possíveis perigos relacionados aos cabeceios. Isso porque há uma quantidade considerável de pesquisas que chegam a uma conclusão diferente da análise citada.

A própria pesquisa de Glasgow, que abre esta matéria, diz que não houve uma diferença significativa no número de diagnósticos de doenças neurodegenerativas entre jogadores de linha e os goleiros — uma posição que geralmente não realiza cabeceios — na investigação.

 — O próprio estudo em questão sugere que mais pesquisas precisam ocorrer, não apenas para confirmar seus achados, mas, principalmente, para definir qual seria o limite crítico (de cabeceios) acima do qual haveria eventual necessidade de preocupação e intervenções — analisa Torres.

“Não lembro do jogo”: Varane faz revelação chocante sobre “sequelas” de cabeceios

Varane antes de jogo do Manchester United (Foto: Icon Sport)

Em entrevista ao jornal francês “L’Equipe”, o zagueiro Raphael Varane se abriu sobre ter sofrido concussões em várias partidas ao longo da sua carreira por Real Madrid, seleção francesa e Manchester United. Segundo ele, seu corpo foi lesionado e teve “sequelas” pelos cabeceios — chegando ao ponto de não lembrar o que aconteceu durante os jogos.

Entre os vários exemplos dados por Varane, o jogador dos Red Devils contou uma situação que viveu durante o confronto da França contra a Nigéria nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2014, quando ainda tinha 21 anos. Depois de a bola ter atingido sua têmpora, ele diz ter jogado o resto da partida no “modo automático”.

— Se alguém tivesse falado comigo naquela época, eu nem sei se teria conseguido responder. Eu não me lembro do jogo depois desse incidente — revelou o zagueiro.

Após o ocorrido, o francês perdeu apetite, ficou desidratado e perdeu peso, mas ainda assim jogou nas quartas de final. Mas foi somente no Old Trafford, quase dez anos depois, que ele tomou conhecimento sobre as microconcussões, os impactos graduais que levam a concussões mais sérias.

Preocupação com as crianças e adolescentes

Torres lembra que, em agosto de 2022, a International Football Association Board (Ifab), associação que estabelece as regras do futebol, enviou a confederações nacionais uma recomendação para que jogadores das categorias de base de até 12 anos fossem proibidos de cabecear a bola durante treinos e partidas.

A sugestão da entidade é que os árbitros marcassem falta, sem punição com cartão, os lances de cabeceio intencional em partidas de categorias até o sub-12. Por ser apenas uma recomendação e não uma regra, as federações não seriam obrigadas a acatar.

— A justificativa é que esse tipo de jogada gera risco de impacto, não somente com a bola, mas com a cabeça ou corpo de adversários, assim como a trave. O foco nessa faixa etária é explicado pelo fato de que crianças estão com seu cérebro, e corpo como um todo, além de suas habilidades motoras e físicas, ainda em desenvolvimento, tornando esses traumas potencialmente mais críticos, por serem esses praticantes mais vulneráveis — esclarece o médico da SBMEE.

No Brasil, a medida não se tornou obrigatória. O médico do esporte lembra que, mesmo antes dessa recomendação formal da Ifab, a medida já estava sendo adotada, experimentalmente, em ligas infantis dos Estados Unidos, Inglaterra, Argentina e nos países nórdicos. 

— Certamente, os dados colhidos com essas experiências vão servir para ir se formando um melhor embasamento sobre esse assunto e nortear posicionamentos das entidades que gerem o futebol. Mas, por serem ações relativamente recentes, ainda há muito o que se pesquisar para que ocorram eventuais mudanças de regras, não apenas para essas categorias inferiores, chegando até o futebol profissional — arremata Torres.

Para prevenir a demência, é preciso mais que uma substituição extra

Em 2021, a Premier League implementou a regra da substituição extra para jogadores que sofressem concussão em campo. Hoje, se um jogador passa por esse problema — com aval da equipe médica –, seu time ganha o direito de substituí-lo por outro atleta, sem perder nenhuma das cinco substituições que as equipes podem realizar no tempo normal de jogo. Essa medida foi utilizada pela primeira vez em Copas do Mundo na edição de 2022, realizada no Catar.

Para Anghinah, essa medida é necessária, mas ainda não é suficiente para prevenir as concussões no futebol. O neurologista acredita que transformar esse tipo de lance em falta, tendo inclusive punição com cartão amarelo, diminuiria sua incidência.

— Esse tipo de lance em uma disputa de bola proposital, quando um jogador vai para cabecear a cabeça do outro, vamos dizer assim, sem ter chance nenhuma chegar na bola, teria que ser visto como um carrinho por trás, uma jogada violenta. E aí, você ia diminuir brutalmente esses choques de cabeça — exemplifica o neurologista.

— Ampliar e aprofundar os protocolos de avaliação da concussão é essencial. Isso poderia incluir avaliações mais detalhadas e consistentes, realizadas por profissionais médicos especializados, para assegurar uma compreensão completa da gravidade da lesão. Além disso, a conscientização de jogadores, treinadores e árbitros sobre os sintomas sutis da concussão é fundamental para uma detecção precoce — sugere Torres.

Anghinah concorda que é necessária uma conscientização entre a própria mídia envolvida na transmissão e cobertura do futebol. Ele cita como exemplo o fato de na NFL e na NBA os narradores e comentaristas informarem durante os jogos quando se inicia os protocolos de concussão.

— Isso não acontece no futebol. O indivíduo perde a consciência, por uns 10 segundos. Depois, ele senta no gramado e o narrador fala ‘graças a Deus, ele já está bem’. Só que às vezes, ele pode estar lá sentado e não sabe nem que está jogando futebol. É uma desinformação para o público — conclui o médico da USP.

Maria Tereza Santos
Maria Tereza Santos

Jornalista pela PUC-SP. Na PL Brasil, escrevo sobre futebol inglês masculino E feminino, filmes, saúde e outras aleatoriedades. Também gravo vídeos pras redes e escolhi o lado azul de Merseyside. Antes, fui editora na ESPN e repórter na Veja Saúde, Folha de S.Paulo e Superesportes.