Melhor que Richarlison e Matheus Cunha: por que João Pedro merece uma chance como 9 da seleção brasileira

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Em sua saga para descobrir quem é o camisa 9 ideal para o próximo ciclo da seleção brasileira, Fernando Diniz chamou três nomes que atuam na Premier League em sua última convocação: Gabriel Jesus, do Arsenal; Richarlison, do Tottenham; e Matheus Cunha, do Wolverhampton.

É natural, e até correto, que o técnico olhe para a melhor liga do mundo atrás de respostas para a seleção mais famosa do mundo. Mas talvez ele esteja escolhendo as opções erradas.

A PL Brasil levou em conta uma série de critérios, dentro e fora de campo, para defender que João Pedro, atacante do Brighton, seria uma opção melhor para a vaga de centroavante do Brasil que os últimos escolhidos.

A comparação fica ainda mais favorável para João Pedro com a lesão de Jesus, que vivia um bom momento no Arsenal. E a análise tem em mira a próxima convocação de Diniz, que será divulgada na segunda-feira (6).

Diniz e João Pedro, uma relação antiga

João Pedro e Diniz no Fluminense, em 2019 (Foto: Twitter @fluminensefc)

Tudo começa pelo fato de Fernando Diniz conhecer muito bem João Pedro. Foi o atual treinador do Fluminense que, na sua passagem anterior pelas Laranjeiras, subiu o atacante para o time profissional, em 2019, quando ele tinha apenas 17 anos.

João Pedro estreou no Campeonato Carioca e teve ótimas atuações com Diniz, que ficou no cargo até agosto daquele ano. O atacante disputou 20 partidas com o treinador (metade delas como titular), marcou nove gols e deu duas assistências.

Em comparação, os números dele caíram drasticamente depois da demissão do treinador. Foi apenas um gol nos 17 jogos seguintes, sob o comando do interino Marcão.

Num time que ficou marcado por dominar a posse de bola e ter pouca eficiência no ataque, João Pedro era um dos únicos que conseguia colocar a bola na rede constantemente, apesar da pouca idade. É fácil imaginar que, um reencontro entre um treinador e um jogador mais maduro, que se conhecem e estão num time melhor, renderia ainda mais frutos.

João Pedro lidera em estatísticas importantes

João Pedro marcou os dois primeiros gols do Brighton na história das competições europeias (Foto: Icon Sport)
João Pedro pelo Brighton (Foto: Icon Sport)

Quando vamos aos números, o atacante do Brighton também leva vantagem em critérios importantes entre os desempenhos comparados na Premier League.

João Pedro, Matheus Cunha e Richarlison têm 10 jogos nesta temporada. O primeiro tem dois gols e uma assistência, os mesmos números de Cunha. Já Richarlison tem um gol e três assistências.

Mas a diferença fica mais clara quando comparamos a minutagem. João tem 551 minutos em campo, quase a metade de Cunha e 70 minutos a menos que o Pombo. Isso significa dizer que ele faz um gol a cada 275 minutos. Matheus marca a cada 433 minutos, enquanto Richarlison só balançou as redes uma vez em 623 minutos. Nenhum tem números brilhantes, mas os de João são melhores.

JP9 ainda leva a melhor que os dois nos quesitos gols esperados (xG), toques na área por 90 minutos e porcentagem de chutes que entra no gol. Ou seja, estatísticas que corroboram com a afirmação de que ele é um atacante com melhor posicionamento e eficácia que os concorrentes.

JogadorxGToques na área por 90′% de gols por chutesChutes por 90′
João Pedro0,53 (15º)6,37 (3º)14,3% (20º)2,3 (32º)
Richarlison0,52 (17º)5,05 (9º)4,75% (43º)3 (14º)
Matheus Cunha 0,26 (42º)3,6 (42º)9,52% (37º)2,2 (37º)
Entre parênteses está a comparação com os outros atacantes da Premier League 2023/24.

Matheus Cunha leva a melhor no número de ações atacantes com sucesso por jogo, um número inflado pela boa quantidade de dribles que ele realiza. Richarlison, por sua vez, é quem tem a melhor média de chutes ao gol, embora tenha uma porcentagem de sucesso de menos de 5% — a terceira pior entre todos os atacantes que fizeram gol na Premier League 2023/24.

Os dados são do Wyscout e foram levantados até o dia 3 de novembro, antes da 11ª rodada da Premier League.

Posicionamento de camisa 9

Em todos os jogos até o momento, Fernando Diniz escalou um time com dois pontas (no cenário ideal, Vinicius Junior pela esquerda e Raphinha pela direita), um meia-atacante (era Neymar até a lesão) e um atacante mais fixo. Pela ocupação de espaços, é natural que o camisa 9 atue mais centralizado. E isso é outro argumento a favor de João Pedro.

Richarlison até começou como centroavante no 4-2-3-1 de Ange Postecoglou no Tottenham, o mesmo esquema usando por Diniz na seleção. Mas o brasileiro não correspondeu à altura na ausência de Harry Kane e foi deslocado para a ponta-esquerda, com Son atuando — e fazendo gols — como camisa 9.

O mapa de calor dos últimos jogos mostra exatamente isso: o Pombo mais preso à lateral do campo, num papel semelhante ao já desempenhado por Vini Jr na Seleção.

O mapa de calor do Richarlison nos últimos jogos do Tottenham na Premier League 2023/24 (Foto: Wyscout)
O mapa de calor do Richarlison nos últimos jogos do Tottenham na Premier League 2023/24 (Foto: Wyscout)

Matheus Cunha também não tem jogado exatamente como o camisa 9 do Wolverhampton. O brasileiro foi escalado, na maioria das vezes, ao lado de Hwang, com quem forma uma dupla de ataque. Cunha também sai bastante da área — tanto que viraram frequentes as arrancadas que ele produz carregando a bola desde o meio do campo. Foi assim que se tornou o maior driblador da Premier League.

Além disso, joga contra o atacante o fato de que o Wolverhampton não é um time com característica de posse de bola — é o 13º no quesito entre todos os clubes da liga, com uma média de 47% do jogo. Ou seja, Matheus joga num contexto bem diferente da Seleção de Diniz e, também por isso, precisa sair mais da área.

Mapa de calor de Matheus Cunha no Wolves de 2023/24 (Foto: Wyscout)
Mapa de calor de Matheus Cunha no Wolves de 2023/24 (Foto: Wyscout)

Já o posicionamento padrão de João Pedro no Brighton se assemelha bem mais ao que seria necessário no camisa 9 da seleção brasileira. Primeiro porque o time de De Zerbi, assim como o de Diniz, prioriza a posse de bola, embora seja mais adepto do jogo posicional que o brasileiro.

E segundo porque João Pedro cumpre uma função mais centralizada na equipe, mais perto da definição da jogada — onde Diniz precisa que seu centroavante esteja. No elenco dos Seagulls, Mitoma, Enciso, Solly March, Adingra e Ansu Fati têm a responsabilidade de jogar pelas pontas ou atrás do atacante. São também os casos de Vinicius Junior, Raphinha, Rodrygo, Martinelli e Neymar na Seleção. E João Pedro casa bem com os dois grupos de jogadores.

João Pedro e seu mapa de calor no Brighton (Foto: Wyscout)

Isso não significa que ele seja um centroavante fixo, com as mesmas características, por exemplo, de Pedro, do Flamengo. O próprio mapa de calor mostra João Pedro como um jogador móvel, até porque também pode fazer dupla de ataque com Evan Ferguson, centroavante mais físico do elenco. Mas o argumento ainda serve para dizer que o cria de Xerém encaixaria bem no ataque de Diniz.

Por fim, a idade na seleção brasileira

Por mais que a tecnologia tenha evoluído a ponto de prolongar o auge físico dos jogadores, a idade também é um argumento a favor de João Pedro. O brasileiro tem 22 anos — terá 25 na Copa de 2026 — e está em plena ascensão, já tendo se provado no Brasileirão, numa liga menor europeia e agora cavando seu espaço na Premier League.

Richarlison, aos 26, vem encontrando dificuldades para se firmar como referência de um grande clube na Inglaterra. Teve bons momentos no Watford e no Everton, mas não deu o salto esperado em desempenho no Tottenham. E estará perto dos 30 anos no próximo Mundial.

Richarlison Brasil
Richarlison pela seleção brasileira – Foto: Icon Sport

Matheus Cunha está entre os dois — tem 24 e terá 27 em 2026. Mas é importante dizer que ele teve a chance de se firmar num grande clube europeu, o Atlético de Madrid, e não conseguiu. Por isso, precisou recomeçar a trajetória no Wolverhampton.

Enquanto os dois frequentemente convocados têm dificuldades em subir seu nível, João Pedro está crescendo. Ele está mais perto da próxima geração de atacantes da seleção brasileira, onde a expectativa é alta sobre Endrick, Vitor Roque e Marcos Leonardo. Com a diferença que o ex-Fluminense já está atuando num campeonato onde a exigência tática, técnica e física é muito maior. Então por que não já testá-lo com a amarelinha? A caneta e a bola estão com Fernando Diniz.

Diogo Magri
Diogo Magri

Jornalista nascido em Campinas, morador de São Paulo e formado pela ECA-USP. Subcoordenador da PL Brasil desde 2023. Cobri Copa América, Copa do Mundo e Olimpíadas no EL PAÍS, eleições nacionais na Revista Veja e fui editor de conteúdo nas redes sociais do Futebol Globo CBN.

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