João Pedro revela meta de gols, explica por que jogadores escolhem De Zerbi e o compara a Diniz: ‘Tem muito a ver’

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O futebol bem jogado atrai olhares, aproxima torcedores, vira alvo de estudo de outros treinadores e também impacta o mercado da bola. O Brighton é o time sensação da Premier League desde a chegada de Roberto De Zerbi, em setembro de 2022, por esse motivo: joga de forma atraente. O estilo diferente, inusitado e até vanguardista do técnico italiano foi um dos principais motivos pelos quais o atacante João Pedro escolheu se transferir para os Seagulls.

Em entrevista exclusiva à PL Brasil, o brasileiro ex-Fluminense contou bastidores sobre seu processo de escolha no janela de transferências, a relação que tem com De Zerbi e até comparou o treinador com o comandante da seleção brasileira, Fernando Diniz.

Na primeira parte da reportagem, o camisa 9 do Brighton comentou sobre o tempo em que foi comandado por Diniz no Fluminense, como desenvolveu grande versatilidade para atuar em diversas posições no ataque e como planeja “entrar no bolo” da Seleção durante o ciclo atual para a Copa do Mundo de 2026.

Por que ele e outros escolhem o Brighton?

João está na Inglaterra há quase quatro anos e, por consequência, criou conexões. No litoral sul do país, encontrou amizades que o ajudaram a escolher sua nova equipe:

— Eu também tinha amigos aqui (no Brighton), como o Estupiñán, Danny Welbeck, falei com eles também. Eles me falaram que é um grande clube e que tudo que eu precisasse, eles teriam aqui.

Em entrevista exclusiva com a PL Brasil em abril, o goleiro do Liverpool e ex-companheiro de João Pedro na base do Fluminense, Marcelo Pitaluga, comentou sobre a divisão de grupos do elenco dos Reds, que contava com um grupo característico dos latinos. João ainda não identificou isso no Brighton — que conta com diversos sul-americanos.

— Claro que a gente tem mais afinidade com os sul-americanos, mas os ingleses também, o Milner, o Pas (Pascal Gross), que é da Alemanha, conversa bastante comigo, procura ajudar bastante. A gente não tem um grupo, mas claro que tem mais afinidade com alguns — ando bastante com o Julio Enciso, com o Igor, sul-americanos — mas os ingleses também procuram ajudar a gente bastante – revelou o brasileiro.

Além da amizade, o lado profissional obviamente entra na equação. E, no caso do Brighton, a perspectiva de jogar sob a tutela de um nome vanguardista no futebol enche os olhos.

Recentemente, Ansu Fati deixou o Barcelona e acertou sua ida ao Brighton por empréstimo. Ter rejeitado o Tottenham e escolhido os Seagulls foi uma decisão atribuída a um personagem central: Roberto De Zerbi. O mesmo ocorreu com João Pedro.

— Me falaram do De Zerbi, que é um grande treinador. Vão disputar campeonato europeu e alguns jogadores também mandaram boas notícias sobre o treinador. Eu ouvi que é um cara que gosta de jogar futebol – revelou o brasileiro.

Acredito que praticamente o dia inteiro ele procura melhorar todos os jogadores que ele tem nas mãos e é por isso que eu vim pra cá“, continuou o ex-Fluminense. Aos 21 anos, o atacante tem uma avaliação sóbria sobre seu futuro e acredita que “pode melhorar muito em alguns aspectos” e, como o técnico gosta de desenvolver jovens, crê que encontrou o melhor caminho possível.

‘Brasileiros têm mais facilidade em jogar com De Zerbi'

Quando dirigiu o Shakhtar Donetsk, da Ucrânia, seu último clube antes de assumir o Brighton no ano passado, o técnico italiano contava com um time repleto de brasileiros. Seu último jogo oficial no clube, antes do futebol ucraniano ser paralisado por conta das invasões russas no país, contou com sete brasileiros no time titular (além de um jovem Mudryk, hoje no Chelsea).

Para João Pedro, brasileiros e sul-americanos de modo geral têm afininidade com o estilo de De Zerbi. Em um modo de jogo que faz os jogadores pisarem na bola e a segurarem até o último minuto antes de procurarem tabelas e dribles em velocidade — algo que lembra o futsal jogado por aqui –, os sudacas acabam se sobressaindo.

João Pedro comemora gol do Brighton com Evan Ferguson - Foto: Icon Sport
João Pedro comemora gol pelo Brighton (Foto: IconSport)

— Acredito que, pela forma que ele gosta de jogar futebol, nós brasileiros temos mais facilidade de entender e de ser mais criativos nesse ponto. Então acredito que ele tenha um gosto a mais sobre os sul-americanos e que a gente tem mais ‘facilidade' – avaliou o atacante.

Um treinador que é conhecido por desenvolver e transformar jogadores inevitavelmente cria uma fama de “chato”, que cobra muito e corrige incansavelmente seus atletas. Segundo João, o estereótipo casa perfeitamente com o perfil do técnico:

— Sim (De Zerbi é “chato”), mas isso é tudo conversado. Ele falou para mim que, como ele acredita em mim, vai sim encher o saco todos os dias e procurar me desenvolver. Eu acredito que ele está certo, porque quando o treinador “enche o seu saco”, é porque ele gosta de você, ele sabe de seu potencial e ele procura te evoluir o máximo que ele pode – afirmou o camisa 9 dos Seagulls.

O treinador não só cobra, mas também coloca metas para que o jovem atacante atinja níveis ainda maiores. “Eu tenho meta para fazer gols”, revelou João Pedro. “Converso bastante com De Zerbi e ele colocou uma meta para fazer 20 gols na temporada. A gente tem quatro competições, mas depende muito da minha minutagem também”, ressaltou. Chegar na Seleção também é uma meta, assim como conquistar a Europa League,

O italiano é um treinador que cobra e fica maluco corrigindo seus jogadores… Lembrou alguém?

De Zerbi se parece com Diniz?

— Sim! Acredito que o De Zerbi e o Diniz têm muito a ver, mas acho que o De Zerbi tem uma forma um pouco diferente de pensar. Eles são muito parecidos na hora de sair jogando, mas algumas movimentações que eu vi com o De Zerbi, eu não tinha visto com o Diniz. Acredito que tem essa diferença, não sei se por ser europeu, mas são muito parecidos, sim – disse João Pedro de forma enfática.

Agora na seleção, o treinador do Fluminense alcança o maior palco da carreira até o momento – mesmo que ainda sem competições como Copa América ou Copa do Mundo. É possível que ele dê o salto para a Premier League, tamanha sua semelhança ao técnico do Brighton? João Pedro é claro:

Eu acho que sim. (O Diniz) tem um perfil de treinador europeu, ele cobra… Ele é parecido com o De Zerbi – dentro de campo, quando a gente está treinando, procura sempre tirar o máximo que pode do jogador, e fora de campo é um um paizão. Procura conversar, ajudar, tudo que for preciso. E o Diniz tem muito a ver muito a ver com ele (De Zerbi), muito parecido. Eu acredito que o Diniz tem capacidade para trabalhar um clube aqui da Inglaterra.

O treinador da Seleção foi apresentado no novo cargo falando sobre manter a cultura brasileira e que o futebol nacional “não pode perder a sua essência”: os dribles, jogadas de aproximação e o popular “jogo bonito”, que teve expoentes em diferentes décadas. Muito se debate sobre o jogador brasileiro estar sendo moldado quando vai à Europa e, por consequência, a essência do jogo nacional ser perdida.

Fernando Diniz assumirá a seleção brasileira enquanto treina o Fluminense
Foto: Icon Sport

João compactua com a ideia de Diniz, mas faz seu alerta aos compatriotas: “O jogador brasileiro, quando vem pra fora, tem que estar disposto a jogar da forma que eles gostam. Claro, não pode perder a nossa essência, mas tem que estar disposto a aprender como o treinador quer que você jogue“.

O motivo, para ele, é claro: se não jogar como é indicado, não terá minutos. “Se você for pensar a forma que nós brasileiros jogamos no Brasil, claro que existe tática. Mas aqui se você não faz, você não vai jogar”, reforça. O atacante diz que, no Brasil, o atleta pode jogar da forma que pensa, o que é praticamente impossível na Inglaterra.

— Aqui não, aqui você tem que jogar da forma que o time pensa, porque se você estiver se movimentando de forma errada, você vai atrapalhar os outros jogadores, então acaba que muitos vêm para cá e não têm sequência por conta disso – afirma.

Versatilidade como virtude

O estilo europeu de pensar e executar o jogo, no entanto, não é um cabresto. João chegou ao Watford depois de brilhar como centroavante no Fluminense, mas atuou em todas as posições do ataque e, no agora, tem a versatilidade a seu favor.

Sua posição preferida depende do clube, segundo o jovem. No Watford, preferia jogar de camisa 10, porque tinha mais controle do jogo, “conseguia tocar mais vezes na bola”. No Brighton, por exemplo, prefere ser o centroavante que vai aproveitar as abundantes chances criadas pelo time.

— A gente teve 28 finalizações (contra o Luton Town), acredito que como centroavante eu consigo demonstrar meu melhor desempenho. Mas eu acredito que também de 10 ou de ponta eu consigo jogar e demonstrar um nível alto de rendimento em campo também porque, como eu trabalhei bastante no Watford em várias posições, eu fui aprendendo – analisou o jogador.

De Zerbi tem conversas com o jovem sobre seu posicionamento e fala que o vê mais como camisa 10 ou de 9, que são as posições que atuava no Watford. E a sede de crescimento demonstrada por João é mais um indício de que fará o necessário para se manter no alto nível:

— Eu tenho vontade de me desenvolver em todas as posições: como meia, centroavante e como ponta. Porque se eu conseguir chegar um alto nível em três posições, isso facilita para mim. Abre o mercado e me ajuda a ter mais minutagem dentro da equipe.

Seu trabalho “é para chegar no topo”, como ele mesmo diz, e um sonho máximo já foi realizado: jogar na Inglaterra. “E pensando daqui a cinco anos, eu espero conquistar títulos, seleção brasileira, desenvolver meu futebol e me manter aqui na Premier League, que para mim é o melhor futebol do mundo“.

“Zoação” brasileira na Inglaterra

Suas amizades transcendem a região geográfica ou os times. Na primeira parte da entrevista, o atacante do Brighton nos revelou que Emerson Royal é um grande amigo e que, quando estava no Watford, era vizinho de parede de Lucas Moura, hoje no São Paulo, quando morava na capital britânica. E a conexão brasileira esquentou os dias frios londrinos.

— A gente (ele e Emerson) criou uma amizade muito legal. Ele sempre me chamava para ir para casa dele fazer churrasco, escutar música, fazer pagode e a gente criou uma amizade bem sincera.

Richarlison, que também mora em Londres, foi alvo de muita reclamação de seus vizinhos em abril deste ano por conta de festas e barulho. O pagode e o churrasco brasileiro não estão na cultura inglesa, mas, pelo menos até o momento, não bateram na porta de João Pedro pedindo para abaixar o som.

— Não (reclamaram), mas acredito que eles não devem gostar muito, porque aqui eles são muito tranquilos. Eles não têm a frequência de fazer essas coisas, reunirem em casa, eles se reúnem mais em parques, é mais tranquilo. Mas nunca reclamaram de nada, não – disse o jogador, aos risos.

A saudade do Brasil acompanhou o carioca em Londres e segue com ele no litoral inglês, mas, mesmo com a pouca idade, tem uma visão bastante segura sobre o seu momento: “Vim aqui para trabalhar, eu tenho meus objetivos e sonhos, e cada vez estou chegando mais perto”.

— Eu fico muito focado porque acredito que a oportunidade que o Brighton está me dando de poder treinar com o De Zerbi facilita a alcançar meus objetivos. Então acho que eu tenho que abraçar essa oportunidade e trabalhar forte, porque esse tem que ser o ano de virar a chave – afirmou.

A amizade com “rivais” vai além de Londres. Seus amigos cariocas, como Bruno Guimarães e João Gomes, também são pessoas importantes no círculo de João na Inglaterra. O xará, ex-Flamengo, inclusive, foi rival durante toda a vida nas categorias de base.

Além de ser um jeito de matar a saudade do Brasil, as amizades também são um porto seguro para casos extremos de volatilidade do mercado. E se as brincadeiras sobre “pular a cerca” e jogar com os amigos vira assunto nas resenhas amadoras de bairro, por que não seria na Premier League também?

— Brincadeira (do rival chamar para jogar junto) rola, mas a gente sabe que o mercado é meio maluco. A gente nunca sabe onde a gente vai acabar indo, porém é importante manter as amizades, porque a gente não sabe o dia de amanhã – ressaltou.

Tempo no Fluminense

No Tricolor das Laranjeiras, João subiu para os profissionais sob o comando de Diniz e dividiu o campo com alguém que ficou marcado até hoje na memória: Paulo Henrique Ganso.

João rasgou elogios ao meia e lembrou da passagem dele na Europa, quando foi contratado pelo Sevilla de Jorge Sampaoli em 2016, clube que defendeu até 2018. Para o ex-companheiro, faltou sorte:

— Eu acho que as lesões que ele teve atrapalharam, porque a lesão dele foi grave. Acho que faltou um pouco de sorte para ele, eu não acho que ele fracassou na Europa, mas ele não caiu no time certo.

Foto: Icon Sport

O estilo de jogo dele é raro, você não vê muitos jogadores que tem a capacidade que ele tem. Para mim ele é um gênio.

O “gênio”, até o momento, é um dos jogadores que mais encantou João dentro de campo: “Eu já passei em três clubes e a capacidade e inteligência que ele tem de saber quando dar o passe mesmo sem tocar na bola, dar direção por outros jogadores é incrível“, disse.

Mas não foi o único. Só um atleta no mundo – ao menos com quem João dividiu os treinos – está no mesmo nível do que Ganso:

Já vi um jogador que chega próximo dele: o Adam (Lallana).

A escolha ousada foi justificada: “Ele já está um jogador mais experiente, então claro que fisicamente para nós mais jovens, a gente vai se sobressair, mas ele é muito inteligente, muito técnico, então ele se sobressai bastante nessa questão”.

Volta ao Fluminense ou a outro clube?

João Pedro não deixou de esconder seu carinho pelo Tricolor e não fecha as portas para uma eventual volta ao clube, mesmo que o pensamento seja de ficar na Europa:

— Acredito sim numa possível volta, mas a gente sabe como é que é o futebol, né? Tenho que aproveitar a oportunidade que eu tive de vir para Europa, dar o meu melhor, alcançar meus objetivos e lá na frente a gente vê o melhor para mim.

Bastante seguro, o atacante do Brighton mostrou que ainda ajuda o clube mesmo de longe, quando joga bem e é transferido para outra equipe. Sua ida aos Seagulls, por exemplo, rendeu uma porcentagem ao Flu.

— Eu sempre quero ajudar o Fluminense, e eu sigo ajudando. Nessa transferência (para o Brighton) o clube também conseguiu um pedacinho. Então, vou chegar lá na frente e ver o qual o melhor projeto e o melhor caminho para mim e fazer a escolha certa – completou o camisa 9.

Guilherme Ramos
Guilherme Ramos

Jornalista pela UNESP. Escrevi um livro sobre tática no futebol e sou repórter da PL Brasil. Já passei por Total Football Analysis, Esporte News Mundo, Jumper Brasil e TechTudo.

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