João Gomes explica escolha pelos Wolves, diz o que precisa melhorar e afirma ‘aceitar’ gagueira

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João Gomes chegou ao Wolverhampton já mostrando o que podia entregar ao time. Mesmo sendo contratado na janela de transferências do meio da temporada, em janeiro de 2023, o brasileiro ex-Flamengo já foi o líder em desarmes da equipe na temporada passada. E na Premier League 2023/24, ele segue entre os primeiros do time nesse quesito.

Quase um ano depois de sua chegada aos Wolves, o meio-campista deu uma entrevista ao site inglês “The Athletic”, na qual falou sobre as mudanças que sentiu sob o comando de Gary O'Neil em relação a Julen Lopetegui (treinador da equipe na temporada passada), comentou sobre a campanha que os torcedores fizeram pela sua contratação e tocou em um assunto delicado de forma bastante corajosa: sua gagueira.

O movimento #FreeJoãoGomes

João Gomes protagonizou uma transferência, no mínimo, inusitada. Segundo o The Athletic, o Wolverhamtpon tinha um acordo verbal com o jogador, que seria vendido aos ingleses por 15 milhões de libras (R$ 90,1 milhões). No entanto, o Flamengo acabou aceitando uma oferta do Lyon, clube administrado por John Textor — também dono do Crystal Palace e do Botafogo.

O impasse provocou a campanha #FreeJoãoGomes nas redes sociais, em alusão ao movimento feito pelos fãs da cantora Britney Spears pelo fim da tutela do pai da artista. A situação só se resolveu quando o próprio João Gomes se posicionou e conversou com Textor e com Rodolfo Landim, presidente do Flamengo.

— Eu teria chegado aqui mais cedo se não fosse aquela batalha entre dois clubes. Tive uma reunião com o presidente do Flamengo e com o presidente do outro clube (Lyon). Eu disse que queria me juntar ao Wolves por causa do carinho que os torcedores me mostraram e porque queria a chance de jogar na Premier League — revelou o jogador.

Com Textor assumindo a derrota, Gomes chegou aos Wolves um dia antes do fim da janela de transferências de janeiro. Apesar de achar a situação toda cômica, Gomes entende que isso só aumentada sua responsabilidade.

— Foi uma mistura de sensações. Havia um lado engraçado nisso, mas também se tratava de responsabilidade. Eu sei que não fui barato, então sinto um senso de responsabilidade. Não de uma forma negativa, apenas me motiva ainda mais. Todos os dias quero ser melhor do que fui no dia anterior.

‘O'Neil tem trabalhado muito nisso comigo no Wolverhampton'

Gomes não foi titular no fim da era Lopetegui no Wolves, mas conquistou seu espaço sob o comando de Gary O'Neil, tornando-se titular nos nove primeiros jogos da temporada 2023/24.

Apesar do impacto que a saída do antigo treinador dias antes do início da nova edição da Premier League, Gomes elogiou O'Neil e disse que ele está ajudando “a aperfeiçoar o seu jogo”.

— Uma coisa que tenho um pouco de dificuldade é examinar ao meu redor antes de receber a bola. Ele (O'Neil) tem trabalhado muito nisso comigo. Acho que você verá uma grande melhoria nessa área em breve.

gary o'neil wolverhampton
Gary O'Neil, técnico do Wolverhampton (Foto: Icon sport)

Conhecido em sua época do Flamengo por seu estilo de alta pressão e ataque — o que o levou a ser apelidado de “Pitbull” pela torcida-rubro-negra –, o meio-campista contou que tem sentido que as diferenças entre o futebol inglês e o brasileiro beneficiam sua forma de jogar.

— Acho que posso ser mais agressivo aqui. Às vezes, no Brasil, eu usava a força e o árbitro marcava falta. Aqui, deixam o jogo fluir mais e permitem mais contato. Acho que isso me favorece porque sou um jogador físico.

— Acho que ainda estou muito longe do meu melhor nível. Ainda posso melhorar meu jogo, minhas habilidades. Todo jogador precisa de tempo de jogo e estou conseguindo agora. Estou feliz por ele (O'Neil) acreditar em mim.

João Gomes, em entrevista ao “The Athletic”

A aceitação da gagueira de João Gomes

João Gomes sofre com dificuldades para falar desde a infância. Era possível ver o nervosismo (ou timidez) do jovem atleta nas entrevistas quando ainda atuava pelo Flamengo. Mas, agora, ele se mostra mais disposto a tocar no assunto.

— Perdi muitas coisas na minha vida por causa do medo. Medo do que os outros pensariam de mim, do que diriam. Esse medo limita você cada vez mais. Você se fecha em uma bolha. Hoje aceito muito mais quem sou e como falo, porque não é grande coisa. Cada pessoa tem suas características e seu modo de viver. Hoje, vejo isso (a gagueira) como uma coisa natural.

Enxergando a gagueira como algo mais natural hoje em dia, Gomes entende que “certas coisas estão além do nosso controle”. Mas ele procura ver o lado positivo sempre e diz às pessoas “que elas não podem renunciar às coisas por causa de algo assim”.

Perguntado pelo repórter se ele tem algum conselho para jovens torcedores que estejam passando pela mesma situação, Gomes diz que é difícil porque “cada pessoa reage às coisas de maneira diferente”. Porém, no fim das contas, ele deixa uma boa mensagem:

— Eu diria a eles para terem coragem. Eu diria aos pais que lhes dessem o tempo necessário para se expressarem da melhor maneira possível.

Maria Tereza Santos
Maria Tereza Santos

Me formei em Jornalismo pela PUC-SP em 2020. Antes de escrever para a PL Brasil, fui editora na ESPN e repórter na Veja Saúde, Folha de S.Paulo e Superesportes.