Por que João Gomes precisa estar na primeira convocação de Dorival na Seleção

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A primeira convocação de Dorival Júnior como técnico da seleção brasileira ocorre nesta sexta (1º), às 13h (horário de Brasília), para os amistosos contra Inglaterra e Espanha. Algumas novidades são esperadas, entre elas a possível presença de nomes da Premier League, como João Gomes.

O jovem meio-campista de 23 anos é titular do Wolverhampton e tem crescido cada vez mais na temporada 2023/24, depois de se destacar no Flamengo como um dos volantes mais promissores do Brasil.

Com fatores como proximidade com o treinador, dúvidas sobre o futuro da posição e desempenho positivo na liga mais cobiçada do mundo, João Gomes tem tudo para ser uma figura recorrente no time de Dorival.

Desempenho na Premier League o credencia

Em uma primeira temporada de adaptação, João Gomes ainda assim foi bastante utilizado em 2022/23: sete jogos como titular na Premier League em 11 rodadas disputadas. Agora, o número já é de titular absoluto: 21 titularidades em 23 jogos.

Seu crescimento na liga mais disputada do mundo é evidente e o credencia a um espaço nas próximas convocações da seleção brasileira, principalmente visando sequência de um jogador com potencial de renovar um setor em mudanças.

João Gomes
(Foto: Icon sport)

João Gomes entre meio-campistas sub-25 da Premier League:

  • 2º em divididas
  • 5º em dribles
  • 8º em porcentagem de duelos vencidos
  • 9º em passes-chave
  • 9º em interceptações

Mínimo 50% dos jogos disputados. Dados da plataforma “SofaScore”

Prova do destaque recente, o volante foi indicado ao prêmio de jogador do mês de fevereiro da Premier League. No período, deu uma assistência para Matheus Cunha na vitória sobre o Chelsea e marcou duas vezes contra o Tottenham.

Dois dos seus principais concorrentes na posição para os próximos anos estão na Premier League: Bruno Guimarães, que tem sido titular na seleção brasileira pós-Copa do Mundo, e Douglas Luiz, que pede passagem há meses.

Em um comparativo com os dois, no entanto, João Gomes não fica atrás, mesmo sendo o mais novo (23 anos, contra 26 de Bruno e 25 de Douglas) e ter disputado ao menos 400 minutos a menos do que os rivais na Premier League nesta temporada.

João GomesBruno GuimarãesDouglas Luiz
Recuperações6,76,26,1
Bolas perdidas1114,311,9
Divididas4,22,12
Duelos no chão11,912,37,6
Duelos no chão vencidos6,27,14
Interceptações0,810.8
Dados por jogo da plataforma “Squawka”

Vale ressaltar que o Wolverhampton não é um time tão encaixado em fase ofensiva e nem tem o melhor domínio da posse da bola se comparado com rivais da liga: apenas 47% de média de posse. Isso impacta o jogo de João.

Além do time ter menos a bola — e o brasileiro por consequência também –, o ex-Flamengo divide o meio-campo com Lemina, um meio-campista com mais liberdade ofensiva e, por isso, é quem mais toca na bola do time (exceto defensores), com 33,7 passes por jogo. João vem imediatamente depois, com 28,7.

Ainda assim, o jovem ainda é o terceiro jogador do Wolverhampton com mais sucesso nos dribles (58%), acima dos mais “dribladores” como Matheus Cunha e Pedro Neto, ainda que eles tenham mais oportunidades nessa situação.

A relação próxima de João Gomes e Dorival

Dorival Júnior foi o treinador que mais deu oportunidades ao jovem meio-campista. É o técnico que mais o escalou (32 jogos) e, sob seu comando, teve mais minutos (2.229) em toda a carreira.

Os treinadores com quem João Gomes mais jogou:

  • Dorival Júnior: 32 jogos (2.229 minutos)
  • Rogério Ceni: 32 jogos (1.520 minutos)
  • Paulo Sousa: 28 jogos (1.765 minutos)
  • Gary O'Neil: 25 jogos (1.758 minutos)
  • Renato Gaúcho: 12 jogos (585 minutos)
  • Julen Lopetegui: 11 jogos (651 minutos)

João cresceu com Paulo Sousa, mas teve sua carreira catapultada por Dorival. Tinha funções específicas em campo com e sem a bola que permitia ao time manter a posse e construir suas jogadas mais perigosas.

Quando o Flamengo de Dorival construía o jogo de trás em ritmo lento, ele se juntava aos zagueiros em um posicionamento mais aberto, buscando abrir espaço pelo meio, atraindo a pressão e confundindo os marcadores para que decidissem para onde ir.

Dorival
Foto: Staff Images/CBF

Era nesse momento que víamos uma das ações automatizadas que o Flamengo gostava de fazer: a progressão da bola de dentro para fora, buscando laterais explosivos que pudessem conduzir a bola para cima. João é vital nisso, pois também procurava criar situações de um-dois que quebravam as linhas de marcação rígidas que enfrentavam.

Essa função exercida com maestria com o treinador pode ser fatal para a escolha do jovem do Wolverhampton nas próximas convocações, caso Dorival queira replicar alguns de seus conceitos que o ajudaram a erguer a Libertadores e a Copa do Brasil em 2022 com o Rubro-Negro.

Futuro incerto dos volantes da seleção brasileira

Ao longo dos últimos ciclos — entre as Copas do Mundo de 2018 e 2022 –, a seleção brasileira confiou muito em Casemiro. Sua ausência era muito sentida em partidas importantes, como nas quartas de final contra a Bélgica, na Rússia, e a dependência ficou ainda maior.

Apesar de existir outros nomes para a posição e até passíveis de se tornarem substitutos, o atual volante do Manchester United se manteve intocável depois de experiências não tão boas com Luiz Gustavo e Fernandinho em anos anteriores.

Casemiro pelo Manchester United (Foto: Icon sport)
(Foto: Icon sport)

Fabinho, destaque no Liverpool por muitos anos, nunca conseguiu fazer sombra a Casemiro na Seleção, mesmo sendo figura presente em quase todas as listas. Outros volantes também sequer passaram perto.

Fred figurou em Copa do Mundo e durante boa parte da era Tite, mas atuava em outra função. Arthur foi um dos grandes destaques da conquista da Copa América em 2019, mas lesões o tiraram dos holofotes.

A queda de desempenho de Casemiro passou a preocupar e, por isso, novos nomes foram sendo introduzidos. Primeiro, Bruno Guimarães, que acabou se tornando titular em um sistema de dois volantes que pouco existiu com Tite.

Quem se tornou o “sucessor” de Casemiro foi André, que viveu grande fase com Fernando Diniz. João Gomes, uma espécie de “André de Dorival”, pode ser o próximo na fila.

João Gomes x André

A disputa pode ser entre os dois rivais cariocas. Ambos nascidos em 2001 e de características levemente diferentes, depende do treinador o que ele quer com seu primeiro volante.

Andre-Fluminense-Liverpool
(Foto: Icon Sport)

Historicamente na seleção brasileira, essa é a posição do jogador de coberturas curtas, pressão e boa capacidade de vencer seus duelos. Quem fugia desse perfil, teve menos “sucesso” com a Amarelinha, como Fernandinho e, recentemente, o próprio André, apesar da pouca amostragem.

João Gomes (Premier League 2023/24)André (Brasileirão 2023)
Passes-chave por jogo0,50,6
Divididas por jogo3,51,8
Posse de bola vencida por jogo0.90,3
Duelos totais por jogo5,75,0
Duelos vencidos (%)52%59%
Cartões612
Dados da plataforma SofaScore

João Gomes, inclusive, é o jogador brasileiro sub-23 com mais desarmes em todo o mundo na atual temporada: 84 desarmes em 26 jogos, uma média de 3,2 por jogo. São 131 bolas recuperadas e 138 duelos ganhos, segundo o SofaScore.

João seguiria um perfil consolidado no time há anos — por mais que isso não seja sinônimo de sucesso ou merecimento, mas que pode levar vantagem em aceitação pública e relação com o novo treinador.

Guilherme Ramos
Guilherme Ramos

Jornalista pela UNESP. Escrevi um livro sobre tática no futebol e sou repórter da PL Brasil. Já passei por Total Football Analysis, Esporte News Mundo, Jumper Brasil e TechTudo.

Contato: [email protected]