Jack Leslie: o craque que não jogou pela Inglaterra por ser negro

"Eles devem ter esquecido que eu era negro"

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Já pensou jogar em um time pequeno do futebol inglês e chamar tanta atenção a ponto de receber uma convocação para a seleção da Inglaterra? O sonho de grande parte dos jovens virou o pesadelo de Jack Leslie na década de 1920.

Quem foi Jack Leslie?

Na época, eram raros os jogadores negros no futebol inglês. Jack Leslie, do Plymouth Argyle, era um entre poucos. Filho de um jamaicano, começou sua carreira no pequeno Barking Town, clube semi-profissional da grande Londres, onde marcou mais de 250 gols.

Em 1921, foi contratado pelo Plymouth Argyle, na época na terceira divisão regional do futebol inglês. Com a camisa dos Pilgrims, formou uma dupla de ataque memorável com Sammy Black e ajudou trazer o título da terceira divisão e o acesso à segunda ao Plymouth em 1929-30.

Em sua passagem pelo clube, foram 137 gols, incluindo em goleadas como o 7 a 1 sobre o Crystal Palace e o 4 a 1 contra o Tottenham.

O Plymouth chegou ainda a bater o Manchester United na Copa da Inglaterra em 1933 com uma goleada por 4 a 1, e só foi eliminado na rodada seguinte pelo Arsenal, em Highbury.

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Com o time em alta e Jack Leslie marcando vários gols, era natural que ele despertasse a atenção de outros clubes e da seleção. Até que veio a tão sonhada notícia. Em uma terça-feira, o técnico do Plymouth, Bob Jack, sentou-se com Leslie e contou:

“Eu tenho novidades para você. Você foi selecionado para a Inglaterra“.

As palavras exatas de Bob Jack foram reveladas por Leslie em uma entrevista ao Daily Mail, em 1978. Mas o sonho logo acabou e Jack Leslie foi trazido de volta à dura realidade.

“Era algo grandioso para um clube pequeno como o Plymouth ter um jogador convocado. Então, os papéis chegaram um ou dois dias depois e Billy Walker, do Aston Villa, estava na lista, mas eu não”.

A triste verdade veio à tona pouco tempo depois. A convocação foi cancelada porque, segundo disseram os oficiais da Federação Inglesa (FA) à época, eles “não sabiam que Jack Leslie era um homem de cor”.

“Eles descobriram que eu era negro e acho que isso foi como se descobrissem que eu era estrangeiro para eles. Eles devem ter esquecido que eu era negro.

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Mesmo com uma proeminente carreira ao longo dos anos, Jack Leslie nunca recebeu uma oportunidade. Ele deteve a marca de maior artilheiro da Liga entre 1927 e 1929 (com 35 gols), mas ainda não foi o suficiente para que os oficiais da FA considerassem que ele estava apto a jogar pela seleção inglesa.

Em 29 de dezembro de 1934, Jack marcou o primeiro gol do Plymouth na vitória por 3 a 1 sobre o Fulham. Foi o seu gol de número 137 com a camisa dos Pilgrims, e também o último. Ele pendurou as chuteiras naquela temporada.

“Era muito bom vê-lo jogar. Ele estava em todo lugar, seu passe era excelente, e seu poder de finalização era gigantesco. Se existe uma lenda no Plymouth Argyle, esse é Jack Leslie”, conta Peter Hall, torcedor e ex-coordenador do clube.

Leslie faleceu em 1988, em Londres, aos 87 anos, sem nunca realizar o sonho de jogar pela seleção. Desde a sua “desconvocação”, foram quase 50 anos até que Viv Anderson, em 1978, se tornasse o primeiro negro a jogar pela Inglaterra.

Diferente, mas não tanto

Hoje, já são numerosos o número de atletas negros a defender as cores da seleção inglesa. Mesmo assim, o racismo ainda é um mal a ser erradicado no futebol.

Somente na atual edição da Premier League, podemos mencionar alguns episódios lamentáveis.

No último dia 2 de dezembro, um torcedor do Tottenham atirou uma banana na direção de Aubameyang enquanto o atacante do Arsenal comemorava um gol.

Foto: Sky Sports

Menos de uma semana depois, no dia 8, Raheem Sterling, do Manchester City, foi alvo de ofensas racistas na derrota por 2 a 0 para o Chelsea em Stamford Bridge.

No empate entre West Ham e Liverpool no dia último dia 4, um torcedor do West Ham flagrou em vídeo insultos raciais dirigidos a Mohamed Salah e publicou a gravação em seu Twitter:

“Eu fui ver West Ham x Liverpool e fiquei enojado com o que estava ouvindo. Pessoas assim não merecem lugar na nossa sociedade, muito menos em jogos de futebol”, escreveu o torcedor.

O tempo pode ter passado e podemos ver mais jogadores negros atuando no futebol inglês, mas isso não quer dizer que erradicamos o racismo do esporte.

Ele permanece lá, velado, escondido, mas presente. E talvez, assim, ele seja ainda mais nocivo e perigoso.

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