Inglaterra x Argentina Copa de 1986: um dos maiores jogos da história

Rivalidade entre ingleses e argentinos é uma das maiores do futebol mundial

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(Credit Getty Images Collection: Hulton Archive)

Certamente você já ouviu falar do gol de mão de Maradona. ‘La Mano de Dios', como ficou conhecido o tento, é um dos gols mais famosos da história do futebol. O gol foi marcado em um Inglaterra x Argentina pelas quartas de final da Copa do Mundo de 1986, num dos maiores jogos da história das Copas.

Mais do que o gol de mão e a pintura que o camisa 10 anotou na mesma partida, o duelo entre Inglaterra e Argentina transcendia o campo e envolvia uma disputa ainda maior. A disputa histórica das Malvinas.

A origem da rivalidade Inglaterra x Argentina

Antes mesmo da Guerra das Malvinas, Inglaterra e Argentina já haviam se envolvido num episódio que acirrou os ânimos ingleses. O fato aconteceu durante a Copa do Mundo de 1966, disputada na Inglaterra. Após anos de fracasso, a Argentina tinha montado uma boa seleção para a disputa do torneio.

Capitaneada por Antonio Rattín, então jogador do Boca Juniors, a Albiceleste fez uma primeira fase de cartilha: venceu a Espanha na estreia por 2 a 1, segurou o 0 a 0 diante da Alemanha e fechou a fase de grupos vencendo a Suíça por 2 a 0. Pela primeira vez desde 1930, a Argentina conseguia passar da fase de grupos.

Nas quartas de final, a esquadra argentina teria pela frente os anfitriões da Copa, a Inglaterra. Com um elenco com grandes jogadores, como Bobby Charlton e Bobby Moore, os ingleses eram favoritos para o confronto.

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Quando a bola rolou, no entanto, os sul-americanos conseguiram neutralizar a Inglaterra e faziam um bom jogo até os 35 minutos da primeira etapa, quando um lance mudou o jogo e, consequentemente, a história entre as duas seleções.

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(Credit DANIEL LEAL-OLIVAS Collection AFP)

Antonio Rattín reclamou da marcação do juiz alemão Rudolf Kreitlen. O árbitro não conseguiu entender absolutamente nada do que disse o argentino, mas ao ver as expressões que o jogador estava fazendo, decidiu expulsá-lo de campo.

Incrédulo, Rattín pediu um tradutor, mas nada fez o juiz mudar de ideia. Após 20 minutos de debate, o argentino saiu de campo e amassou levemente uma bandeira inglesa, irritando completamente a torcida inglesa.

O resultado final foi vitória inglesa por 1 a 0. O tento foi marcado por Geoff Hurst, aos 33 minutos da etapa complementar. O resultado revoltou os torcedores argentinos, que se sentiram extremamente prejudicados com a injusta expulsão de seu capitão.

Guerras das Malvinas

No entanto, foi um episódio extracampo que impulsionou o confronto de 1986 para níveis estratosféricos. Entre 2 de abril e 14 de junho de 1982, Argentina e Inglaterra travaram uma guerra sanguinária pela disputa das Malvinas.

Localizada no Oceano Atlântico, perto da costa argentina, as ilhas Malvinas sempre foram motivos de conflitos. Ocupada em 1690, Reino Unido, França e Espanha sempre brigaram pelo domínio dos arquipélagos. E durante quase dois séculos o domínio mudou de mãos algumas vezes, até que, em 1833, o Reino Unido, enfim, tomou posse do território.

O que quase ninguém esperava era que pouco mais de um século depois, as Malvinas seriam, novamente, alvo de disputa. Em 1965, a Argentina conseguiu que a ONU aprovasse a resolução 2065, que consistia no reconhecimento de uma disputa de soberania entre o Reino Unido e a Argentina sobre as Malvinas. Além disso, a resolução visava que as duas nações se reunissem e negociassem uma solução.

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(Credit Google Maps)

Na prática, no entanto, as negociações nunca avançaram muito. E por longos 17 anos a disputa se arrastou sem avanços significativos. Apesar disso, o clima entre os habitantes das ilhas, Argentina e Reino Unido era pacífico.

O rumo da história, no entanto, começou a mudar no final dos anos 1970. A Argentina, e muitos países sul-americanos, atravessavam períodos de ditadura militar. Estruturada em cima do patriotismo, a ditadura argentina tinha as Malvinas como ponto central. Entretanto, a crise financeira se instalou no país.

O modelo econômico dos militares estrangulou a nação das piores formas possíveis: a inflação chegou a 90% por ano, salários cada vez mais baixos, impostos banalizados, empobrecimento da classe média e tantos outros problemas começaram a afetar toda a nação.

Aos militares argentinos, restava uma opção: tomar posse do território das Malvinas para recuperar a credibilidade com o país. E foi assim que o governo autoritário articulou um plano para tomar posse do território das ilhas. Batizado de Operação Rosário, o plano foi obra do almirante Jorge Isaac Anaya.

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No final de março de 1982, as tropas argentinas começaram a colocar o plano em prática. No dia 3 de abril, um pouco depois do meio-dia, a bandeira argentina tremulava nas ilhas Malvinas. A população argentina, enfim, tinha motivos para sentir orgulho. No entanto, do outro lado do Atlântico, as coisas não estavam nada boas para Margaret Thatcher.

Thatcher Falkland Island Keystone Collection Hulton Archive Getty Images
(Credit Keystone Collection Hulton Archive Getty Images)

Já debilitado, o governo de Thatcher parecia não querer entrar numa guerra com os argentinos. O então ministro de Relações Exteriores, Francis Pym, não via com bons olhos uma guerra com a Argentina naquele momento. Tanto que foram feitas propostas de paz, mas nenhuma vingou.

A partir daí, só restou uma opção: retomar as Malvinas. A guerra, de fato, nunca foi declarada, mas o que aconteceu entre os dias 9 de abril e 14 de junho de 1982 deixou o mundo espantado. A Operação Corporate entrou em ação e com ela, Argentina e Inglaterra começavam a guerra.

Durante o período, mortes aconteceram. O fato mais chocante foi o afundamento do cruzador General Belgrano, quando 323 marinheiros argentinos morreram após serem bombardeados por aviões britânicos. Somente às 23h59min do dia 14 de junho de 1982, o general Mario Benjamín Menéndez se rende nas ilhas Malvinas, colocando um ponto final na guerra.

Ao todo, 904 soldados morreram, dos quais 649 eram argentinos e outros 255 eram britânicos. A vitória fortaleceu o governo de Thatcher no Reino Unido ao ponto de ajudar a Dama de Ferro a se reeleger em 1983, enquanto na Argentina, os reflexos da derrota acabaram derrubando de vez a já frágil ditadura militar.

Inglaterra x Argentina do dia 22 de junho de 1986

Quando a Argentina bateu o Uruguai por 1 a 0 e a Inglaterra venceu o Paraguai por 3 a 0 nas oitavas de final, o chaveamento colocaria frente a frente as duas nações novamente. E isso preocupou o governo mexicano e também a Fifa. Um forte esquema de segurança foi montado para o grande duelo de 1986 entre Inglaterra x Argentina.

Ainda assim, hooligans ingleses e barra bravas argentinos se encontraram horas antes do jogo e começaram uma briga generalizada. Segundo o jornal argentino Clarín, a briga deixou diversos hooligans hospitalizados e os barra bravas roubaram bandeiras inglesas. As bandeiras são vistas como troféus pelos hinchas argentinos, que por anos exibiram elas em jogos, principalmente do Boca.

Apesar de todo o clima que cercava a partida, dentro de campo o jogo se mostrou bastante disputado, mas sem faltas duras. A primeira etapa acabara empatada em 0 a 0, mas o que iria acontecer nos 45 minutos finais, mudaria, novamente, o rumo da rivalidade.

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(Credit Getty Images Collection: Hulton Archive)

Aos seis minutos do segundo tempo, Maradona fez boa jogada e tocou para Valdano, mas a zaga inglesa tentou afastar. E conseguiu. No entanto, acabou mandando a bola na direção do próprio gol e foi então que Maradona pulou e com um sutil toque de mão, abriu o placar. La Mano de Dios.

Quatro minutos depois, Maradona entrou novamente para a história. Dessa vez, por um motivo justo. O craque argentino pegou a bola no meio de campo, arrancou, deixou seis jogadores ingleses para trás e fez aquele que é considerado por muitos o gol mais bonito da história das copas.

Gary Lineker chegou a diminuir para a Inglaterra aos 36 minutos da etapa complementar, mas já era tarde demais. A Argentina garantiu a classificação sobre a Inglaterra para a semifinal e, mais tarde, sagraria-se bicampeã mundial, em 1986.

O jornalista Paulo Vinicius Coelho, em seu livro “Os 50 maiores jogos das Copas do Mundo”, colocou Inglaterra x Argentina na copa de 1986 na 11ª posição. Argentina e Inglaterra ainda se encontraram em outras duas Copas.

Em 1998, nas oitavas de final, após empate por 2 a 2, a Argentina avançou nos pênaltis. Em 2002, na fase de grupos, os ingleses venceram por 1 a 0 com gol de Beckham.