Inglaterra: pouco futebol, muita sorte no chaveamento

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Digo sem medo de ser feliz: nesta primeira fase da Euro, a Inglaterra foi a seleção mais chata de se assistir. Nenhum destaque individual. Jogadas ensaiadas, combinações no ataque, tabelas e infiltrações? Esqueçam. O time mais burocrático possível, sem nenhuma criatividade.

Na rodada decisiva da fase de grupos, Gareth Southgate tentou mexer no meio. Tirou Trent Alexander-Arnold para a entrada de Conor Gallagher. De nada adiantou. Tanto que, no intervalo, o jogador do Chelsea deu lugar ao jovem Kobbie Mainoo, do Manchester United. Também não dá para dizer que a substituição surtiu efeito.

Nas duas primeiras partidas, a Inglaterra foi um time totalmente dependente do lado direito do ataque. Contra a Eslovênia, houve um equilíbrio maior. Trippier, mesmo destro, conseguiu chegar mais ao ataque. Phil Foden apareceu mais, e Jude Bellingham também caiu de vez em quando por aquele lado.

Coincidência ou não, Bukayo Saka, que apesar de não ter sido brilhante, foi o melhor do trio de ataque nas duas rodadas iniciais, dessa vez foi o mais apagado. Pouco tocou na bola pela esquerda. Acabou substituído por Cole Palmer aos 25 da etapa final.

Sim, Palmer finalmente entrou em campo! E olha, pelo menos deu uma movimentada no jogo viu? Participou mais, mostrou mais intensidade, vontade. Nada brilhante, mas achou bons passes e tentou o tempo todo que esteve em campo. Coloca o homem, Southgate!

E assim, com um futebol chato, a Inglaterra inacreditavelmente conseguiu terminar na primeira colocação do grupo. Líder, tendo marcado apenas dois gols em três partidas! É a única seleção da competição a vencer a chave com menos de seis pontos — no grupo E, que tem a rodada decisiva nesta quarta-feira (26), existe uma possibilidade remota do primeiro colocado também fazer menos do que seis pontos. Isso, graças ao empate, também sem gols, de Sérvia e Dinamarca.

E a sorte do English Team foi além

John Stones e Declan Rice em campo pela Inglaterra.
John Stones e Declan Rice em campo pela Inglaterra. Foto: Icon Sport

Acabou indo para o lado da chave que é, disparado, o mais fácil. Fugiu de Espanha, Alemanha, França e Portugal. De campeão mundial, a única seleção que poderá ter no caminho até a final é a Itália, que seria um encontro nas quartas de final. Itália que também não jogou nada nessa primeira fase, e passou como segundo do grupo graças a um gol no último lance do jogo contra a Croácia.

Não é exagero nenhum dizer que o pior futebol dentre os primeiros colocados acabou sendo premiado com o melhor cenário possível. Ou seja, caminho aberto para a decisão! Mas, com esse futebolzinho, não dá.

Aliás, sorte no chaveamento não é novidade para a seleção comandada por Gareth Southgate. Na Copa do Mundo de 2018, por exemplo, também foi para o lado mais fraco. E a sorte foi ainda maior, porque havia terminado na segunda posição do grupo, atrás da Bélgica.

Mesmo assim, sofreu. Passou pela Colômbia nos pênaltis. Nas quartas de final, fez 2 a 0 em uma burocrática Suécia. Aí, no primeiro encontro realmente de peso, foi eliminada pela Croácia na semifinal. Perdeu ainda para a Bélgica na disputa de terceiro lugar.

Reparem: conseguiu ir até o final da competição, disputar o número máximo de jogos (sete), sem enfrentar um único campeão mundial. Claro que não se pode dizer que o English Team só chegou tão longe porque não pegou os adversários mais complicados, mas não há como negar que foi um fator importante.

De volta ao time de 2024…

A Inglaterra tem hoje o melhor jogador da última Premier League, o melhor jogador da última La Liga e o artilheiro da última Bundesliga. Mais uma quantidade enorme de ótimos jogadores. Nenhum deles mostrou nem metade do que pode.

Hoje, a seleção que chegou na Alemanha como uma das grandes favoritas, parece não assustar mais ninguém. E o nosso glorioso Gareth Southgate dá todos os sinais de não ter a menor ideia do que fazer para mudar esse cenário. 

Renato Senise
Renato Senise

Renato Senise é correspondente em Londres desde 2016. São mais de cinco temporadas cobrindo Premier League e Champions League. No currículo, duas Copas do Mundo “in loco”, além de entrevistas com nomes como Pep Guardiola, José Mourinho, Juergen Klopp, Marcelo Bielsa, Neymar, Kevin De Bruyne e Harry Kane.