Por que a Inglaterra terá mais desafios do que imagina na Eurocopa

8 minutos de leitura

A Inglaterra anunciou a lista oficial dos convocados de Gareth Southgate na última quinta-feira (6) e alguns cortes surpreenderam por diferentes motivos. Brantwhaite, um dos melhores zagueiros da última Premier League e o único canhoto da seleção, caiu. Maddison, um dos mais talentosos meias do elenco, também.

Em meio a esse cenário, mesmo que seja uma das grandes favoritas, a seleção inglesa pode ter mais desafios do que o imaginado na competição. Por isso, a PL Brasil analisou o que pode ser problema para a Inglaterra durante a Euro de 2024.

Cortes que acabam com um lado do time

O principal ponto de preocupação sobre as baixas da equipe de Southgate é na defesa.

O grupo final não terá zagueiros canhotos e, recentemente, o lateral-esquerdo titular tem sido Trippier, destro.

E o problema que começa na defesa se mantém até o ataque. O ponta pelo mesmo lado, Foden, é canhoto, mas tem preferido jogar — e é mais efetivo — em regiões mais centrais do campo.

Inicialmente, a depender de mecanismos que Southgate nunca mostrou em seu trabalho com os Três Leões, o lado esquerdo da equipe é muito deficiente em todos os momentos do jogo.

image-16
Possível time base da Inglaterra para a Eurocopa (Foto: Tactical Board)

Inglaterra pode voltar às origens ‘ruins’?

Um dos escritores especializados em tática mais renomados do jornalismo inglês, Michael Cox, em seu livro “The Mixer”, lembra sobre como o início da era Premier League era muito limitado técnica e taticamente. Vivia-se à base de chutões.

Inclusive, o título completo do livro diz: “The Mixer: The Story of Premier League Tactics, from Route One to False Nines” (O Misturador: A história da tática na Premier League, da ‘Rota Única’ aos falsos noves).

Rota Única, em tradução livre, é um estilo clássico inglês, que priorizava lançamentos para uma dupla de centroavantes, geralmente altos e fortes. Foi assim que se instaurou o 4-4-2 padrão britânico, com meias abertos bons em cruzamento, centroavantes pouco móveis e zagueiros limitados em jogo curto.

Como os rivais podem explorar os buracos da Inglaterra

A Rota Única pode voltar nessa Eurocopa — em menor escala, evidentemente — muito por conta das limitações que o time de Southgate terá durante a primeira fase de construção.

Qualquer adversário que queira incomodar o jogo inglês não precisará de muito além do que pressionar o zagueiro ou o lateral de pé trocado na esquerda. Com isso, enquanto fecham a linha de passe por dentro, os adversários limitam a Inglaterra a basicamente uma jogada: lançamento na paralela.

image-17
Dificuldades ao sair pela esquerda. Só Trippier é opção de passe e é naturalmente forçado a jogar para trás (Foto: Tactical Board)

Ou os ingleses vão simplesmente ignorar o jogo curto em primeira fase de construção e jogar longo independentemente dos constrangimentos, ou deverão ter mecanismos muito aguçados para sair desse tipo de situação.

É claro que o time terá jogadores muito capazes tecnicamente, que podem usar da sua imprevisibilidade para ganhar campo. Foden, Bellingham, Stones, Alexander-Arnold e Rice são exemplos. Mas não devem salvar o time de apuros sempre.

Mas defensivamente há outra questão. Com o pé trocado, os jogadores podem ter dificuldade nas ações defensivas, como desarmes e corridas para trás para perseguir atacantes rápidos.

Maguire é um grande exemplo disso quando atua na esquerda. Realizar desarmes e interceptações com o pé não dominante exige um posicionamento do corpo diferente, boa coordenação dos pés e timing diferente.

Nem todos têm isso, e o zagueiro do Manchester United virou motivo de zoações nas redes sociais em lances em que se entorta para realizar ações defensivas com o pé direito, e muitas vezes falhava.

Escolhas duvidosas dentro e fora de campo

Branthwaite e Quansah eram duas opções de zagueiros jovens, canhotos e capazes com a bola para integrar o elenco e seus cortes são lamentáveis. No entanto, outro nome chama atenção: Harry Maguire.

Mesmo muito criticado, Maguire sempre fez parte de todo o ciclo da seleção, desde as qualificatórias para a Copa do Mundo de 2018. Se tornou um dos homens de confiança do treinador e um dos líderes do time.

O defensor do Manchester United, inclusive, é o segundo jogador mais utilizado de Southgate na seleção, atrás apenas de Harry Kane. O treinador o bancou mesmo sob muitas críticas e, agora, na última lista para a Euro, fica fora por lesão.

England v Brazil International Friendly maguire
Harry Maguire em ação contra a seleção brasileira (Foto: IconSports)

Três atacantes… por quê?

A lista final também contou com a saída de dois meias, Grealish e Maddison, mas três centroavantes de ofício. Kane, Watkins e Toney formam o trio de atacantes, mesmo que o English Team só jogue com um.

Em nenhum momento do ciclo a equipe jogou com uma dupla de centroavantes. Isso leva a um questionamento: vão testar algo completamente novo na Euro, ou chamaram um centroavante a mais “sem motivo”?

Kane pela Inglaterra Islândia
Kane pela Inglaterra (Foto: Imago/PA)

Toney, inclusive, jogou apenas metade da temporada — de julho até janeiro, estava suspenso por conta do seu envolvimento com apostas. Nas 17 rodadas de Premier League que disputou, marcou apenas quatro gols.

Maddison, por sua vez, foi destaque no Tottenham e um dos líderes de assistências da liga, mesmo passando um período lesionado. Grealish, apesar da temporada abaixo, também era de confiança para Southgate: jogou mais que Foden e Saka sob o seu comando.

Escolha pode levar a problemas ofensivos

Assim como a primeira fase de construção deve ser prejudicada com a falta de zagueiros e laterais canhotos, o mesmo vale para a criação mais alta do time. A Inglaterra tem se postado em um 3-2-5 para entrar no último terço e mostrou dificuldade.

Nesse formato, é de se imaginar que o lateral-esquerdo suba para a última linha, enquanto o direito fique com os zagueiro. Ou seja: Tripper, destro, sobe na esquerda, enquanto Walker se mantém atrás.

image-18
Movimentação natural dos jogadores da seleção inglesa (Foto: Tactical Board)

Isso tem dois motivos:

  1. Não colocar alguém no corredor direito e atrapalhar Saka, que é mais efetivo e perigoso perto da linha lateral;
  2. Suprir o espaço que terá no corredor esquerdo com a movimentação de Foden para dentro.

Bellingham, que deve ser o meia mais avançado à frente de Rice e Alexander-Arnold, vai trocar bastante de posição com Foden. Isso pode criar confusão na defesa adversária e promover mais liberdade aos dois meias.

No entanto, serão raros os momentos em que a seleção inglesa terá jogadas de linha de fundo na esquerda, se depender de Trippier para chegar à linha de fundo. Um exímio cruzador, a tendência é que seja utilizado em passes de retorno para cruzar de direita da região dos três quartos — mas isso pode se tornar previsível.

Maddison e Grealish, dois meias criativos, associativos e com boa capacidade de drible, poderiam ajudar o setor. Grealish é o clássico ponta que corta para dentro, poderia levar mais perigo nas trocas de posição, enquanto o camisa 10 dos Spurs é um meia ágil e com boa finalização de fora da área.

James Maddison em jogo da Inglaterra
James Maddison em jogo da Inglaterra (Foto: Imago/PA IMAGES)

Mais dúvidas do que respostas

A seleção inglesa ainda é uma das favoritas ao título da Eurocopa. Vive uma das grandes gerações da história do país e está recheada de jogadores de alto nível em praticamente todas as opções.

A questão é que muitos destes estão de fora da convocação, e poderiam elevar o nível do time e resolver problemas que devem aparecer ao longo da competição.

A Inglaterra estreia com muitas dúvidas no torneio na Alemanha no próximo domingo (16), contra a Sérvia. A partida será na VELTINS-Arena, casa do Schalke 04, às 16h no horário de Brasília.

Os ingleses estão no grupo C da Euro, que além da Sérvia, também tem Dinamarca e Eslovênia — equipes que o English Team enfrentará nos dias 20 e 25, respectivamente.

Declan Rice em jogo da Inglaterra. Foto: Icon Sport
Guilherme Ramos
Guilherme Ramos

Jornalista pela UNESP. Escrevi um livro sobre tática no futebol e sou repórter da PL Brasil. Já passei por Total Football Analysis, Esporte News Mundo, Jumper Brasil e TechTudo.

Contato: [email protected]