Como a imigração do Caribe e da África influenciou a atual seleção inglesa

Jadon Sancho, Tammy Abraham, Aaron Wan-Bissaka... Muitos atletas dos Three Lions têm pais ou avós nascidos em ex-colônias britânicas

0
542
imigração seleção inglesa
GLYN KIRK/AFP via Getty Images

Se hoje em dia os jogadores ingleses com ascendência estrangeira são mais presentes no futebol inglês, esse fenômeno pode ser explicado em parte pelo forte processo de imigração que transformou a Inglaterra ao longo de décadas. 

Após a Segunda Guerra Mundial, o governo britânico incentivou a chegada de imigrantes de colônias e ex-colônias do Império Britânico.

Uma lei aprovada pelo parlamento em 1948 criou o novo status de “cidadão do Reino Unido e colônias” para pessoas nascidas ou naturalizadas no Reino Unido ou em uma de suas colônias. O objetivo essa lei era reforçar a força de trabalho no país, bastante abalada após a guerra.

Imigração pós-Segunda Guerra Mundial incentivada pelo governo

Um dos principais fluxos migratórios ocorreu do Caribe para o Reino Unido. Cerca de 500 mil pessoas migraram entre 1948 e 1971. Elas ficaram conhecidas como a “Geração Windrush”, nome do primeiro barco que deixou a Jamaica rumo à Inglaterra. A bordo, estavam mais de 500 pessoas que iniciavam uma nova vida em terras britânicas.

Os imigrantes obtiveram autorização para permanecer no país por tempo indeterminado e trouxeram consigo os valores culturais de seus respectivos países, o que transformaria a sociedade britânica a partir daí.

“A imigração influenciou o Reino Unido de diferentes formas, seja geograficamente, desportivamente, gastronomicamente e também religiosamente”, analisa o historiador Panikos Panayi, autor dos livros “An Immigration History of Britain: Multicultural Racism Since 1800” e “Migrant City: A New History of London”.

Apenas a população do Reino Unido nascida na Jamaica expandiu de 6 mil para 100 mil pessoas entre 1951 e 1961, segundo estudo do Instituto de Estatísticas Nacionais, equivalente ao IBGE no Brasil.

Mas a migração não partiu apenas do Caribe. Outras colônias e ex-colônias do Império Britânico também viveram o mesmo fenômeno.

Nesse mesmo período, Índia e Paquistão, países que haviam recentemente conquistado a independência do antigo Império Britânico, viram dezenas de milhares de seus cidadãos migrando para o Reino Unido. Apesar da significativa contribuição para o Reino Unido em várias áreas, os dois países não dispõem de forte relação com o futebol.

A partir da década de 1970, foi a vez da África. Milhares de imigrantes, buscando melhores condições de vida, deixaram o continente africano rumo ao Reino Unido, mais precisamente de países ex-colônias do Império Britânico como Quênia, Tanzânia, Zimbábue, África do Sul, Gana, Nigéria, dentre outros.

Leia mais: Uma reflexão profunda sobre o racismo no futebol inglês

O fenômeno da independência dos países africanos iniciado nos anos de 1950 se deve muito à mobilização dos próprios povos africanos de almejar a libertação frente à colonização imposta pelos europeus, além de diversas razões de política interna que intensificaram suas políticas de descolonização, explica Alex André Vargem, doutorando em Ciências Sociais (Unicamp) e membro da Cátedra Sérgio Vieira de Mello (Unicamp). 

“Muitos destes movimentos reivindicavam o Pan-Africanismo, ideologia que acredita na união dos povos de todos os países do continente africano, na luta contra o preconceito racial e os problemas sociais. Sem dúvida, esses processos de independência influenciaram os fluxos migratórios. Importante falar que existe uma pluralidade de grupos étnicos no continente, com suas línguas, culturas”.

Devido aos processos de imigração, a sociedade britânica se transformou intensamente, tornando-se mais plural, embora a discriminação fosse – e ainda é – um obstáculo profundo e duradouro.

Novas leis em 1962, 1968 e em 1971 serviram para restringir ainda mais direitos aos cidadãos dos países da Comunidade Britânica das Nações.

A mudança no perfil da seleção inglesa

Por muitas décadas, a maioria dos jogadores que representavam a seleção inglesa era branca, sendo estes atletas filhos e netos de ingleses. Com o processo de imigração impulsionado a partir da Segunda Guerra Mundial, esse perfil começou a se transformar de forma a partir de 1970.

Só em 1978, após 935 jogadores brancos convocados, a seleção inglesa principal teve seu primeiro atleta negro dentro de campo. O lateral Viv Anderson, filho de imigrantes jamaicanos, foi o pioneiro.

Mas essa história poderia nem ter acontecido. Em outubro de 1925, o atacante inglês Jack Leslie, filho de pai jamaicano, foi convocado pela seleção inglesa, mas, segundo o próprio atleta, quando a Federação Inglesa descobriu que ele era negro, ele foi desconvocado.

Entre as décadas de 1970 e 1990, mais jogadores negros e descendentes de imigrantes do Caribe e da África também passaram a ganhar espaço, mesmo que timidamente. Dentre os casos de maior destaque estão John Barnes (nascido na Jamaica), Clyde Best (nascido nas Bermudas), além de Laurie Cunningham, Ian Wright e Paul Parker (cujos pais nasceram na Jamaica).

A partir de 1990, mais nomes passaram a encorpar essa lista: Andy Cole (pai da Jamaica), Sol Campbell (pais da Jamaica), David James (pai da Jamaica), Les Ferdinand (mãe de Santa Lúcia, no Caribe), Emile Heskey (avô de Antígua e Barbuda), Darius Vassell (pais da Jamaica), Aaron Lennon (avós da Jamaica), Jermain Defoe (pai da Dominica e mãe de Santa Lúcia), Ashley Cole (pai de Barbados) e Rio Ferdinand (pai de Santa Lúcia).

Na última edição da Copa do Mundo, a influência da imigração se mostrou mais presente do que nunca na composição dos jogadores ingleses convocados. Onze dos 23 atletas convocados têm ascendência estrangeira, principalmente, de ex-colônias britânicas.

MLADEN ANTONOV AFP via Getty Images

Convocados da Inglaterra para a Copa do Mundo 2018 com ascendência estrangeira

Ashley Young – pai da Jamaica

Danny Rose – avô da Jamaica

Danny Welbeck – pais de Gana

Dele Alli – pais da Nigéria

Fabian Delph – ascendência de Guiana

Gary Cahill – avô da Irlanda

Harry Kane – pai da Irlanda

Jesse Lingard – avôs de São Vicente e Granadinas

Kyle Walker – ascendência jamaicana

Raheem Sterling – nasceu na Jamaica

Ruben Loftus-Cheek – pai de Guiana

Outros atletas que tiveram passagem recente pela seleção inglesa também se encaixam nesse grupo, como Theo Walcott (pai da Jamaica), Daniel Sturridge (avós da Jamaica) e Andros Townsend (ascendência jamaicana).

Perfil diverso da nova geração inglesa

imigração seleção inglesa
GLYN KIRK/AFP via Getty Images

Com mais espaço, a nova geração de jogadores ingleses já mostra um perfil ainda mais diversificado e multicultural. Do zagueiro Fikayo Tomori, defensor do Chelsea e filho de nigerianos, ao atacante Jadon Sancho, astro do Borussia Dortmund cujos pais nasceram em Trinidad e Tobago.

Nas últimas duas partidas disputadas pela seleção inglesa, em novembro de 2019, 12 dos 27 atletas convocados para os jogos contra Montenegro e Kosovo têm ascendência de países da região caribenha e do continente africano.

Aaron Wan-Bissaka (pai do Congo);

Callum Hudson-Odoi (pai de Gana);

Callum Wilson (pai da Jamaica);

Danny Rose (avô da Jamaica);

Fabian Delph (ascendência de Guiana);

Fikayo Tomori (pais da Nigéria);

Jadon Sancho (pais de Trinidad e Tobago);

Joe Gomez (pai de Gâmbia);

Oxlade-Chamberlain (avós da Jamaica);

Raheem Sterling (nascido na Jamaica);

Tammy Abraham (pai da Nigéria);

Tyrone Mings (avós de Barbados).

O fluxo de imigração de ex-colônias britânicas do Caribe e da África é perceptível de forma ainda mais clara com as novas gerações. Vários atletas que atuam ou atuaram recentemente entre as seleções inglesas sub-17 e sub-21 se encaixam neste perfil.

São os casos de Ademola Lookman (pais da Nigéria), Bukayo Saka (pais da Nigéria), Dominic Solanke (pai da Nigéria), Eddie Nketiah (pai de Gana), Rhian Brewster (pai de Barbados), Max Aarons (avós da Jamaica), Tariq Lamptey (pais de Gana), Tino Anjorin (pai da Nigéria), Reiss Nelson (pai do Zimbábue) e Ajibola Alese (pais da Nigéria).