A origem dos hooligans no futebol inglês

Torcedores brutais marcaram o Campeonato Inglês com crueldade e punições

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Atualmente, a Premier League é uma das cinco melhores do mundo. Apesar de rentável para seus clubes, o futebol na Inglaterra nem sempre foi tão organizado assim. Muitos antes deste patamar, lá na década de 1980, a Inglaterra vivia o seu pior momento no futebol. Violência extrema com grande influência dos hooligans, estádios deteriorados e a queda do nível do futebol marcaram este momento histórico.

Com tudo isso, a PL Brasil decidiu contar, passo a passo, como o Campeonato Inglês passou de torneio fracassado ao topo do futebol mundial com os clubes que mais gastam em cada janela e com grandes jogadores e técnicos que sempre estão entre os melhores do mundo.

Hoje, em nosso primeiro episódio, o assunto será os hooligans, seu surgimento, sua má influência e seu maior ato no meio da década de 1980. Confira!

A origem dos hooligans no futebol inglês

Entre o final do século XIX e o começo do seguinte, o futebol passou das práticas esportivas e de recreação para os clubes e associações esportivas e competições profissionais. E tudo isso aconteceu, principalmente, graças aos britânicos, que acabaram disseminando aquele novo esporte.

Os ingleses levavam a bola e o novo esporte a outros lugares durante suas viagens para estudos, passeios e até trabalhos – no Brasil, aconteceu o mesmo com Charles Miller.

Eles viam crescer a paixão pelo futebol no mundo e, com isso, o prazer de vencer se estabilizava como o grande momento de cada semana. Entretanto, apenas um time poderia sair como vencedor. Com isso, o momento de tristeza gerava aos perdedores a vontade de vencer os rivais de qualquer forma.

E foi talvez com este pensamento que um grupo brutal apareceu no Reino Unido: os hooligans. Eles marcaram negativamente a história do futebol inglês. Atos de vandalismo severos mataram centenas de pessoas e mancharam a bela história do país que jogou as primeiras partidas deste esporte que tantas pessoas amam.

Este conjunto de pessoas acreditava que a força física e atos brutais fora de campo poderiam ajudar o clube a ganhar, pois diziam estar apoiando a equipe.

O termo hooligans é bem mais antigo

O nascimento dos hooligans nunca pôde ser datado, mas foi na década de 1960 que um dos piores, mais cruéis e radicais grupos da história mundial começava a chamar a atenção de sociólogos. Os hooligans não surgiram neste momento. Nem o termo. Eles são bem mais antigos, mas no futebol, teve seu marco inicial ali.

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Historiadores dizem que os hooligans são decorrentes de outros grupos de vândalos. Inclusive, alguns consideram que o coletivo primário nasceu no século XIV. Seu envolvimento com o futebol foi nesta mesma época, onde cada vez mais crescia o número de praticantes deste esporte, assim como o desejo de sempre vencer.

Com espírito nacionalista, muitos estudiosos dizem que os hooligans que chamaram a atenção de todos no começo da segunda metade do século passado eram da classe operária inglesa que, aos finais de semanas, gostava de assistir os jogos de futebol.

Prazer em brigar

Hooligans ingleses atacaram Marseille em 2016 (Foto: Guillaume Horcajuelo/EPA)

Como o filme Hooligans (em inglês, Green Street Hooligans) retrata muito bem, os torcedores marcavam de se encontrar para o combate. Cada grupo se encontrava em pubs –  os bares ingleses, que se tornavam palcos de estratégias e bebedeiras – exclusivos. Eles tomavam posse daquele espaço e não deixavam que nenhum rival entrasse ali.

Os confrontos eram entre gangues e tinham características muito comuns, conforme o livro Sociologia do Futebol, de Richard Giulianotti, afirma:

Torcedores jovens procuravam ganhar prestígio para o seu grupo de hooligans, ‘ocupando’ a arquibancada atrás do gol que ‘pertencia’ a seus rivais. Invasões de gramado também ocorriam, particularmente quando seu time estava perdendo. As autoridades policiais e do futebol introduziram cercas, ‘enjaulando’ os torcedores nas arquibancadas atrás do gol e segregando os torcedores da casa e os visitantes em diferentes partes do campo. Essas medidas modernistas ‘toscas’ inadvertidamente serviram para intensificar o hooliganismo no futebol. Aos poucos, a violência foi deslocada do campo, acentuando os diferentes sentidos de identidade dos grupos de hooligans e sua diferenciação formal do conjunto geral de torcedores.

Muitos sociólogos e pesquisadores que analisam e/ou viveram aquela época ressaltam a força extrema exercida pelos policiais. Inclusive, alguns dizem que era para dar um fim em todos os confrontos, impondo medo nos desertores.

Muito ao contrário disso. Os hooligans faziam tudo isso por simples prazer. Era a vontade de descontar tudo em cima de outra pessoa, além da sensação de euforia causada pela adrenalina durante as brigas. Eles não se importavam – até gostavam – de quando tinham de lutar contra torcedores rivais e/ou policiais.

As primeiras grandes “batalhas”

O primeiro grande problema que chamou a atenção de todos foi antes do confronto entre Chelsea e Tottenham, em 1975. Eles estavam perigando a ter que jogar a segunda divisão na temporada posterior. Os Spurs venceram por 2 a 0, mas não foi este o foco depois do jogo.

Antes do apito inicial, torcedores se enfrentaram brutalmente. O palco foi o próprio gramado do White Hart Lane. O campo virou um ringue para milhares de espectadores inocentes sofrerem com os atos brutais dos hooligans.

Ainda em 1975, o Leeds foi mais um dos times ingleses que foram prejudicados por sua torcida, já que chegaram a ser banidos de todas as competições europeias por cinco anos. Tudo isso depois que o vandalismo de seus torcedores tomou conta do estádio Parque dos Príncipes e, posteriormente, das ruas de Paris na derrota para o Bayern de Munique na final da Liga dos Campeões.

Análise sociológica da violência no futebol

Em 2000, o sociólogo britânico Anthony Giddens veio ao Brasil e participou do programa Roda Vida, da TV Cultura. Quando perguntado sobre o vandalismo causado pelos hooligans na Inglaterra, ele disse:

A violência no futebol inglês vem de longa data. Eu sou fã do futebol. Quando eu tinha sete anos, fui ver um jogo pela primeira vez, no norte de Londres, em um dos grandes clubes – ainda torço por ele. No jogo, o que eu vi? Hooligans na parte superior, jogando moedas com extremidades afiadas. Eles arremessavam as moedas nas pessoas embaixo. Eles atiravam fogos de artifício nas pessoas embaixo. Eram fogos explosivos. Na saída, havia gente brigando – eu vi uma briga feia–, isso existe desde que eu comecei a torcer. Isso é algo bem antigo, não é fácil acabar com isso, há tradições diferentes envolvidas. Na Escócia, não existe essa tradição de baderneiros.

Em outra pergunta, ele completou:

A região de onde vim, o Norte de Londres, tinha um misto de classe operária e classe média. Ficávamos apavorados com as gangues. Eles usavam navalhas, correntes de bicicleta, vagavam pelos parques procurando quem espancar. Isso foi há trinta anos. Não se deve supor que era uma sociedade pacífica [e houve] uma transição para uma sociedade sem lei. Mas algumas mudanças são reais e perturbadoras. No momento, não temos no Reino Unido boas soluções em curto prazo para isso

Como pode ter percebido, os hooligans não foram extintos. Embora haja um controle maior da polícia, os confrontos entre eles não findaram.

Porém, a proporção dos confrontos vandalismo diminuiu. Veja então no próximo episódio da série, quando falaremos mais sobre a Tragédia de Heysel!

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