Guia da WSL 2019-20 – Parte I: o futebol feminino na Inglaterra

Contamos um pouco da história do futebol feminino em terras inglesas

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O Preston Ladies Football Club (ex-Dick, Kerrs Ladies) representa a Inglaterra em uma partida contra a França em maio de 1925. Topical Press Agency Collection Hulton Archive-min
O Preston Ladies Football Club (ex-Dick, Kerrs Ladies) representa a Inglaterra em uma partida contra a França em maio de 1925. (Credit Getty Topical Press Agency Collection Hulton Archive)

Confira a primeira parte do Guia da WSL da PL Brasil para a nova temporada da Women’s Super League (futebol feminino na Inglaterra)

Vai começar a Women’s Super League 2019-20! A WSL irá realizar sua nona edição nesta temporada, que promete ser a maior delas. E a PL Brasil faz um guia especial, contando a história da liga, os times, principais destaques e tudo o que você precisa saber sobre o Campeonato Inglês Feminino.

Nesta primeira parte, vamos falar sobre a WSL no geral. E antes de irmos a ela, precisamos primeiro entender o histórico do futebol feminino na Inglaterra.

Entrevista com Mariana Spinelli (ESPN) parte I

O futebol feminino na Inglaterra

A Inglaterra pode dizer que teve o prazer de realizar o primeiro amistoso de futebol feminino na história. Era maio de 1881, em Edimburgo, quando Inglaterra e Escócia fizeram a primeira partida registrada entre mulheres.

Era uma sequência de partidas que foi marcada por homens indignados invadindo o campo, forçando o encerramento de partidas seguintes, e culminando na proibição da prática do futebol feminino na Escócia naquele momento. Na Inglaterra, a luta seguiu.

O primeiro time de destaque no país é o British Ladies Football Club, fundado em 1894 e fazendo várias partidas pela Inglaterra. Muitas jogadoras, inclusive, atuavam com pseudônimos para que não fossem reconhecidas e não sofressem represálias.

O interesse aumentou cada vez mais. E começou a chegar no masculino: o tradicional Preston North End, preocupado com o comportamento que, segundo eles, era mais agitado dos homens na arquibancada, e tentando atrair mais mulheres, chegou a oferecer entradas grátis no estádio para o público feminino. A ideia deu certo. Em outros lugares, mulheres começaram a realizar jogos em estádios outrora exclusivamente masculinos.

Mas aí chega um marco importante na história: o Dick, Kerr’s Ladies FC. O time feminino da fábrica Dick, Kerr & Co. começou a atuar em 1917, ao lado de homens – além de a fábrica investir nos esportes, o time masculino estava muito desfalcado por conta da I Guerra Mundial.

Leia mais: Guia da WSL 2019/20 – Parte II: os times da Women’s Super League
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O Preston Ladies Football Club (ex-Dick, Kerrs Ladies) representa a Inglaterra em uma partida contra a França em maio de 1925 (Foto: Hulton Archive/Getty)

A equipe começou a se destacar e logo foi fazendo mais partidas e angariando público. No Boxing Day de 1920 (ano em que começou a participar de jogos internacionais), por exemplo, um duelo contra o St. Helen's Ladies atraiu 53 mil pessoas ao Goodison Park, atual estádio do Everton.

Com o Dick, Kerr’s Ladies representando o país fazendo jogos pela Inglaterra e pela França e com 58 vitórias e um empate em 59 jogos, a popularidade e o reconhecimento cresceram. Parecia que o futebol feminino enfim iria se fortalecer por lá. Parecia.

Mesmo com a evolução evidente em meio à Guerra, a FA baniu todos os clubes femininos de jogarem em campos filiados à federação em 1921. Diante de várias reclamações, a FA tentou justificar o injustificável dizendo que o futebol feminino, além de não ser bom para a integridade física das mulheres, “era bastante inadequado e não deveria ser incentivado”.

Assim, os clubes tiveram que achar locais alternativos para jogar e perderam grande parcela do público. A decisão não foi um banimento do jogo em si, mas praticamente acabava com o futebol feminino na Inglaterra. A situação melhorou apenas em 1969, quando foi criada a Women’s Football Association (WFA), um reflexo da Copa do Mundo masculina conquistada pelos ingleses em casa, em 1966.

O fim da restrição de campos da FA veio apenas em 1968, por meio de ordem da UEFA, e a WFA só se filiou à FA em 1980.

Histórico da liga nacional

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Doncaster Belles em 2002 (Foto: Phil Cole/Sport/Getty)

Em 1992, assim como o futebol masculino teve a introdução da Premier League, o feminino teve a criação da Women’s Premier League por parte da WFA. No ano seguinte, a FA finalmente trouxe todo o futebol feminino inglês ao seu controle direto.

A partir daí, começa a Women's Premier League National Division, considerada a primeira divisão do país. A liga atende como a divisão principal de 1991-92 até 2009-10, quando é substituída pela atual Women’s Super League.

Junto com a National Division, haviam também as divisões Norte e Sul, um nível abaixo da principal. A competição principal garantia o seu campeão para a UEFA Women’s Champions League.

A National Division chegou a ter 12 times como seu máximo de 2006-07 a 2009-10. Em 2010-11, porém, com a chegada da Women’s Super League, várias equipes deixaram o torneio. Sobraram seis da divisão principal e duas da divisão Sul, formando um campeonato com oito equipes que se tornou equivalente à segunda divisão nacional.

Mas em 2012-13, com a introdução da Women’s Super League 2, a competição acabou de vez.

O surgimento da WSL

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Emma Byrne em ação pelo Arsenal em 2011 (Foto: Alan Crowhurst/Sport/Getty)

Visando dar um passo à frente no futebol feminino, em 2008, a FA anunciou a criação da Women’s Super League como novo campeonato da primeira divisão no país. A WSL, como ficou conhecida, deveria ter começado em 2010, mas iniciou apenas em 2011 – o motivo, segundo a entidade, foi a recessão econômica mundial de 2009.

Em 13 de abril de 2011, com oito equipes, começava para valer a primeira temporada da história da Women’s Super League, que teve o Arsenal como campeão. Na época eram oito times fixos, sem rebaixamento.

A liga seguia o formato anual. Ou seja: diferentemente da PL masculina, que começa em agosto de um ano e termina em maio do ano seguinte, o torneio feminino ia de abril a agosto, setembro ou outubro (dependendo da temporada) no mesmo ano.

Em 2014, a liga decidiu passar por uma expansão. Para isso foi criada a Women’s Super League 2, que serviria como a segunda divisão nacional, com dez equipes – a WSL seguia com oito. O Manchester City, por exemplo, que chegava com um bom investimento para iniciar sua equipe feminina, teve solicitação atendida e começou direto na primeira divisão.

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Para 2016, mais mudanças. Primeiro, a WSL passou a ter nove times, com dois subindo da WSL 2. E depois, a maior delas: a FA anunciou que, a partir de 2017, a liga seguiria o formato de calendário da Premier League masculina, indo de setembro a maio.

Depois do fim da temporada 2016, foi disputada no primeiro semestre de 2017 a FA WSL Spring Series, um torneio reduzido para manter os times ativos. Em setembro, começou para valer a temporada no novo calendário, que permanece até hoje.

E para a temporada 2018-19, veio outra grande alteração: o critério de participação naquele ano não seguiria o rebaixamento. Era uma reestruturação planejada pela Football Association para que o campeonato se tornasse, enfim, 100% profissional.

Desta forma, os clubes deveriam requisitar suas licenças de participação à entidade. Para isso, eles teriam que garantir às jogadoras um mínimo de 16 horas por semana de atividades nos contratos, além de formar uma academia para jovens atletas. Isso impactou, por exemplo, no rebaixamento do Sunderland e na promoção de Brighton e West Ham.

Ademais, a WSL 2 mudou de nome oficialmente, e passou a se chamar FA Women’s Championship.

A temporada da WSL que vem aí

Para 2019-20, mais uma expansão. A liga agora terá 12 equipes, a maior quantidade em sua história. Manchester United e Tottenham, que começaram recentemente seus projetos de times femininos, subiram para a WSL e estreiam na primeira divisão.

As 12 equipes se enfrentam em turno e returno, totalizando 22 rodadas. As equipes campeã e vice vão para a Women’s Champions League, enquanto a rebaixada cai para a FA Women’s Championship – de onde a campeã é promovida.

O Arsenal chega como atual campeão e principal força do futebol feminino no país. O time de Londres é o maior campeão do torneio, com três títulos. Chelsea, Liverpool (ambos com dois) e Manchester City (um) são os outros que já levantaram a WSL.

Neste ano, a liga contará com um patrocínio recorde. O banco Barclays, que patrocinou a PL masculina por muitos anos, assinou um contrato de três anos a partir de 2019-20 com a WSL. Os valores chegarão aos 10 milhões de libras – parece pouco para os padrões do futebol masculino, mas já é um grande investimento no feminino.

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O patrocínio ajudou também na criação de um fundo da WSL, que pela primeira vez será usado para premiar as equipes. A equipe campeã receberá 100 mil libras, com 67 mil libras para a vice e 60 mil libras para a terceira colocada. Os valores vão decrescendo, de forma que até a última colocada será contemplada, com seis mil libras.

Esses valores certamente irão contribuir para uma liga que cresce em visibilidade e importância. Para se ter uma ideia, na Copa do Mundo deste ano, a WSL foi o segundo campeonato que cedeu mais jogadoras, empatado com a Division 1 francesa – foram 48, atrás apenas da NWSL dos EUA com 58 atletas.

As transmissões de futebol feminino também verão novidades. Foi lançado um serviço de streaming internacional (inclui-se o Brasil) para transmitir todos os jogos da WSL e alguns da Women’s Championship de graça. Na Inglaterra, a BBC transmite um jogo por fim de semana nas plataformas digitais, enquanto a BT Sport também tem direito a algumas partidas.

Importante pontuar que a WSL não é a única competição do calendário feminino na Inglaterra. Além dela, nacionalmente, existem a FA Women’s Cup (Copa da Inglaterra Feminina) e a FA Women’s Premier League Cup, que é chamada de Women’s League Cup (Copa da Liga Feminina) por conta da semelhança com a Copa da Liga masculina.

Mas com recorde de times, patrocínio, uma liga cada vez mais consolidada, grandes atletas e visibilidade, a WSL é sem dúvidas a grande competição do futebol feminino na Inglaterra. A expectativa é ótima, e 2019-20 promete ser a sua grande temporada na história.