A outra vez em que um goleiro se recusou a sair de campo na final da Copa da Liga

Na final de 1991, Les Sealey, do Manchester United, jogou machucado

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A outra vez em que um goleiro se recusou a sair de campo na final da Copa da Liga
(Foto destacada: Reprodução/The Guardian)

Na final da Copa da Liga Inglesa, no último dia 24, uma cena chamou a atenção mais do que o resultado. No final da prorrogação, o goleiro Kepa Arrizabalaga, do Chelsea, sentiu câimbras ao defender um chute de Kun Agüero.

O técnico Maurizio Sarri aprontou a substituição, o reserva Willy Caballero colocou o uniforme, a placa da alteração chegou a ser levantada, mas Kepa se recusou a sair. Após discussão ríspida com Sarri, o espanhol ficou em campo e, depois do empate em 0 a 0, viu seu time ser derrotado nos pênaltis pelo Manchester City.

O treinador italiano ficou furioso, rasgou o agasalho e chegou a sair de campo, voltando logo depois. O episódio em Wembley gerou grande polêmica e muitos debates a respeito do clima no Chelsea e do futuro dos envolvidos.

Porém, o que pouca gente lembra é que esta não foi a primeira vez em que um goleiro se recusou a sair de campo machucado em final de Copa da Liga. Para relembrarmos este momento, voltaremos ao ano de 1991.

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Em 21 de abril de 1991, Sheffield Wednesday e Manchester United se enfrentaram em Wembley para a final da Copa da Liga Inglesa, então chamada de Rumbelows Cup.

O United, um dos principais times da primeira divisão e atual campeão da Copa da Liga à época, era grande favorito contra um Sheffield que estava na segunda divisão inglesa (no fim da temporada, conseguiria o acesso).

Porém, em um jogo pegado e bastante disputado, o ato principal aconteceu logo aos 30 minutos do primeiro tempo. Com gol do meio campista John Sheridan, os Owls fizeram 1 a 0 sobre os Red Devils e conquistaram sua única taça do torneio.

Aquela foi a última grande conquista do Sheffield Wednesday no futebol inglês até os dias atuais. Também foi a última vez que um time fora da primeira divisão venceu a Copa da Liga.

O gol de John Sheridan deu o título da Rumbelows Cup de 1991 ao Sheffield Wednesday (Foto: Reprodução/talkSport)

Mas além do placar, da partida memorável e da festa dos torcedores do Wednesday, aquela tarde em Wembley ficou marcada por um episódio envolvendo o goleiro do Manchester United, Les Sealey.

Perto do fim do jogo, lançamento no ataque do Wednesday e Paul Williams sai na cara do gol. O atacante adianta e, na hora de marcar o segundo, se choca em carrinho com Les Sealey. O goleiro do Manchester United fica caído e agoniza com dores no gramado.

Ao entrar em campo para atendimento, o fisioterapeuta do United, Jim McGregor, percebeu que Sealey estava com um corte bastante profundo no joelho esquerdo. Era uma lesão nada tranquila e que normalmente requisitaria substituição imediata.

McGregor recomendou a Sealey que ele deixasse o campo, afirmando que ele precisava de tratamento urgente. O goleiro recusou, e ambos começaram uma discussão ríspida ali mesmo. Depois de muitos gritos, Sealey decidiu que ficaria em campo.

Williams e Sealey se chocaram no lance que machucou o goleiro do Manchester United (Foto: David Cannon/Allsport via Getty Images)

É importante lembrar que a situação de 1991 foi bem diferente da desobediência de Kepa em 2019. Na época apenas duas substituições eram permitidas, e por não ser algo comum, os times dificilmente levavam goleiros reservas para o banco.

E foi exatamente o que aconteceu. O United já tinha feito as duas substituições e não tinha goleiro reserva. Ao observar a situação, com seu time ainda tendo chances de ao menos empatar a final, Sealey decidiu que não sairia de campo de jeito nenhum.

A partida recomeçou aos 34 minutos do segundo tempo, e o camisa 1 jogou os 13 minutos finais. Com o joelho enfaixado, Sealey não foi exigido, e viu seu time partir com tudo pelo empate. Porém, o jogo terminou 1 a 0 para o Wednesday, com grande festa em Wembley.

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O episódio ficou marcado na história da Copa da Liga e consagrou ainda mais Sealey. O camisa 1, que assumiu a vaga de titular no replay da final da FA Cup em 1989-90 e foi fundamental na vitória por 1 a 0 sobre o Crystal Palace, tornou-se ainda mais reconhecido com o fato de 1991. Até hoje ele é lembrado como um grande nome do Man United.

Voltando a Wembley, o joelho do goleiro foi costurado ainda no vestiário, mas a lesão foi tão feia que Sealey quase teve problemas irreversíveis. Enquanto esperavam pelo avião de volta no aeroporto de Heathrow, a ferida no joelho virou infecção e ele precisou ser levado para cirurgia de urgência ao hospital de Middlesex.

Segundo os médicos que o atenderam, caso o goleiro tivesse viajado no avião, sua lesão poderia ser agravada de forma que até mesmo viesse a amputar sua perna. Ele não só superou a lesão, como esteve em campo três semanas depois para outra final.

Na ocasião, o Manchester United venceu a Copa dos Campeões das Copas Europeias contra o Barcelona: 2 a 1 em Roterdã. Sealey foi ovacionado pelos fãs do United em sua volta, mas mal sabia que seria sua última temporada.

Sealey (último da direita, em verde) jogou com o joelho esquerdo enfaixado na final da Copa dos Campeões das Copas Europeias em 1991 (Foto: Paul Popper/Popperfoto via Getty Images)

Isso porque em 1991/92, com a chegada de Peter Schmeichel, ele recusou a oferta de contrato oferecida pela diretoria e foi jogar no Aston Villa. Em 1993 o inglês volta ao United, mas faz apenas duas aparições no time principal e deixa Old Trafford em 1994.

No geral, Sealey não foi um goleiro de grandes estatísticas no Manchester United, tendo apenas 31 partidas disputadas. Porém, as quatro finais jogadas (duas da Copa da Liga, uma da Copa dos Campeões das Copas Europeias e outra da FA Cup) e os vários êxitos o transformaram em nome marcante da equipe.

Em 2001, aos 43 anos, o ex-camisa 1 dos Red Devils faleceu após um ataque cardíaco. Porém, ele sempre ficou (e ainda ficará) marcado na história do clube por vários motivos. O episódio na final da Copa da Liga de 1991 é um deles.

O caso de Les Sealey tem circunstâncias, fatos e casos bem diferentes da recusa de Kepa na final deste ano. Mas não deixou de ficar marcado (e agora relembrado) como a única vez, até então, que um jogador se recusou a escalar-se desta forma.