Geovanni: a relação com Van Gaal e Xavi no Barcelona e as glórias pelo Benfica

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Poucos jogadores brasileiros conhecem tão bem a Península Ibérica como Geovanni, que defendeu as camisas de Barcelona e Benfica. O ex-meia-atacante deixou o Cruzeiro em 2001 rumo ao sonho dourado no time culé, mas esbarrou em dificuldades e foi parar no Benfica – por lá, foi feliz. Aos 43 anos e aposentado, ele olha para o passado, vê o que poderia ter sido diferente, agradece por tudo que viveu e revela torcida pelos times em que jogou.

O Barcelona foi campeão espanhol no último domingo (14), e o Benfica está muito perto de ganhar o o Campeonato Português. Basta vencer o Sporting no próximo domingo (21) ou torcer por tropeço do Porto para conquistar o 38º título.

Geovanni: eternizado na história do Benfica

Um gigante que estava adormecido“, disse o jogador sobre a má fase do Benfica no começo dos anos 2000.

Hoje, vencer taças é uma realidade para os Encarnados, mas a equipe atravessou momentos complicados e de dificuldades no início do século. Em entrevista exclusiva à PL Brasil, Geovanni relembrou como foi fazer parte do elenco que quebrou um jejum de 11 anos sem títulos da liga portuguesa pelo Benfica.

— No Benfica, estávamos com mais de dez anos sem títulos. E nós ganhamos esse título em 2004/05. Foi um momento muito especial. Tivemos a felicidade ser campeão português depois de muito tempo. Eu lembro das dificuldades que encontramos. Porque foi antes da Eurocopa 2004. O estádio do Benfica foi demolido e construído novo estádio. Então, passamos a jogar no Jamor. Foi bem difícil –, lembrou.

A espera valeu à pena. O time empatou em 1 a 1 com o Boavista, no Porto, e finalmente pôde soltar o grito de campeão. A festa em Lisboa foi de arromba, para fazer jus ao tamanho da conquista. Segundo ele, o título significou uma mudança de mentalidade no Benfica, que voltou aos tempos de glória daí em diante.

— A festa foi muito, muito legal. Nós fomos campeões no Porto, descemos pra Lisboa, chegamos no aeroporto lotado, chegamos no Estádio da Luz já eram 3, 4 horas da manhã. Estava lotado. Foi um dia muito especial e os adeptos eles guardam isso no coração porque ali foi a virada de chave para que o Benfica viesse depois numa sequência de títulos e também de boas apresentações na Liga dos Campeões —, revelou.

A passagem de Geovanni pelo Benfica durou quatro temporadas. Ele desembarcou no país lusitano em 2002/03, emprestado pelo Barcelona, e ficou por lá até 2006, quando voltou para o Cruzeiro. O brasileiro fez 131 jogos, marcou 23 gols, venceu três títulos e vitimou rivais com a camisa vermelha.

— Fiz alguns gols importantes, que deram acesso à Champions League. Fiz um contra o Porto que tínhamos muitos anos sem ganhar na casa deles. Também fiz um em José Alvalade, contra o Sporting. Alguns gols decisivos. Sempre que vou, os adeptos têm um carinho especial. Eles reconhecem o que eu fiz pelo Benfica. Os adeptos sabem todas as dificuldades que nós passamos. Sempre que vou, sou muito bem recebido. Fico muito feliz por receber esse carinho –, disse Geovanni.

Ex-Barcelona e Benfica, Geovanni relembra título histórico em Portugal, proposta ousada de Van Gaal e convívio com Xavi
Geovanni marcou um gol pelo Benfica contra o Manchester United – Foto: Site Oficial/SLBenfica

Van Gaal, Xavi e aprendizado: o que Geovanni leva do Barcelona

Antes de jogar no Benfica, Geovanni defendeu o Barcelona. O jogador deixou o Cruzeiro por  18 milhões de dólares (cerca de R$ 36 milhões, na cotação da época). O valor foi considerado astronômico em 2001. Dentro de campo, porém, o brasileiro não conseguiu corresponder as expectativas. Dificuldades na adaptação e imaturidade foram obstáculo para o sucesso do mineiro de Acaiaca, a 154km de Belo Horizonte.

— Fui muito jovem (21 anos) para lá, numa grande expectativa de desempenhar o que eu fiz aqui. Aprendi muito lá. Não foi realmente o que eu esperava. Tive muita dificuldade de adaptação a princípio. Idioma diferente, a cidade é diferente. Mas é difícil sair muito jovem de casa. Tive dificuldades, mas Barcelona era um sonho meu –, ponderou.

Uma das possibilidades que Geovanni teve de se destacar no Barça seria aceitar um ousado convite de Louis Van Gaal. O técnico holandês queria que o brasileiro atuasse como ala no esquema de três zagueiros. O meia-atacante, porém, não achou uma boa ideia. Atuando no sistema ofensivo, não teve tantas oportunidades. Mais de 20 anos depois, ele se arrepende da recusa.

— Quando o Van Gaal chegou, ele conversou comigo para jogar de ala e eu não tive essa disposição. Hoje, mais maduro, vejo que poderia tranquilamente ter feito essa função. Eu era muito rápido, chutava muito bem, cruzava bem. Mas para um jovem mudar de um sistema ofensivo para defensivo, mesmo sendo um ala, que ataca mas volta para fechar a linha, é bem complicado — explicou Giovanni, que adicionou:

Mas eu poderia ter feito. Se eu tivesse feito, a chance de jogar mais tempo no Barcelona seria muito grande. Infelizmente, a imaturidade falou mais alto”.

Ao longo da história, Louis Van Gaal ficou conhecido como um técnico que tinha dificuldade em lidar com jogadores brasileiros. Um dos exemplos aconteceu no Barcelona, com Rivaldo. Geovanni, porém, inocentou o holandês e disse que nunca teve problemas com o comandante.

— Ele queria me dar essa oportunidade como ala. Uma relação normal entre treinador e jogador. Sempre me orientava, me colocou como atacante por alguns jogos depois de eu pedir. Particularmente, não posso ser injusto com ele. Não tive problemas –, contou.

“Torço pelo Barcelona. Tenho um carinho pelo Barcelona e pela Espanha. Sou cidadão espanhol. Torço para o Xavi”, avaliou.

Um dos maiores meio-campistas da história do futebol e atual técnico culé, Xavi Hernández foi companheiro e contemporâneo de Geovanni. Nascidos em 1980, os atletas faziam parte do grupo de jovens jogadores do elenco blaugrana no início do século. O brasileiro não imaginava o sucesso do amigo na função, mas o comparou com Guardiola.

— Tive a felicidade de jogar com ele. O Barcelona ganha muito com ele, pela experiência e conhecer o clube. Nós começamos muito novos. Tínhamos 21 anos. Não imaginávamos como seria o futuro. O Guardiola e o Xavi são muito parecidos. Mesma posição, quase a mesma postura dentro de campo. A liderança. O sucesso do Guardiola despertou o interesse em alguns jogadores. O Xavi terminou a carreira, começou a treinar fora da Espanha. Retornou mais maduro, com bagagem e logo no primeiro ano é campeão espanhol –, avaliou.

A passagem de Geovanni no Barça durou apenas 43 jogos e dois gols. No entanto, sua aventura na Europa se prolongou também à Premier League, com temporadas por Manchester City e Hull City.

Lucas Barbosa
Lucas Barbosa

Redator da PL Brasil. Foi por meio da Premier League, na tela do antigo Esporte Interativo, em 2007, que o Jornalismo entrou na minha vida. Duas paixões que abriram portas e me fazem realizar sonhos todos os dias. Passei pelos portais Mais Minas e Esporte News Mundo.