O que o futebol inglês faz para combater o preconceito nas redes sociais?

De punições a ações de conscientização, sabia o que as organizações inglesas e os clubes estão fazendo para evitar o preconceito no futebol do país

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Sterling com a camisa do City
Foto: Divulgação/Michael Regan Collection Getty Images Sport

O preconceito é um dos malefícios que acompanha a humanidade e que mais devasta a sociedade no século XXI. Guerras são travadas contra o diferente todos os dias, gerando prejuízos muitas vezes irrecuperáveis. Vidas são perdidas pelas mãos alheias de suas particularidades, sendo elas feitas de forma direta e indiretamente.

A cultura do ódio ganhou proporções ainda maiores na internet, principalmente após a popularização das redes sociais. Se na teoria da comunicação se diz que estamos em uma era em que todos possuem voz para falar, várias dessas vozes ganharam importância através da intolerância.

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Obviamente que todo esse discurso serve também para o futebol, mesmo o praticado na Terra da Rainha. A elitização do esporte bretão em solo britânico não se isentou das violências que o preconceito pode causar. Isso é visto dentro dos estádios, mas fora dele, no ambiente digital, os discursos de ódio possuem ainda mais locutores.

Havendo essa certeza de que a intolerância também acontece nas redes sociais, o que as instituições que comandam o futebol na Inglaterra estão fazendo? E os clubes, como ele esses defendem seus jogadores de insultos descabíveis? Qual a defesa das minorias que buscam no futebol um alento para os preconceitos que vivem?

Ações da Premier League e outros órgãos contra o preconceito digital

Toda ação realizada pela organização da Premier League é pensada atualmente em dois ambientes. O que é feito no “mundo real” é replicado, dadas certas alterações, na internet. Essa foi a maneira que a Football Association (FA), a Premier League e outros órgãos administradores do esporte encontraram para educar e conscientizar seu público.

As campanhas escoradas em hashtags têm sido a principal arma contra o preconceito na internet. Fazendo com que o engajamento do público possa servir de exemplo contra a aversão ao diferente. O uso desta ferramenta é capaz de gerar a visibilidade necessária para as campanhas, mas sozinhas não conseguem impedir toda a intolerância. A punição é necessária e nesse ponto as organizações não conseguem atingir o foco do problema.

Dentre as diversas ocasiões em que a discriminação foi pregada nas redes sociais, não há um único caso grande que sirva de exemplo. Muito disso se deve à incapacidade dessas organizações de encontrarem os responsáveis, que não raro se escondem atrás de perfis falsos e até mesmo de maquiadores de IP (Endereço de Protocolo de Internet).

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Justamente por não haver uma grande punição, a intolerância continua a ser disseminada. Um dos muitos exemplos pode ser encontrado após um jogo do Manchester United contra o Wolverhampton, em agosto deste ano. Na ocasião, Paul Pogba perdeu um pênalti que poderia ter dado a vitória para os Red Devils. A reação de uma parte da torcida foi realizar diversos ataques racistas ao francês através das redes sociais.

Ole Gunnar Solskjaer foi forçado a se manifestar sobre o assunto, pedindo para que essa parte da torcida não insultasse Pogba. O treinador também falou em tom de descrença sobre não “acreditar que em 2019 ainda estamos aqui falando sobre essas coisas.”. Por fim ainda fez um apelo para que as autoridades fossem mais rígidas com declarações racistas na internet.

É sempre bom destacar as campanhas da liga como a Rainbow Laces, em parceria com a Stonewall, e o No Room For Racism, em conjunto com a Kick It Out. Elas funcionam muito bem como educadoras, oferecendo todo o suporte para as equipes e a comunidade em que elas atuam.

Como no caso de racismo contra o brasileiro Fred, no clássico de Manchester, no início deste mês. A Kick It Out ofereceu “apoio e espera que sejam tomadas medidas rápidas para identificar os infratores.”.

O combate dos clubes contra a intolerância

Na zona de ação dos clubes, a estratégia do combate não é diferente das organizações. Prezam por uma ação educacional dentro e fora da internet para combater o preconceito. Um exemplo é a Tottenham Hotspur Fundation, braço do clube que busca realizar ações de caridade e conscientização. Recentemente o site oficial da Premier League publicou uma reportagem sobre as ações dessa instituição no combate à homofobia.

Leah Stone, coordenadora LGBT+ da fundação, participou de um encontro com crianças em uma escola localizada na região onde o Tottenham está estabelecido. Stone faz uma dinâmica com as crianças com o objetivo quebrar uma visão preconceituosa do que é diferente.

 Entende-se, dessa forma, que o objetivo desse tipo de ação educacional é cortar o mal pela raiz. Buscando desde a os primeiros instantes ensinar as crianças a ter uma visão mais diversa e com menor aversão às divergências de cor, sexo, orientação sexual, religião, etc. Esse método será futuramente refletido nas redes sociais, local onde as crianças passam habitar cada vez mais cedo.

A divulgação e o apoio das ações das organizações que administram o futebol também é uma ferramenta dos clubes. Cada vez mais os times entendem que a união das diferentes esferas é necessária para o combate ao preconceito. Um pequeno exemplo disso está no tweet, que pode ser encontrado abaixo, do Liverpool com a hashtag da campanha No Room For Racism.

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Quanto a punição dos clubes para torcedores que cometem atrocidades nas redes sociais, esses ainda se veem de mão atadas. A corda que prende suas mãos mais uma vez está no anonimato de quem realiza o ato. Porém, parte dela também está no fato de que o que é dito nas redes sociais tem menor importância no momento da punição, como no caso em destaque deste artigo.

Ainda assim os times buscam ter mais pulso firme contra o preconceito. Um bom exemplo é o do Crystal Palace em relação a Wilfried Zaha, que sofreu injúria racial este ano.

O time londrino lançou no dia 9 de outubro uma nota nomeada como “Ação contra abuso racista”. Nela, os Eagles especificaram que não irão mais tolerar comportamentos discriminatórios direcionados aos seus jogadores. O pronunciamento veio pois Zaha haveria sofrido novamente de racismo nas redes sociais. “Novamente” porque o atleta e sua família haviam sido ameaçados um ano antes.

O Palace não revelou o que faria exatamente ao dizer “Qualquer ação que possamos tomar unilateralmente como clube será tomada […]”. Porém, uma coisa dita na nota reflete muito o caminho que os times vem fazendo atualmente: se unir com outras instituições para lutar contra o preconceito.

“[…] buscaremos a cooperação de outros clubes, quando pertinente, após o que iremos abordar o assunto criminalmente com toda a força que a lei permitir.”

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Uma das alternativas que a nota indica e que o Crystal Palace deve ter seguido é a mesma que o Leicester City utilizou este ano. Também em outubro, Hamza Choudhury foi atacado nas mídias sociais após os Foxes perderam para o Liverpool na Premier League. A motivação descabida veio do fato de o jogador estar envolvido no lance em que Mohamed Salah acabou se lesionando.

O Leicester City disse que o “comportamento criminoso não tem lugar no futebol ou na sociedade”. Por isso, o clube acabou entrando em contato com a polícia para buscar uma solução para o caso.

O caso mais marcante: Bernardo Silva

Falou-se aqui em diversos momentos que não existe um caso marcante de punição aos torcedores devido à prática do preconceito nas redes sociais. Porém, Bernardo Silva recebeu recentemente os holofotes e acabou servindo como exemplo. Seu fato se iniciou quando o mesmo postou uma foto no Twitter de Mendy pequeno ao lado de um desenho de uma marca chamada Conguitos.

O desenho trazia um elemento repudiado pelos que lutam contra o racismo: o blackface. O termo surgiu no teatro norte-americano 200 atrás e tinha como característica a pintura dos rostos de pessoas brancas para que se parecessem com negros.

A ação é considerada ofensiva devido ao fato de estereotipar de forma negativa os traços afrodescendentes. Essa técnica do blackface era usada como forma de ridicularização.

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Intencional ou não, o ato de Bernardo Silva o levou a ser suspenso por uma partida pela FA. Além disso, o meio-campista foi punido em 50 mil libras. Sua postagem na rede social foi feita em setembro deste ano, mas a penalidade só veio em novembro. Segundo a FA, a punição não foi maior pelo fato de “a comunicação ter sido via mídia social”. Ainda assim o jogador serviu como exemplo pelo ato que cometeu.

A educação mais uma vez esteve presente. Isso porque Silva também precisou passar por sessões de educação sobre racismo como forma de “punição”. As aulas sobre a importância de lutar contra a intolerância servirão para ligar um alerta no jogador. Do contrário, também auxiliarão no entendimento da gravidade de seus atos.

Assim como na estruturação de sua academia de jovens, a Inglaterra parece ter entendido que a educação é parte integrante da luta contra o preconceito. A punição não é uma realidade nesse combate, mas as instituições que movem a liga não estão paradas quando se trata de tornar o esporte bretão um ambiente para todos.

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