O dia em que Beckenbauer venceu um surpreendente Leeds para ser campeão europeu

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Franz Beckenbauer morreu neste domingo (7), aos 78 anos. A lenda do futebol alemão teve seu falecimento confirmado pela família no início da tarde desta segunda-feira (8), por meio de um comunicado. A causa da morte não foi divulgada.

— É com profunda tristeza que anunciamos que o marido e pai, Franz Beckenbauer, faleceu pacificamente enquanto dormia ontem, domingo, rodeado pela sua família. Pedimos que vocês possam lamentar em silêncio e evitem fazer qualquer pergunta — relata o comunicado.

O ex-zagueiro foi multicampeão com o Bayern de Munique, jogou com Pelé no New York Cosmos e foi campeão do mundo pela Alemanha Ocidental em 1974.

E mesmo sem nunca ter atuado em algum time da Inglaterra, Beckenbauer coleciona algumas histórias relacionadas ao futebol inglês que vão além do vice-campeonato na Copa do Mundo de 1966, o único título mundial dos britânicos até o momento.

Vitória sobre um improvável Leeds na Champions

Antes de se transformar em Champions League, o campeonato continental europeu era chamado de Taça dos Clubes Campeões Europeus. E a final de 1974/75, em Paris, foi marcada por um embate com gosto de revanche entre países que haviam se enfrentando na Copa do Mundo nove anos antes: Alemanha, representada pelo Bayern de Munique, e Inglaterra, com o Leeds.

E a revanche ainda era potencializada pelos personagens em campo. Em 1966, Jimmy Armfield era um dos jogadores reservas dos ingleses que venceram a Alemanha de Beckenbauer, titular na final da Copa. Nove anos depois, o mesmo Armfield voltaria a enfrentar o rival alemão na final do torneio europeu. Mas agora, como treinador do Leeds.

O time inglês, por sua vez, chegou como azarão à final. Além de o Leeds ter sido apenas a segunda equipe inglesa na final da Taça, o Bayern era o atual campeão da época. Ainda assim, os Whites fizeram história por terem eliminado o Barcelona na semifinal.

Apesar de estar atualmente na segunda divisão, o Leeds teve uma “década de ouro” entre os anos 60 e 70. O time de Yorkshire ficou sete vezes entre os dois primeiros do Campeonato Inglês, levando o caneco em duas oportunidades. Também faturou uma Copa da Inglaterra e perdeu uma final europeia, da Recopa, dois anos antes de Paris.

Para a tristeza dos ingleses, os alemães confirmaram o favoritismo na capital francesa e se sagraram bicampeões naquele ano por 2 a 0, com gols de Franz Roth e Gerd Müller.

Foi o segundo de três títulos consecutivos do Bayern de Beckenbauer. Até hoje, só o Real Madrid alcançou o mesmo feito — duas vezes, na década de 50 e entre 2016 e 2019.

“Final mais difícil da minha vida”, afirma Beckenbauer

Geoff Hurst (Inglaterra) e Franz Beckenbauer (Alemanha) em ação na final da Copa do Mundo de 1966 (Foto: Icon sport)

Apesar da sua relação com o futebol inglês não se resumir à final da Copa de 1966, Beckenbauer sempre ficará lembrado pelos britânicos pela sua atuação na final do torneio.

Em uma entrevista à BBC Sport, Beckenbauer afirmou que essa final foi “o jogo mais difícil” de sua vida. No trecho divulgado pela emissora em suas redes sociais após sua morte, o ex-capitão da seleção alemã citou o fato de se sentir honrado com a missão de marcar Bobby Chalrton, outra lenda do futebol que nos deixou em outubro de 2023.

— Eu era o jogador mais novo do nosso time. Recebi a ordem de Helmet Schun (técnico da seleção da Alemanha Ocidental em 1966) de marcar Bobby Charlton porque, naquele momento, ele era o melhor jogador do mundo e era uma peça chave para aquele time da Inglaterra. Eu não questionei. Eu estava feliz de jogar naquela final. Não importava se era como goleiro, zagueiro ou marcando Bobby Charlton. Eu estava feliz de estar em campo e de ter a honra de marcar Bobby Charlton. Mas foi provavelmente o jogo mais difícil da minha vida.

Beckenbauer estava lutando contra a doença de Parkinson e foi submetido a operações cardíacas nos últimos anos, de acordo com o “Daily Mail”.  Ele deixa a esposa Heidi e quatro filhos. 

Críticas ao estilo de futebol inglês

Escrevendo para um jornal da África do Sul, país-sede do torneio naquele ano, o ex-jogador afirmou que o Fabio Capello, treinador da época, “ficou impotente” devido ao baixo número de jogadores ingleses atuando nos times de primeira prateleira da Premier League naquele momento. “A disposição dos clubes em comprar jogadores do exterior voltou a assombrar a seleção nacional”, relatou.

— O que vi dos ingleses no empate 1 a 1 contra os Estados Unidos teve muito pouco a ver com futebol. Pareceu-me que os ingleses tinham retrocedido aos velhos e maus tempos de chutes e corridas.

—  Não tenho certeza se o técnico da Inglaterra, Fabio Capello, ainda pode mudar muita coisa lá. Os ingleses estão sendo punidos pelo fato de haver muito poucos jogadores ingleses nos clubes da Premier League, pois utilizam melhores jogadores estrangeiros de todo o mundo.

Inglaterra e Alemanha cruzaram seus caminhos mais uma vez na Copa do Mundo de 2010, quando se enfrentaram nas oitavas de final. Mas antes disso, ainda na fase de grupos, Beckenbauer foi alvo de uma polêmica na mídia britânica, ao criticar publicamente o estilo de jogo dos ingleses após empatarem em 1 a 1 com a seleção dos Estados Unidos.

Mas vale registrar que houve um pedido de desculpas quando foi confirmado o embate entre alemães e ingleses nas oitavas. Em entrevista à rádio da BBC, Beckenbauer disse que ficou “desiludido” por acreditar no título da Inglaterra e que era “fã do estilo inglês”.

— Antes da Copa do Mundo, pensei que a Inglaterra desempenharia um papel importante no torneio, talvez ganhasse o título. Eles têm uma grande equipe e um grande treinador e depois dos dois primeiros jogos fiquei muito desiludido. Não zangado, mas muito, muito desiludido.

— Porque gosto da Inglaterra e do futebol inglês, sou realmente um grande fã do estilo inglês. Talvez tenha sido uma reação porque fiquei desapontado, talvez estivesse de mau humor. Por outras palavras, já pedi desculpa e agora estou ansioso pelo jogo de domingo. Penso que será um jogo muito, muito interessante.

A Alemanha acabou vencendo a Inglaterra por 4 a 1 e acabou em terceiro lugar no Mundial.

Maria Tereza Santos
Maria Tereza Santos

Me formei em Jornalismo pela PUC-SP em 2020. Antes de escrever para a PL Brasil, fui editora na ESPN e repórter na Veja Saúde, Folha de S.Paulo e Superesportes.