Exclusivo: Vitinho, lateral do Burnley: ‘Jogar com Kompany é diferente de tudo que eu já vi no futebol’

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Tradicionalmente, a Premier League abre a sua nova temporada com um jogo entre o campeão do ano anterior e o campeão da Championship, a segunda divisão da Inglaterra. Neste ano, o confronto será entre Manchester City e Burnley, marcado para sexta-feira (11), às 16h (horário de Brasília).

A abertura deste ano ainda terá um toque especial. Será uma partida entre Pep Guardiola e um de seus pupilos, Vincent Kompany. O ex-zagueiro belga de 37 anos é ídolo do City, jogou com Guardiola entre 2016 e 2019 e treina o Burnley há um ano.

O dia também ficará marcado na memória de um brasileiro. O lateral-direito Vitinho, único jogador do país que atua no Burnley, fará sua estreia na Premier League. Aos 24 anos, ele está no clube desde a temporada passada, quando foi contratado do Cercle Brugge, da Bélgica, por 1 milhão de euros.

Natural de Belo Horizonte, ele fez a categoria de base no Cruzeiro e, após um jogo como profissional, foi negociado com o futebol belga. A ideia é que ele fizesse um período de adaptação no país e depois rumasse ao Monaco, mas o negócio não deu certo — o porquê Vitinho explica em entrevista exclusiva à PL Brasil.

A adaptação à Europa, ao futebol inglês e a um time treinado por Kompany foram outros temas da conversa. Vitinho jogou 35 jogos da campanha vitoriosa do Burnley na Championship passada, dos quais o time só perdeu dois. Ele marcou três gols e deu uma assistência. O atleta exaltou o treinador belga que, apesar de não ter muita experiência, já importa conceitos que aprendeu com Guardiola que encantam o brasileiro.

“O Kompany diz que aprendeu a jogar bola com o Guardiola, e eu penso a mesma coisa (sobre o Kompany). Não tenho dúvidas que chegará nos tops do mundo”, garante o jogador.

Também foram abordados na entrevista exclusiva de Vitinho à PL Brasil:

  • Quais características um jogador precisa ter para jogar no time de Kompany;
  • A expectativa para a Premier League;
  • A maior dificuldade de morar na Inglaterra;
  • O futuro da carreira;
  • O atacante mais difícil de marcar na liga.

Confira abaixo a primeira parte da conversa. A segunda, na qual o jogador fala sobre seleção brasileira, relação com o Cruzeiro, brasileiros na Premier League e outros assuntos, será publicada em breve.

Vitinho abraça seu treinador, Vincent Kompany, ídolo do City – Foto: Icon sport

‘Diferente de tudo que eu já vi no futebol'

PL Brasil: Você deve estrear na Premier League, a maior liga de futebol do mundo, nesta sexta-feira. Qual é o sentimento?

Vitinho: Jogar a Premier League é o sonho de todo jogador. Depois da gente ter feito uma bela campanha na Championship, ter sido campeão e alcançar no objetivo, estou tentando aproveitar ao máximo para chegar pronto. Estamos tendo mudanças na equipe e estou treinando todos os dias. Quero chegar bem mentalmente e fisicamente para fazer um belo campeonato.

Vimos durante a pré-temporada do Burnley que, em alguns amistosos, você foi escalado no meio-campo em vez da lateral-direita, que é a sua posição de origem. Como você tem lidado com essa flexibilidade?

Vitinho: No time do Kompany, você tem que saber jogar em todas as posições. Tem outro lateral-direito no elenco (Connor Roberts), então às vezes eu jogo como meia. Na última temporada, joguei na ponta, lateral-direita e lateral-esquerda. Kompany gosta de jogadores que podem jogar em mais de uma posição porque jogamos muito de acordo com o adversário. Temos nosso modelo de jogo, que trabalhamos todos os dias, mas nos adaptamos muito. Então tem que ser flexível.

Mas qual é a sua posição preferida?

Vitinho: Eu gosto de jogar lateral direita. É a minha posição e a posição que joguei nos últimos anos.

E como está a preparação para jogar uma Premier League?

Vitinho: O Kompany deixa claro para a gente que o mais importante de tudo é o trabalho do dia a dia. O que a gente faz durante os treinos, como a gente enxerga o nosso dia a dia dentro do clube, isso é o mais importante. Depois que a gente faz isso bem, as coisas começam a fluir. Foi assim na Championship desde o primeiro dia. Continuamos com a mesma cabeça e paciência. Só depende da gente chegar bem.

O Gündogan deu uma entrevista recentemente dizendo que não sabia nada de futebol até chegar ao Manchester City e trabalhar com Guardiola. Como é ser treinado por um ex-jogador do espanhol?

Vitinho: O Kompany fala a mesma coisa que o Gundogan. Ele fala que aprendeu a jogar futebol depois que conheceu o Guardiola eu penso a mesma coisa (sobre o Kompany). Tem um ano que eu estou trabalhando com ele e já aprendi muitas coisas que nem passavam pela minha cabeça antes. É uma forma de jogar totalmente diferente das que eu vi no futebol. Onde você tem que pensar e enxergar os espaços, o porquê do passe, o porquê que você tem que correr naquela direção. Isso tudo é treinado. Quando a gente vai jogar, sabemos o que temos que fazer.

Isso faz diferença na hora de um jogador escolher seu time de futebol?

Vitinho: Com certeza, isso faz diferença para mim. Não só eu, mas todo o grupo aqui fala que é louco pelo trabalho dele. É o primeiro a chegar e o último a sair, toda a comissão dele trabalha o tempo inteiro. Não tenho dúvidas que vai chegar nos tops do mundo. Sabe o que quer e faz por onde.

Como é a relação pessoal com ele?

Vitinho: Ele é um cara tranquilo, mas um cara focado. Dá para ver que está sempre focado no trabalho e em tirar o máximo do atleta. Passa muita confiança e é muito positivo, se preocupa com a nossa vida pessoal, se nós estamos felizes. Isso é importante para nós. É um ótimo treinador que começou há pouco tempo, mas você percebe que ele sabe muita coisa.

Você é o primeiro brasileiro da história do Burnley e de todo o elenco atual. Como é a relação com os outros jogadores?

Vitinho: Eu jogava na Bélgica e o Kompany trouxe bastante jogadores que estavam lá. Então costumo estar mais com eles porque falo francês. Consigo falar inglês também, mas tenho mais intimidade com quem joguei na Bélgica. O grupo aqui é muito bom. Os mais velhos me abraçaram quando cheguei aqui, todos te ajudam o tempo inteiro. Só tenho que agradecer. Não tem jogador vaidoso, todos entendem que é o importante é o grupo e o trabalho do dia a dia.

O inglês Tella, o belga Benson e o brasileiro Vitinho posam para foto com o troféu da Championship – Foto: Icon Sports

Ida para a Bélgica e vida na Inglaterra

Você se mudou para a Europa em 2018, quando tinha apenas 18 anos. Por que foi para o futebol belga?

Vitinho: Fui para a Bélgica porque o intuito era ir depois para o Monaco. O clube que joguei na Bélgica, o Cercle Brugge, pertence ao Monaco. Então a ideia era passar uma ou duas temporadas lá e rumar para a França, mas infelizmente não deu certo porque minha adaptação à Europa foi difícil e demorada. Não joguei muito no segundo ano por causa de uma lesão também. Quando você sai de um time grande como o Cruzeiro, onde passei 12 anos, a minha infância toda, e vai para um time de menor expressão, de uma cultura e país totalmente diferente, você tem uma dificuldade. Você se pergunta: ‘O que eu estou fazendo aqui? O que aconteceu?'. Depois que passa, quando você vê as coisas fluindo, as dificuldades se tornam amadurecimento.

Quais foram as maiores dificuldades?

Vitinho: Os dois primeiros anos foram muito difíceis (Vitinho ficou lá de 2018 a 2022). Não sabia me comunicar e infelizmente o clube não me ajudava bastante. Mas não me arrependi, foi um aprendizado. Eu acho que eu precisava passar por isso. Aprendi muito nesses dois nesses dois anos de dificuldade que eu tive na Bélgica e hoje eu tenho a forma de pensar que eu tenho por causa desses dois anos, porque tive que mudar a cabeça que eu tinha do Brasil. A adaptação na Bélgica foi aprendizado e crescimento para a minha vida.

Morar na Inglaterra é melhor?

Vitinho: Eu moro em Manchester, do lado de Burnley. O frio aqui não muda tanto da Bélgica. A diferença é que chove bastante, todo dia. Isso é o mais difícil. Depois da Copa do Mundo, quando voltamos, jogamos um jogo com -8ºC. Mas o frio não é mais uma dificuldade. Também moro sozinho aqui, mas minha noiva vem direto, minha família também. É difícil eu ficar sozinho.

Vitinho com a camisa do Cercle Brugge, na Bélgica, no início de 2022 – Foto: Icon Sport

O atacante mais difícil da Premier League e ‘sonhos maiores' no Burnley

Qual vai ser o atacante mais difícil de marcar na Premier League?

Vitinho: Acho que vai ser o Gabriel Martinelli. Ele joga do meu lado do campo e ainda é brasileiro. Na estreia, também vou ter que encarar o Grealish. Com certeza já é o jogo mais difícil.

Tem algum estádio onde você está ansioso para jogar?

Vitinho: Ano passado eu estava ansioso para jogar no estádio do Manchester City (o Burnley perdeu por 6 a 0 para os Citizens nas quartas de final da FA Cup da temporada 2022/23). Mas agora é o Anfield, do Liverpool. Já fui assistir a jogos lá, mas jogar ainda não. Quero muito ver como é a atmosfera.

Dava tempo para ver uns jogos no seu tempo livre?

Vitinho: Sim, consegui ir a vários jogos do City nos dias de lazer durante a temporada. Também fui ver o United e o Liverpool.

Sua ideia é ficar mais quanto tempo no Burnley? Já recebeu alguma proposta para sair?

Vitinho: Se eu falar que não penso no futuro, vou estar mentindo. Claro que tenho sonhos e objetivos, mas quero antes me preparar e seguir bem no Burnley, fazer uma ótima temporada. O objetivo maior é jogar na seleção brasileira e acho que esse ano na Premier League vai me ajudar bastante. Vou me preparar fisicamente e mentalmente para isso. Consequentemente, outras coisas virão. Ainda não tive propostas para sair.

O objetivo do Burnley na Premier League será fugir do rebaixamento?

Vitinho: Não pensamos em só fugir do rebaixamento. Pensamos em treinar e trabalhar todos os dias. Fazer a nossa parte, deixar a coisa fluir e sonhar com coisas maiores.

Diogo Magri
Diogo Magri

Jornalista formado pela ECA-USP, campineiro e repórter na PL Brasil. Passagens por EL PAÍS, Revista Veja e Futebol Globo CBN.

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