Caos e violência: Comportamento de torcedores ingleses liga alerta vermelho na Eurocopa

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O hooliganismo voltou à cena na Eurocopa 2024.

Horas antes da Inglaterra vencer a Sérvia por 1 a 0, torcedores das duas seleções brigavam no centro da cidade de Gelsenkirchen. De acordo com o jornal “The Guardian”, sérvios estavam do lado de fora de um bar quando foram atacados por um “grupo furioso” de hooligans ingleses. Uma testemunha relatou que foi arremessado “tudo o que se possa imaginar”.

Seis torcedores ingleses receberam ordens de banimento pelas confusões na Eurocopa 2024 e não poderão acompanhar os jogos nacionais ou internacionais da seleção nos estádios. Todd Hines, 21, Liam Jackson, 28 e Kyran Alcock, 28, foram punidos com três anos de banimento, enquanto Lewis Dodsworth, 29, Jack Hatton, 27, e Gary McIvor , 38, foram suspensos por cinco.

Outros quatro torcedores ingleses, conforme relatado pela “BBC”, já compareceram ao tribunal no Reino Unido e foram liberados sob fiança com condições de entregarem os passaportes.

Antes do jogo, a polícia alemã já classificava a partida como de alto risco, por conta do histórico de vandalismo das duas torcidas.

Essa é a terceira Eurocopa consecutiva em que hooligans ingleses se envolvem em confusão. Em 2016, houve confronto com russos em Marselha, na França, e, em 2021, a invasão de milhares de torcedores a Wembley, palco da final em que a Inglaterra foi derrotada pela Itália.

Neste ano, a polícia inglesa tentou fazer a parte dela para o torneio europeu. Antes do início da competição, recolheu mais de 1,6 mil passaportes de torcedores com antecedentes criminais ligados ao hooliganismo, a fim de que não viajassem para a Alemanha.

O chefe do Departamento de Policiamento do Futebol do Reino Unido, Mark Roberts, pediu em uma de suas reuniões com os alemães para que a torcida inglesa fosse “julgada por seu comportamento e não sua reputação”. 

Mas isso parece não ter sido levado em consideração. Além de proibir a venda de cerveja para os ingleses em estádios e arredores, eles até recomendaram o uso de maconha aos torcedores, no lugar de cerveja.

Apesar de vídeos engraçados que surgem nas redes sociais de torcedores ingleses bebendo e se divertindo, a fama não é das melhores quando eles viajam para torneios internacionais.

Fans watching Italy v England – UEFA Euro 2020 – Final
Torcedor se revolta após Inglaterra ser vice da Eurocopa em 2020. Foto: Icon Sport

O mau comportamento de alguns torcedores tem se tornado recorrente em jogos dos Three Lions em competições internacionais, especialmente em território europeu. É um comportamento diferente das partidas em Wembley ou nos jogos dos campeonatos nacionais.

O hooliganismo não fica limitado a violência e atos de vandalismo. Ofensas religiosas, raciais e homofóbicas ganham coro em meio à torcida .

Nas redes sociais, por exemplo, circulam vídeos de ingleses cantando a música “10 German Bombers”. O cântico faz referência direta aos combates aéreos entre britânicos e alemães durante a Segunda Guerra Mundial.

O primeiro ministro britânico Rishi Sunak e o técnico Gareth Southgate se pronunciaram pedindo que a torcida se concentrasse em apoiar a seleção do país, ao invés de provocar os anfitriões da Euro.

Em 2019, a Federação inglesa chegou a lançar um vídeo em uma campanha chamada “Don’t Be That Idiot” (Não Seja Aquele Idiota), reforçando o pedido para que o torcedor se comportasse, fazendo do esporte um ambiente mais positivo.

O diretor da FA na época, Martin Glenn, comentou:

— Não podemos ignorar alguns dos comportamentos anti-sociais e vergonhosos que voltaram ao futebol. Existem milhares de torcedores brilhantes onde quer que as nossas equipes joguem, mas há um problema crescente que precisa ser resolvido. Todos temos a responsabilidade de representar o país da forma correta e é isso que estamos tentando reforçar.

Em entrevista à ESPN do Reino Unido na época, o ex-chefe de segurança da FA, Tony Conniford, também comentou:

— Se você voltar à Euro 2004, verá muitas mulheres e crianças na torcida. Agora procure por eles em um jogo fora de casa e o que verá é um grupo predominantemente branco, de meia-idade, idosos ou adolescentes. Temos pessoas que seguiam a seleção da Inglaterra nos velhos tempos vindo até nós dizendo: ‘Vocês precisam resolver isso, eles não se importam!’. Acabamos com um grupo que parece não ter nenhum limite quanto ao que é ou não aceitável.

Mas e na Inglaterra? Atos de hooliganismo ainda acontecem nas principais ligas de futebol do país? 

A Inglaterra é referência no combate à violência no futebol. Depois do ápice do hooliganismo nos anos 1980, o país superou as dificuldades. Hoje, dificilmente existe aquele tipo de hooligan como os dos filmes, que se reúnem e saem na rua focados em brigar com rivais.

Apesar disso, os crimes relacionados ao futebol crescem no país da Premier League, e números divulgados pelo governo britânico confirmam isso. Em 2023, o número de detenções em jogos de futebol na Inglaterra e no País de Gales atingiu seu recorde nos últimos nove anos.

Foram 2.264 prisões realizadas durante 2022/23, registrando um aumento de 66 casos em relação à temporada anterior (2021/22).

Houve também 682 novas ordens de banimento — aquelas que proíbem torcedores com antecedentes criminais ligados ao futebol de frequentarem jogos. O aumento foi de 32% em comparação com 21/22, e o maior número emitido desde 2010/11 e a maioria para homens entre 18 e 34 anos.

Quais seriam as causas do hooliganismo?

O que mais se debate por aqui são três causas: o consumo de drogas como a cocaína, os efeitos pós-Covid e crise do custo de vida.

O Reino Unido é o campeão no uso da cocaína em comparação aos integrantes da União Europeia, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). E como mostramos nesta reportagem especial, o uso é muito comum em estádios e nos meios de transporte a caminho dos jogos. A cocaína também se tornou mais barata com o passar do tempo e o famoso “pint” de cerveja mais caro.

Os efeitos pós-covid e o comportamento antissocial de torcedores também é pauta entre sociólogos e especialistas.

Em entrevista ao podcast “The Sociology Show”, o sociólogo Isaac Hoff, da Universidade de Glasgow avaliou:

— Foram quase dois anos vivendo dentro de casa sem a oportunidade de se encontrar com alguém pessoalmente, sem a chance de sair e fazer as coisas que gostamos. Então, vimos muita gente saindo pela primeira vez depois de anos colocando tudo para fora.

Outro fator mencionado por Hoff está ligado a fatores político-econômicos, uma vez que o Reino Unido enfrentou uma recessão e o preço de tudo acabou subindo, como aluguel, conta de energia, supermercado, dentre outros.

— Estamos vivendo dias desafiadores para muita gente. Há muita frustração com relação à crise no custo de vida e na política. Algumas pessoas acabam expressando isso por meio da violência.

Isaac Hoff, da Universidade de Glasgow, ao podcast “The Sociology Show”

A pandemia também afetou a qualidade dos “stewards”, os seguranças que trabalham nos estádios e arredores. A falta de eventos esportivos obrigou profissionais qualificados e experientes a migrarem para outras carreiras.

No documentário “A Final: Caos em Wembley”, disponível na Netflix, os diretores Rob Miller e Kwabena Oppong detalham o tumulto da invasão de milhares de torcedores na final da Eurocopa 2020. No documentário também é possível observar esse comportamento cada vez mais descontrolado e imprevisível por parte dos hooligans.

Rodolfo Morsoletto
Rodolfo Morsoletto

Jornalista nascido e formado no interior de São Paulo, com passagens por Terra e OneFootball. Foi repórter de rádio, setorista do XV de Piracicaba e cobria jogos do Campeonato Paulista da Série A3. Morou por um tempo na Itália antes de desembarcar em Londres, onde está desde 2018. Atualmente é correspondente da PL Brasil em território inglês e já esbarrou com José Mourinho andando sozinho pelas ruas da capital britânica.

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