Entre hooligans e pioneirismo, Inglaterra e Escócia dividem rivalidade histórica

Escócia e Inglaterra protagonizaram a primeira partida entre seleções em 1872

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Arthur Jones/Evening Standard/Getty Images

“O relatório da Associação Escocesa de Futebol sobre uma partida de 1877, entre Glasgow e Sheffield, deixa claro: ‘O jogo foi muito bem disputado, e a vitória ficou com a melhor equipe, ninguém pode negar. Mas que foi um jogo bonito, abundante em demonstrações de condução combinada, o que costuma distinguir um time escocês de todos os outros'”, trecho do livro “A Pirâmide Invertida”, de Jonathan Wilson.

Os ingleses foram os pioneiros na época em que o futebol começava a respirar. Como o jogo não tinha forma e levava apenas a prática em consideração, a teoria tomou espaço com os anos e o esporte se tornou vistoso. Já o futebol escocês se autodenominava melhor, com qualidade e valorização do passe.

Além dos motivos “extracampo”, – já que não existia futebol e a disputa era pelo poder na Europa – Inglaterra e Escócia foram precursores do esporte. Assim, a rivalidade nasceu e perdura até hoje. E já que os dois países desenvolveram o futebol, protagonizaram a primeira partida de futebol entre seleções, em 1872.

Anthony Devlin/Getty Images

Como nasceu a rivalidade Inglaterra x Escócia

Os vikings, nome dado ao povo da região da Escandinávia, eram exploradores e costumavam saquear e invadir territórios durante o século VII até o século XI. Com isso, Kenneth I juntou os Pictos (habitantes da Escócia) e Escotos (habitantes gaélicos da Scotia, atual Irlanda) para fundar a monarquia escocesa.

O rei da Inglaterra na época era Eduardo I. Com essa novidade na Escócia, ele resolveu invadir o país para declarar o próprio poder em 1296. Isso gerou guerras pró-independência, que foram até 1357. A vitória do exército escocês, liderado por Robert Bruce, aconteceu em 1314 e foi a mais importante na luta pela libertação da Escócia.

A independência foi consolidada em 1502, com um tratado de paz assinado pelos reis da Inglaterra e Escócia. Porém, em 1707, o Tratado da União deu origem ao Reino Unido. A decisão foi tomada com base nos interesses dos países. Os historiadores chamam essa relação de “casamento sem amor”.

O clássico e a bola rolando

Escócia e Inglaterra protagonizaram a primeira partida entre seleções. O jogo aconteceu em 1872, no estádio de críquete West of Scotland.

A Escócia montou a estratégia no 1-2-7, esquema que aproveitava o ataque e se defendida com um jogador à frente do goleiro. Entretanto, a Inglaterra era a favorita. Os especialistas indicavam a vantagem física como chave para vencer o duelo

Porém, as equipes empataram sem gols. Nos jornais, as matérias falavam sobre a vantagem de peso e velocidade da Inglaterra. Porém, a Escócia tinha a união da equipe como ponto forte. Por fim, o jogo contribuiu para a adoção do passe ao invés de apenas a condução. Era o marco do crescimento do futebol.

Uma superioridade a ser batida

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Arthur Jones/Evening Standard/Getty Images

No começo, o clima na arquibancada era amistoso e não houve registros de confusões. Como havia ao menos um clássico por ano, a Inglaterra começou a se consolidar nas partidas. De 1889 até 1896, a seleção inglesa venceu todos os jogos contra a Escócia.

Já que as equipes eram gigantes a serem batidos, elas inspiraram outros países a investirem no futebol. Entretanto, havia o sentimento de superioridade e tanto Escócia quanto Inglaterra resolveram ignorar o convite para participar da Copa do Mundo de 1930. Isso abalou a hegemonia das duas seleções, já que não era mais o único clássico.

A violência do hooliganismo

Os hooligans tomaram espaço no esporte e propuseram fanatismo e violência. Visto que os fanáticos se guiavam pela ideia de que o apoio deveria ser violento, os atos propagavam vandalismo.

Com os encontros entre Inglaterra e Escócia cada vez mais frequentes, a briga que deveria ser apenas pela bola se tornou um evento nas partidas. Levando-se em consideração que os hooligans surgiram na terra da rainha, era fácil perceber qual lado era mais agressivo.

O episódio mais marcante aconteceu em 1977. A Escócia venceu o clássico por 2 a 1, pelo Home British Championship (Campeonato Interbritânico). Dessa forma, os torcedores escoceses invadiram o campo para comemorar o triunfo.

Já que a polícia não estava pronta para lidar com a situação, as organizações criaram uma limitação maior para torcidas visitantes posteriormente. Apesar da bagunça, não houve registros de atos violentos após a partida.

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O clássico hoje

Entre as equipes, são 113 jogos. Ao todo, a Inglaterra venceu 47 jogos e a Escócia 41. Apesar de ser o clássico mais antigo entre seleções, acabou perdendo força pela qualidade de outros jogos ao redor do mundo. Além do mais, a seleção da terra da rainha não perde desde 1999 e engatou o favoritismo há anos.

O último encontro das seleções ocorreu em junho de 2016 nas Eliminatórias para a Copa do Mundo. Na ocasião, o jogo terminou empatado em 2 a 2, com gols de Harry Kane e Chamberlain para a Inglaterra, e Leigh Griffiths para a Escócia.

Apesar do clássico não ter o mesmo protagonismo de anos atrás, a lembrança do pioneirismo permanece no Reino Unido. Ademais, é possível apreciar o jogo pelo desenvolvimento da prática e da teoria.