Era pós-Ferguson: onde está a glória do Manchester United?

Desde saída do escocês, dias gloriosos do United jamais voltaram

era pós ferguson

O Manchester United vive nos dias atuais nas sombras do seu passado. Sem vencer a Premier League desde o derradeiro ano de Sir Alex Ferguson, os Red Devils não souberam suprir a ausência do antigo comandante e aparentam estar “perdidos” atualmente. José Mourinho é o terceiro treinador na “era pós-Ferguson”, e mesmo sendo ele o que conseguiu maior sucesso, ainda deixa muito o que desejar.

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Quem disputou mais jogos na Premier League?

David Moyes, o primeiro a enfrentar essa enorme tarefa, falhou miseravelmente. O escocês sequer terminou 2013-14 no comando do clube – função ficou por conta do ídolo Ryan Giggs, que chegou a jogar e comandar a equipe.

Naquela temporada, o United terminou na sétima colocação – primeira vez que ficava abaixo da 3ª posição na era Premier League -, longe das competições europeias e colecionando fracassos em duelos contra grandes rivais como Liverpool e Manchester City.

Após ele, Louis Van Gaal foi o escolhido para assumir a função. O holandês chegou com respaldo, visto que já havia realizado grandes trabalhos no futebol mundial e acabara de conquistar o terceiro lugar na Copa do Mundo com a seleção do seu país.

Diferentemente do antecessor, o qual só teve Marouane Fellaini e Juan Mata como reforços, o novo comandante gastou bastante nas duas temporadas em que esteve no comando.

Ao total, Van Gaal gastou um montante de 351,35 milhões de euros de 2014 a 2016, segundo o site Transfermarkt. Angel Di María, Bastian Schweinsteiger e Falcão foram alguns dos grandes nomes que vieram para o clube, mas não vingaram.

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Holandês foi mais um a deixar Old Trafford cabisbaixo (Foto: Clive Brunskill/Getty Images)

Mesmo com tanto dinheiro gasto, o holandês não conseguiu grandes feitos no lado vermelho de Manchester. Na primeira temporada, findou com um quarto lugar na liga e pôs o time novamente na Champions League. No entanto, não conquistou nenhuma taça.

Na segunda temporada, um título enfim veio, mas com as características de um prêmio de consolação. Isso porquê, a equipe foi eliminada na fase de grupos da UCL, terminou a PL na quinta posição, além de ter sido eliminada para o Liverpol nas oitavas de final da UEL.

Sem ter conseguido disputar – de fato – algum título grande, os comandados de Van Gaal sagraram-se vencedores da Copa da Inglaterra, o 12º título dos Red Devils na competição. O que não foi suficiente pra mantê-lo no cargo, sendo demitido ao fim da temporada.

José Mourinho, campeão de tudo, foi o escolhido para ser o novo treinador do clube. E é aí que entramos de forma concreta na estranheza do momento vivido pelo clube.

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Chegada de José Mourinho e o caos interno

(Foto: Dan Mullan/Getty Images)

O português trouxe o clube de volta aos grandes holofotes, mas nem sempre pelo melhor motivo. O clube gastou, venceu, mas principalmente, não convenceu.

Até aqui, segundo o site Transfermarkt, já gastou um total de 432,1 milhões de euros. Tudo isso dentro de um período de três temporadas sob o comando do clube – com a terceira temporada em andamento e a janela de inverno próxima a abrir, esse número ainda pode subir.

Nomes como Paul Pogba, Nemanja Matic e Romelu Lukaku foram contratados – com destaque para o francês, maior valor pago em um atleta à época – na tentativa de elevar novamente o patamar dos Red Devils, colocando-o dentre os melhores elencos do Velho Continente.

E eles não foram os únicos grandes nomes a serem trazidos. Zlatan Ibrahimović veio para o clube na primeira temporada de Mourinho em Old Trafford, assumindo o protagonismo da equipe ao lado de Pogba e conquistando títulos, mas ainda deixando a desejar num contexto geral.

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Apostas erradas no mercado

Outro nome vindo recheado de expectativas foi o do armênio Henrikh Mkhitaryan. Após fazer história no Borussia Dortmund, o meia desembarcou em Manchester, mas jamais alçou os grandes voos desejados.

Com dificuldades para se adaptar na Inglaterra, ele ajudou o clube a vencer a Copa da Liga e a inédita Europa League, porém nunca fixou-se como pilar do elenco e foi trocado com o Arsenal na última janela de inverno por Alexis Sánchez.

O chileno é mais um da galeria de jogadores desta era que não se encaixam no estranho United. Mais uma vez, enormes expectativas, altíssimos valores de luvas e salários, mas jamais conseguiu firmar-se no time.

Essa é a tônica do United atual: o clube investe, grandes nomes chegam com enormes expectativas, realizam feitos notáveis, mas nunca alcançam o patamar do tamanho das esperanças de todos.

Obviamente isso passa pelas decisões do comandante português. O gajo possui seus méritos de ter conquistado, em sua primeira temporada o inédito título da Europa League e posto o time de volta a Champions League, mas é pouco.

A vida em Manchester não é fácil para Paul (Foto: Charlotte Wilson/Offside/Getty Images)

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O mesmo foi eliminado nas oitavas de final da UCL para o Sevilla, em pleno Old Trafford, na temporada passada. Ainda em 2017-18, Mourinho foi vice-campeão da Premier League, porém jamais disputou o título de fato.

Isso é dito porque o rival e campeão, Manchester City, esteve sempre com folgas na ponta da tabela, sagrando-se vencedor com a histórica campanha de 100 pontos.

Não é acaso tantos jogadores chegarem ao lado vermelho de Manchester e não desempenharem tudo aquilo que podem. O cenário fornecido a eles pode até empolgar de início, porém o desfecho é sempre o mesmo: decepção.

Ed Woodward, CEO do clube, aparenta estar mais preocupado em mostrar bons desempenhos financeiros à família Glazer – dona do clube – do que em conquistar títulos.

Aliado a isso, a postura do treinador, que semana após semana, repercute na imprensa por uma razão diferente. No entanto, a presença nos holofotes nunca foi por um grande desempenho futebolístico.

O tão vencedor Manchester United acostumou-se a jogar mal, a ver um de seus maiores rivais, Liverpool, figurar entre os protagonistas do futebol mundial e por pouco não conquistar a Champions League.

Acostumou-se com polêmicas de bastidores envolvendo o seu comandante e suas estrelas – Pogba parece cada vez mais não se entender com José, e sua saída está cada vez mais próxima.

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Problemas e mais problemas

O trabalho do treinador é a causa central dos problemas do clube. Ainda que, como já dito, a diretoria não pareça estar 100% focada em conquistas futebolísticas, o português não oferece condições para a construção de um cenário vencedor no clube.

A imagem dele aparenta estar cada vez mais desgastada perante os seus jogadores. Não só pelas polêmicas de bastidores, como também pelas constantes declarações em detrimento do elenco que possui – entrevistas reclamando da ausência de reforços na atual temporada tornaram-se rotina.

É um conjunto de fatores que só gera prejuízos. O ambiente é tóxico e o modelo de jogo inexistente, uma vez que o português, conhecido por montar boas defesas, salva-se muito mais pelos milagres do arqueiro De Gea, do que por solidez defensiva.

O time passa a sensação de que não realiza treinamentos, apresentando sempre um repertório pobre nas partidas, conquistando vitórias muitas vezes por relapsos de qualidade dos seus jogadores – um elenco tão caro, obviamente é superior diante da maioria.

A diretoria cometeu seus erros – como o baixo investimento na atual temporada – mas não é a protagonista deste cenário caótico. Se não o treinador, responsável máximo por comandar o grupo de jogadores, a quem mais caberia esse fardo?

Grupo de jogadores este, detentor de vários nomes de grandes seleções. Não à toa, o torcedor dos Red Devils acostumou-se a ver seus jogadores brilharem por seus países, mas decepcionarem enquanto vestem o manto vermelho.

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Exemplos máximos disso são Lukaku e Pogba. O primeiro, foi um dos destaques dos belgas na Copa do Mundo e é o maior artilheiro do seu país. O segundo foi campeão da Copa do Mundo com a França, sendo titular absoluto em toda a campanha.

No United, Lukaku jamais foi o mesmo atacante com faro de gol tal qual fora no Everton. Pogba, considerado por muitos um dos melhores meias do mundo, desfila qualidade quando em campo, mas o desgaste com o comandante atraiu para o mesmo a estigma de preguiçoso – marcando presença no banco de reservas em alguns embates.

Rashford não evolui…

Rashford, revelado pelo clube e atual camisa 10 da equipe, é mais um a ficar abaixo das expectativas. Ganhando destaque no profissional ainda com Van Gaal, o inglês não consegue se estabilizar na equipe.

Quando defendendo a seleção da Inglaterra, o atacante aparenta sentir um peso menor, desempenhando em um nível acima, com mais maturidade e eficácia nas suas ações.

A ênfase dada em Rashford possui uma razão específica. Desde a chegada de Mourinho, ele oscila e mostra constantemente nas partidas um grave defeito: dificuldades em finalizar as jogadas, além de repetitivas tomadas de decisões ruins.

Sendo ele considerado por muitos um diamante a ser lapidado, espera-se que um comandante cascudo como Mou consiga extrair dele o seu melhor, certo? Por enquanto, até aqui, isso não apareceu.

Claro que não seria justo apontar tudo para o português, mas o mesmo não consegue criar um ambiente de evolução, e isso respinga claramente em seus jogadores.

Crescimento de Martial

Por último, mas não menos importante, Martial. Jovem e com um faro de gol sem igual, o francês está na lista daqueles os quais passaram por decisões estranhas do treinador.

Em sua primeira temporada sob os comandos de José, não conseguiu se adaptar e a sua saída parecia concretizada. O francês, no entanto, sempre demonstrou-se muito grato e com um apreço grande pelo clube, ficando para a temporada seguinte.

Um dos jogadores mais promissores do mundo em sua posição, Marital nem sempre recebe os aplausos que merece (Foto: Martin Rickett/PA Images via Getty Images)

Nela, ele era um dos destaques da equipe – tanto na Premier League, quanto na Champions – até a chegada de Sánchez. Após o chileno desembarcar em Old Trafford, Mourinho praticamente extinguiu o espaço do camisa 11 no clube, priorizando o novo camisa 7 – o qual jamais desempenhou o esperado.

Na atual temporada, sete gols nos últimos sete jogos como titular. Mas, ainda assim, Martial não parece ser absoluto aos olhos do professor. Enquanto jogadores como Smalling e Matic – na atual temporada – repetem sequenciadas atuações ruins, o francês assumiu a responsabilidade e conquistou pontos para o clube.

No entanto, isso nem sempre parece ser valorizado. Não só com ele, mas Luke Shaw, Andreas Pereira e Fred também passam por esse julgamento árduo do gajo, assim como a maior estrela do time, Paul Pogba.

Jogadores os quais claramente destoam tecnicamente, mas que por nem sempre são vistos com bons olhos por Mourinho. Fellaini, Young e os já citados Smalling e Matic não parecem passar por esse “pente fino.

Era pós-Ferguson é decadência?

Em caso de especificar cada um que passa por uma avaliação duvidosa, o roteiro será o mesmo: devido a alguma inconstância apresentada pelo mesmo, o treinador reduz exponencialmente as suas oportunidades de sequência de jogo. Ou seja, é impossível criar um ambiente positivo dessa forma.

Quem destoa tecnicamente não é priorizado, mas sim julgado por suas falhas, ao mesmo tempo em que aqueles com claro déficit técnico seguem jogando semana após semana.

O nível de exigência não é o mesmo dentro do elenco. De um lado, jogadores que podem elevar o patamar do clube, toná-lo protagonista mais uma vez; do outro, um grupo aparentemente “protegido”, visto que eles desempenham repetidas vezes abaixo do necessário, mas não perdem seu espaço nos jogos.

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Se o cenário tático já não é promissor, o ambiente é claramente tóxico, a forma de tratar os seus subordinados não é a mesma e os objetivos não estão sendo obtidos, o culpado é José Mourinho.

A música tão cantada pela torcida, “glory, glory Man United”, parece cada vez mais ficar no saudosismo do torcedor, pois no contexto atual, as glórias estão cada vez mais distantes do cenário vermelho de Manchester.