Edu Gaspar: como o meia superou dramas para vencer no Arsenal

De problema com passaporte à morte da irmã, ex-meia fez bonito nos Gunners

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Edu Gaspar
LONDON, ENGLAND - OCTOBER 10: Edu a former Arsenal player and now sporting director of Brazil side Corinthians poses during a visit to Emirates Stadium on October 10, 2011 in London, England. (Photo by David Price/Arsenal FC via Getty Images)

Ele é foi o primeiro brasileiro a conquistar o Campeonato Inglês. Além disso, ele fez parte de um time campeão invicto, fato inédito na era moderna da elite do futebol inglês. Edu Gaspar precisou superar três grandes problemas na sua chegada ao Arsenal, mas não desistiu e lutou para vencer na Inglaterra.

PL Brasil entrevista Edu Gaspar, ídolo do Arsenal

WENGER E A MENTALIDADE VENCEDORA

O Arsène colocava na nossa cabeça – e também é uma coisa que marcou muito pra nós na época – que tínhamos equipe pra ganhar em qualquer lugar, desde que tivéssemos uma mentalidade de vencedor. Tinha que entrar em campo já sabendo que, se jogar bem, vai ganhar.

Nós sentíamos, nós entrávamos em campo com um respeito tão grande do adversário que parecia que o adversário já sabia que ia perder. Então isso para nós era mais motivante ainda.

Os caras já olhavam e falavam: ‘Vão vir esses caras aí e não vai dar, não vai dar…' e para nós foi muito positivo isso. Então o Arsène colocava: ‘Vamos jogar em casa? Vamos jogar igual a gente joga fora'. Criamos já um respeito e isso daí foi criando uma áurea interna que até nós, quando saímos do campo… Um olhava para o outro e falava: ‘Meu pai, vamos atropelar!'

PL Brasil: Ainda nessa questão do Leicester, vale lembrar que, quando você jogou a partida da Champions contra o Chelsea, o técnico era o Ranieri. Então eu queria te perguntar o seguinte, Edu: o que é mais difícil? Um time grande e forte como o Arsenal ganhar invicto ou um time pequeno ganhar o campeonato?

Edu Gaspar: “Boa pergunta, viu. Olha, certamente, a dificuldade dos dois é incrível. Se você puxar da história, pra te dar um pouquinho mais de argumentos, quanto tempo não tinha acontecido o que aconteceu com o Arsenal na nossa época?

Foi puxar na história lá atrás em 1600 e bolinhas (risos). E era outro futebol, né. Menos jogos, etc. E um time como o Leicester numa liga tão forte, tão competitiva conseguir também uma façanha como essa, com menos recursos… é um bom comparativo. Acho que a dificuldade dos dois é bem similar.”

PL Brasil: Dessa época que você ia jogar, principalmente fora de casa – claro que tinha a grandeza dos clássicos – mas a Inglaterra tem essa peculiaridade de jogos com times pequenos. Copa da Inglaterra você ia jogar com time da quinta divisão, quarta… Desses adversários tinha algum que você pensava: ‘putz, a gente vai jogar naquele buraco, meu deus do céu, difícil de jogar…'?

Edu Gaspar: Leeds! Sem dúvida, era difícil de jogar contra o Leeds. Everton… era terrível jogar contra eles. Terrível. Eu lembro que eu falava: ‘Parece que os ingleses querem te dar a bola, pra depois te dar porrada e depois tomar a bola. Eles não querem tentar jogar. Era chutão.

PL Brasil: Muitas pessoas buscam entender qual é o segredo do Wenger. Porque assim como teve o Ferguson no Manchester United, o Wenger foi exemplo de longevidade. Qual é a grande qualidade do Wenger como treinador? É um cara da parte tática, da questão humana? Por que que ele tem esse sucesso de se manter no Arsenal por tanto tempo?

Edu Gaspar: Para mim – e eu posso falar pessoalmente – o que me chamou mais atenção foi o lado humano que ele demonstrou no pior momento que eu pude viver na minha vida pessoal e profissional, que foi a perda da minha irmã.

Ele foi o cara que entendeu essa dificuldade, pois sabia que eu não ia conseguir desenvolver o meu melhor trabalho dentro de campo porque fora as coisas não estavam bem. Nesse sentido, tive que levar toda a minha família pra Inglaterra: meu pai, minha mãe, meu irmão… para todos ficarem suportando um ao outro. Assim, o dia a dia depois do treino é muito duro.

Dessa forma, o Arsène entendeu e sempre me chamava para saber como que eu estava, nunca falava da parte tática ou técnica. Queria saber como eu estava com a minha cabeça, se estava concentrado, se precisava de alguma coisa, se o Arsenal poderia ajudar com qualquer coisa. Convidava meus pais para irem ao treino para quebrar essa sensação ruim de perda familiar.

Então, para mim, o Arsène, taticamente, precisa nem falar nada, porque é um cara que revolucionou – na época era 2000 – a forma de jogar, no 4-4-2, na forma que ele colocava a equipe em campo. Mas o lado pessoal, sem dúvida nenhuma, foi o diferencial e hoje levo pra minha vida, inclusive, no cara que sou hoje.

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  • Esquadrões Imortais – Arsenal 2003/2004

PL Brasil: Edu, nesse time dos Invencíveis do Arsenal, muita gente fala da contribuição do Henry, do Vieira… Mas tinha algum outro jogador muito importante para o time mas não foi normalmente muito lembrado? Ou era um conjunto?

Edu Gaspar: Não, era o conjunto. O conjunto era sensacional. É lógico que, dentro de um conjunto, quando todos estão trabalhando bem, se destacam o Henry por fazer mais gols, o Bergkamp pela classe que tinha, o Patrick Vieira no meio-campo… enfim, o time era sensacional. O conjunto era muito forte.

Nós tínhamos uma comissão técnica excepcional, um grupo de atletas excepcional. E eu acho que foi a engrenagem perfeita pra que a gente pudesse conseguir um título tão importante como foi a era dos Invencíveis.

WENGER E A MENTALIDADE VENCEDORA

O Arsène colocava na nossa cabeça – e também é uma coisa que marcou muito pra nós na época – que tínhamos equipe pra ganhar em qualquer lugar, desde que tivéssemos uma mentalidade de vencedor. Tinha que entrar em campo já sabendo que, se jogar bem, vai ganhar.

Nós sentíamos, nós entrávamos em campo com um respeito tão grande do adversário que parecia que o adversário já sabia que ia perder. Então isso para nós era mais motivante ainda.

Os caras já olhavam e falavam: ‘Vão vir esses caras aí e não vai dar, não vai dar…' e para nós foi muito positivo isso. Então o Arsène colocava: ‘Vamos jogar em casa? Vamos jogar igual a gente joga fora'. Criamos já um respeito e isso daí foi criando uma áurea interna que até nós, quando saímos do campo… Um olhava para o outro e falava: ‘Meu pai, vamos atropelar!'

PL Brasil: Ainda nessa questão do Leicester, vale lembrar que, quando você jogou a partida da Champions contra o Chelsea, o técnico era o Ranieri. Então eu queria te perguntar o seguinte, Edu: o que é mais difícil? Um time grande e forte como o Arsenal ganhar invicto ou um time pequeno ganhar o campeonato?

Edu Gaspar: “Boa pergunta, viu. Olha, certamente, a dificuldade dos dois é incrível. Se você puxar da história, pra te dar um pouquinho mais de argumentos, quanto tempo não tinha acontecido o que aconteceu com o Arsenal na nossa época?

Foi puxar na história lá atrás em 1600 e bolinhas (risos). E era outro futebol, né. Menos jogos, etc. E um time como o Leicester numa liga tão forte, tão competitiva conseguir também uma façanha como essa, com menos recursos… é um bom comparativo. Acho que a dificuldade dos dois é bem similar.”

PL Brasil: Dessa época que você ia jogar, principalmente fora de casa – claro que tinha a grandeza dos clássicos – mas a Inglaterra tem essa peculiaridade de jogos com times pequenos. Copa da Inglaterra você ia jogar com time da quinta divisão, quarta… Desses adversários tinha algum que você pensava: ‘putz, a gente vai jogar naquele buraco, meu deus do céu, difícil de jogar…'?

Edu Gaspar: Leeds! Sem dúvida, era difícil de jogar contra o Leeds. Everton… era terrível jogar contra eles. Terrível. Eu lembro que eu falava: ‘Parece que os ingleses querem te dar a bola, pra depois te dar porrada e depois tomar a bola. Eles não querem tentar jogar. Era chutão.

PL Brasil: Muitas pessoas buscam entender qual é o segredo do Wenger. Porque assim como teve o Ferguson no Manchester United, o Wenger foi exemplo de longevidade. Qual é a grande qualidade do Wenger como treinador? É um cara da parte tática, da questão humana? Por que que ele tem esse sucesso de se manter no Arsenal por tanto tempo?

Edu Gaspar: Para mim – e eu posso falar pessoalmente – o que me chamou mais atenção foi o lado humano que ele demonstrou no pior momento que eu pude viver na minha vida pessoal e profissional, que foi a perda da minha irmã.

Ele foi o cara que entendeu essa dificuldade, pois sabia que eu não ia conseguir desenvolver o meu melhor trabalho dentro de campo porque fora as coisas não estavam bem. Nesse sentido, tive que levar toda a minha família pra Inglaterra: meu pai, minha mãe, meu irmão… para todos ficarem suportando um ao outro. Assim, o dia a dia depois do treino é muito duro.

Dessa forma, o Arsène entendeu e sempre me chamava para saber como que eu estava, nunca falava da parte tática ou técnica. Queria saber como eu estava com a minha cabeça, se estava concentrado, se precisava de alguma coisa, se o Arsenal poderia ajudar com qualquer coisa. Convidava meus pais para irem ao treino para quebrar essa sensação ruim de perda familiar.

Então, para mim, o Arsène, taticamente, precisa nem falar nada, porque é um cara que revolucionou – na época era 2000 – a forma de jogar, no 4-4-2, na forma que ele colocava a equipe em campo. Mas o lado pessoal, sem dúvida nenhuma, foi o diferencial e hoje levo pra minha vida, inclusive, no cara que sou hoje.

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  • Esquadrões Imortais – Arsenal 2003/2004

PL Brasil: ‘Logo na temporada seguinte você já ganha a Premier League – o primeiro brasileiro a ganhar – e a FA Cup também. Como que foi esse salto? De vir lá de baixo pra ganhar tudo?'

Edu Gaspar: Não vou negar que é uma conquista pessoal, porque eu entrei para a história como o primeiro brasileiro da história do futebol inglês a ganhar um título. Pra mim, sem dúvida, foi muito bacana.

O Arsène me ajudou muito também. O Arsène foi um cara que me pegou como um filho ali. Tanto é que hoje nós temos um carinho recíproco. A gente lembra das histórias, de tudo que nós passamos juntos. Um cara que esteve do meu lado. Me levou pro lado humano e não só do profissional.

Entendeu o momento que eu estava passando, que aqueles seis meses iniciais iriam ser duros mesmo. Foi um cara que me abraçou. E depois (me levou) a conquistar a Premier, a conquistar o doblete – as duas ligas. E aí começa a te dar mais confiança, você fica um pouquinho mais “parrudo”… e aí deslancha, né. Vai embora.”

PL Brasil: Edu, na temporada seguinte – do ano que você ganhou a Premier League – foi a era dos Invencíveis que foi a melhor temporada do Arsenal e a sua pessoal também, não foi? Você fez três gols no campeonato, dois contra o Chelsea – um lá e um no Highbury – e você foi o décimo segundo titular. Era um cara que entrava em quase todos os jogos. Foi a sua melhor temporada na Inglaterra?

Edu Gaspar: Foi. Se você pegar em termos estatísticos, fiz muitos jogos. Jogos importantes. O Arsène rodava muito o time, porque nós estávamos brigando por tudo: estávamos jogando a Liga, a Copa, a Champions… estávamos jogando tudo.

Então ele estava muito bem com a equipe nos três campeonatos. Pra mim, sem dúvida nenhuma, essa temporada foi muito boa. Certamente, foi muito marcante.

MAIOR RIVAL, ELIMINAÇÃO PARA O CHELSEA E OS INVINCIBLES

Edu Gaspar
Credit: Arsenal Football Club / Stuart MacFarlane.

PL Brasil: Eu citei o Chelsea nos dois que você fez e, no mesmo ano, na Champions, vocês perdem para eles nas quartas de final com gol do Bridge no finalzinho do jogo. O Chelsea foi o rival que mais te marcou na Inglaterra?.

Edu Gaspar: Pra mim, foi o Manchester United. O Manchester foi o que mais me marcou. E esse jogo – essa competição, no caso – se a gente passa pelo Chelsea, a gente ganharia a Champions League. Porque o Porto foi campeão nessa época e o nosso time tava realmente num momento espetacular. Mas é aí o que eu falei.

Nós estávamos brigando por três títulos: brigando pela FA, brigando pela Premier, brigando pela Champions. E aí nós fizemos uma sequência muito grande de jogos decisivos. Da Copa da Liga – brigando pelo título – e da ida e volta da Champions. E esse jogo foi o quinto decisivo nosso.

No meu ponto de vista, como jogou praticamente a mesma equipe nesses cinco jogos decisivos, nós tivemos uma queda de rendimento no segundo tempo. Tanto é que nós perdemos para o Chelsea, para mim, no segundo tempo. Talvez se tivesse uma estratégia um pouquinho melhor ali… não tem jeito.

Brigou por tudo, alguma coisa ficou para trás. E a Champions infelizmente ficou por causa dessa questão. Foram muitos jogos decisivos e no final nós fomos pegos de surpresa pelo Chelsea. Mas eu acho que nosso time era mais time que o Chelsea pra passar.

O CONJUNTO É A DIFERENÇA

PL Brasil: Edu, nesse time dos Invencíveis do Arsenal, muita gente fala da contribuição do Henry, do Vieira… Mas tinha algum outro jogador muito importante para o time mas não foi normalmente muito lembrado? Ou era um conjunto?

Edu Gaspar: Não, era o conjunto. O conjunto era sensacional. É lógico que, dentro de um conjunto, quando todos estão trabalhando bem, se destacam o Henry por fazer mais gols, o Bergkamp pela classe que tinha, o Patrick Vieira no meio-campo… enfim, o time era sensacional. O conjunto era muito forte.

Nós tínhamos uma comissão técnica excepcional, um grupo de atletas excepcional. E eu acho que foi a engrenagem perfeita pra que a gente pudesse conseguir um título tão importante como foi a era dos Invencíveis.

WENGER E A MENTALIDADE VENCEDORA

O Arsène colocava na nossa cabeça – e também é uma coisa que marcou muito pra nós na época – que tínhamos equipe pra ganhar em qualquer lugar, desde que tivéssemos uma mentalidade de vencedor. Tinha que entrar em campo já sabendo que, se jogar bem, vai ganhar.

Nós sentíamos, nós entrávamos em campo com um respeito tão grande do adversário que parecia que o adversário já sabia que ia perder. Então isso para nós era mais motivante ainda.

Os caras já olhavam e falavam: ‘Vão vir esses caras aí e não vai dar, não vai dar…' e para nós foi muito positivo isso. Então o Arsène colocava: ‘Vamos jogar em casa? Vamos jogar igual a gente joga fora'. Criamos já um respeito e isso daí foi criando uma áurea interna que até nós, quando saímos do campo… Um olhava para o outro e falava: ‘Meu pai, vamos atropelar!'

PL Brasil: Ainda nessa questão do Leicester, vale lembrar que, quando você jogou a partida da Champions contra o Chelsea, o técnico era o Ranieri. Então eu queria te perguntar o seguinte, Edu: o que é mais difícil? Um time grande e forte como o Arsenal ganhar invicto ou um time pequeno ganhar o campeonato?

Edu Gaspar: “Boa pergunta, viu. Olha, certamente, a dificuldade dos dois é incrível. Se você puxar da história, pra te dar um pouquinho mais de argumentos, quanto tempo não tinha acontecido o que aconteceu com o Arsenal na nossa época?

Foi puxar na história lá atrás em 1600 e bolinhas (risos). E era outro futebol, né. Menos jogos, etc. E um time como o Leicester numa liga tão forte, tão competitiva conseguir também uma façanha como essa, com menos recursos… é um bom comparativo. Acho que a dificuldade dos dois é bem similar.”

PL Brasil: Dessa época que você ia jogar, principalmente fora de casa – claro que tinha a grandeza dos clássicos – mas a Inglaterra tem essa peculiaridade de jogos com times pequenos. Copa da Inglaterra você ia jogar com time da quinta divisão, quarta… Desses adversários tinha algum que você pensava: ‘putz, a gente vai jogar naquele buraco, meu deus do céu, difícil de jogar…'?

Edu Gaspar: Leeds! Sem dúvida, era difícil de jogar contra o Leeds. Everton… era terrível jogar contra eles. Terrível. Eu lembro que eu falava: ‘Parece que os ingleses querem te dar a bola, pra depois te dar porrada e depois tomar a bola. Eles não querem tentar jogar. Era chutão.

PL Brasil: Muitas pessoas buscam entender qual é o segredo do Wenger. Porque assim como teve o Ferguson no Manchester United, o Wenger foi exemplo de longevidade. Qual é a grande qualidade do Wenger como treinador? É um cara da parte tática, da questão humana? Por que que ele tem esse sucesso de se manter no Arsenal por tanto tempo?

Edu Gaspar: Para mim – e eu posso falar pessoalmente – o que me chamou mais atenção foi o lado humano que ele demonstrou no pior momento que eu pude viver na minha vida pessoal e profissional, que foi a perda da minha irmã.

Ele foi o cara que entendeu essa dificuldade, pois sabia que eu não ia conseguir desenvolver o meu melhor trabalho dentro de campo porque fora as coisas não estavam bem. Nesse sentido, tive que levar toda a minha família pra Inglaterra: meu pai, minha mãe, meu irmão… para todos ficarem suportando um ao outro. Assim, o dia a dia depois do treino é muito duro.

Dessa forma, o Arsène entendeu e sempre me chamava para saber como que eu estava, nunca falava da parte tática ou técnica. Queria saber como eu estava com a minha cabeça, se estava concentrado, se precisava de alguma coisa, se o Arsenal poderia ajudar com qualquer coisa. Convidava meus pais para irem ao treino para quebrar essa sensação ruim de perda familiar.

Então, para mim, o Arsène, taticamente, precisa nem falar nada, porque é um cara que revolucionou – na época era 2000 – a forma de jogar, no 4-4-2, na forma que ele colocava a equipe em campo. Mas o lado pessoal, sem dúvida nenhuma, foi o diferencial e hoje levo pra minha vida, inclusive, no cara que sou hoje.

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  • Esquadrões Imortais – Arsenal 2003/2004

PL Brasil: ‘Falando da sua estreia, contra o Leicester. Com 10 minutos, teve sua lesão. Em seguida, você fez mais quatro jogos e ainda fez um gol contra diante do Middlesbrough perdendo por 3 a 0. Ali você pensou: ‘Está dando tudo errado para mim?'. O começo no Corinthians teve dois títulos brasileiros, e o início no Arsenal aquele choque.

Edu Gaspar: Imagine porque eu consegui muito rápido o carinho do torcedor corintiano. Minha saída não foi fácil. O pessoal sempre falou: ‘poxa, você é jogador da casa, está se destacando, é jovem, por que está saindo tão cedo?', aquela cobrança.

Eu já com uma certa representatividade no clube, uma certa “moral”. Mas queria um novo desafio, no mundo europeu e a oportunidade que o Arsenal estava me propondo era muito grande.

Mas, mesmo com as dificuldades com que cheguei lá, teve alguns momentos que eu cheguei: “puta vida, está difícil né”.

Estava tudo bem no Brasil, jogando bem, minha esposa bem, dobraram meu salário três vezes, a torcida tinha muito carinho por mim… Mas sabia que no Arsenal teria que conquistar tudo de novo.

O Arsenal era muito bem preparado, um time praticamente formado. Eu falei: ‘Vou ter que ir de novo, jogar os jogos que eu puder bem, poder conquistar meu espaço e conquistar tudo o que não consegui no Corinthians. Nesse sentido, coloquei na minha cabeça. Tive o apoio da minha esposa que estava comigo lá nos momentos duros. Tive um problema com o Henry.

Tivemos um problema sério, discutimos, me senti muito mal e me fez pensar: ‘Por que está acontecendo tudo isso? Será que era para eu vir?'. E aí não: ‘Vou vencer, lutar e brigar para me destacar. Então na outra temporada já fui muito melhor, as coisas foram acontecendo e se estabilizaram.

PL Brasil: ‘Logo na temporada seguinte você já ganha a Premier League – o primeiro brasileiro a ganhar – e a FA Cup também. Como que foi esse salto? De vir lá de baixo pra ganhar tudo?'

Edu Gaspar: Não vou negar que é uma conquista pessoal, porque eu entrei para a história como o primeiro brasileiro da história do futebol inglês a ganhar um título. Pra mim, sem dúvida, foi muito bacana.

O Arsène me ajudou muito também. O Arsène foi um cara que me pegou como um filho ali. Tanto é que hoje nós temos um carinho recíproco. A gente lembra das histórias, de tudo que nós passamos juntos. Um cara que esteve do meu lado. Me levou pro lado humano e não só do profissional.

Entendeu o momento que eu estava passando, que aqueles seis meses iniciais iriam ser duros mesmo. Foi um cara que me abraçou. E depois (me levou) a conquistar a Premier, a conquistar o doblete – as duas ligas. E aí começa a te dar mais confiança, você fica um pouquinho mais “parrudo”… e aí deslancha, né. Vai embora.”

PL Brasil: Edu, na temporada seguinte – do ano que você ganhou a Premier League – foi a era dos Invencíveis que foi a melhor temporada do Arsenal e a sua pessoal também, não foi? Você fez três gols no campeonato, dois contra o Chelsea – um lá e um no Highbury – e você foi o décimo segundo titular. Era um cara que entrava em quase todos os jogos. Foi a sua melhor temporada na Inglaterra?

Edu Gaspar: Foi. Se você pegar em termos estatísticos, fiz muitos jogos. Jogos importantes. O Arsène rodava muito o time, porque nós estávamos brigando por tudo: estávamos jogando a Liga, a Copa, a Champions… estávamos jogando tudo.

Então ele estava muito bem com a equipe nos três campeonatos. Pra mim, sem dúvida nenhuma, essa temporada foi muito boa. Certamente, foi muito marcante.

MAIOR RIVAL, ELIMINAÇÃO PARA O CHELSEA E OS INVINCIBLES

Edu Gaspar
Credit: Arsenal Football Club / Stuart MacFarlane.

PL Brasil: Eu citei o Chelsea nos dois que você fez e, no mesmo ano, na Champions, vocês perdem para eles nas quartas de final com gol do Bridge no finalzinho do jogo. O Chelsea foi o rival que mais te marcou na Inglaterra?.

Edu Gaspar: Pra mim, foi o Manchester United. O Manchester foi o que mais me marcou. E esse jogo – essa competição, no caso – se a gente passa pelo Chelsea, a gente ganharia a Champions League. Porque o Porto foi campeão nessa época e o nosso time tava realmente num momento espetacular. Mas é aí o que eu falei.

Nós estávamos brigando por três títulos: brigando pela FA, brigando pela Premier, brigando pela Champions. E aí nós fizemos uma sequência muito grande de jogos decisivos. Da Copa da Liga – brigando pelo título – e da ida e volta da Champions. E esse jogo foi o quinto decisivo nosso.

No meu ponto de vista, como jogou praticamente a mesma equipe nesses cinco jogos decisivos, nós tivemos uma queda de rendimento no segundo tempo. Tanto é que nós perdemos para o Chelsea, para mim, no segundo tempo. Talvez se tivesse uma estratégia um pouquinho melhor ali… não tem jeito.

Brigou por tudo, alguma coisa ficou para trás. E a Champions infelizmente ficou por causa dessa questão. Foram muitos jogos decisivos e no final nós fomos pegos de surpresa pelo Chelsea. Mas eu acho que nosso time era mais time que o Chelsea pra passar.

O CONJUNTO É A DIFERENÇA

PL Brasil: Edu, nesse time dos Invencíveis do Arsenal, muita gente fala da contribuição do Henry, do Vieira… Mas tinha algum outro jogador muito importante para o time mas não foi normalmente muito lembrado? Ou era um conjunto?

Edu Gaspar: Não, era o conjunto. O conjunto era sensacional. É lógico que, dentro de um conjunto, quando todos estão trabalhando bem, se destacam o Henry por fazer mais gols, o Bergkamp pela classe que tinha, o Patrick Vieira no meio-campo… enfim, o time era sensacional. O conjunto era muito forte.

Nós tínhamos uma comissão técnica excepcional, um grupo de atletas excepcional. E eu acho que foi a engrenagem perfeita pra que a gente pudesse conseguir um título tão importante como foi a era dos Invencíveis.

WENGER E A MENTALIDADE VENCEDORA

O Arsène colocava na nossa cabeça – e também é uma coisa que marcou muito pra nós na época – que tínhamos equipe pra ganhar em qualquer lugar, desde que tivéssemos uma mentalidade de vencedor. Tinha que entrar em campo já sabendo que, se jogar bem, vai ganhar.

Nós sentíamos, nós entrávamos em campo com um respeito tão grande do adversário que parecia que o adversário já sabia que ia perder. Então isso para nós era mais motivante ainda.

Os caras já olhavam e falavam: ‘Vão vir esses caras aí e não vai dar, não vai dar…' e para nós foi muito positivo isso. Então o Arsène colocava: ‘Vamos jogar em casa? Vamos jogar igual a gente joga fora'. Criamos já um respeito e isso daí foi criando uma áurea interna que até nós, quando saímos do campo… Um olhava para o outro e falava: ‘Meu pai, vamos atropelar!'

PL Brasil: Ainda nessa questão do Leicester, vale lembrar que, quando você jogou a partida da Champions contra o Chelsea, o técnico era o Ranieri. Então eu queria te perguntar o seguinte, Edu: o que é mais difícil? Um time grande e forte como o Arsenal ganhar invicto ou um time pequeno ganhar o campeonato?

Edu Gaspar: “Boa pergunta, viu. Olha, certamente, a dificuldade dos dois é incrível. Se você puxar da história, pra te dar um pouquinho mais de argumentos, quanto tempo não tinha acontecido o que aconteceu com o Arsenal na nossa época?

Foi puxar na história lá atrás em 1600 e bolinhas (risos). E era outro futebol, né. Menos jogos, etc. E um time como o Leicester numa liga tão forte, tão competitiva conseguir também uma façanha como essa, com menos recursos… é um bom comparativo. Acho que a dificuldade dos dois é bem similar.”

PL Brasil: Dessa época que você ia jogar, principalmente fora de casa – claro que tinha a grandeza dos clássicos – mas a Inglaterra tem essa peculiaridade de jogos com times pequenos. Copa da Inglaterra você ia jogar com time da quinta divisão, quarta… Desses adversários tinha algum que você pensava: ‘putz, a gente vai jogar naquele buraco, meu deus do céu, difícil de jogar…'?

Edu Gaspar: Leeds! Sem dúvida, era difícil de jogar contra o Leeds. Everton… era terrível jogar contra eles. Terrível. Eu lembro que eu falava: ‘Parece que os ingleses querem te dar a bola, pra depois te dar porrada e depois tomar a bola. Eles não querem tentar jogar. Era chutão.

PL Brasil: Muitas pessoas buscam entender qual é o segredo do Wenger. Porque assim como teve o Ferguson no Manchester United, o Wenger foi exemplo de longevidade. Qual é a grande qualidade do Wenger como treinador? É um cara da parte tática, da questão humana? Por que que ele tem esse sucesso de se manter no Arsenal por tanto tempo?

Edu Gaspar: Para mim – e eu posso falar pessoalmente – o que me chamou mais atenção foi o lado humano que ele demonstrou no pior momento que eu pude viver na minha vida pessoal e profissional, que foi a perda da minha irmã.

Ele foi o cara que entendeu essa dificuldade, pois sabia que eu não ia conseguir desenvolver o meu melhor trabalho dentro de campo porque fora as coisas não estavam bem. Nesse sentido, tive que levar toda a minha família pra Inglaterra: meu pai, minha mãe, meu irmão… para todos ficarem suportando um ao outro. Assim, o dia a dia depois do treino é muito duro.

Dessa forma, o Arsène entendeu e sempre me chamava para saber como que eu estava, nunca falava da parte tática ou técnica. Queria saber como eu estava com a minha cabeça, se estava concentrado, se precisava de alguma coisa, se o Arsenal poderia ajudar com qualquer coisa. Convidava meus pais para irem ao treino para quebrar essa sensação ruim de perda familiar.

Então, para mim, o Arsène, taticamente, precisa nem falar nada, porque é um cara que revolucionou – na época era 2000 – a forma de jogar, no 4-4-2, na forma que ele colocava a equipe em campo. Mas o lado pessoal, sem dúvida nenhuma, foi o diferencial e hoje levo pra minha vida, inclusive, no cara que sou hoje.

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  • Esquadrões Imortais – Arsenal 2003/2004

PL Brasil: Você começou no Corinthians na base. Em 1998, você subiu e, logo quando começou a carreira, foi campeão: em 1998, 1999 e, em 2000, campeão mundial. Como foi esse começo de carreira?

Edu Gaspar: “Na verdade, eu comecei com cinco anos de idade no Corinthians. Meu primeiro contrato profissional foi com 17 anos e minha estreia foi com 18. Isto é, as coisas, para mim, aconteceram muito rápido.

Já fazendo parte do elenco de 1998, com os títulos e a equipe que tínhamos na época. Em 1999, já participando muito mais e em 2000 também muito mais. E, logo na sequência, eu fui vendido. Para mim, as coisas foram muito positivas”.

PL Brasil: E, neste início, como você comentou, foi tudo muito rápido, mas já na base, nessa evolução dentro do Corinthians, você tinha uma projeção de ir para fora? Era sua ideia ou era algo que foi acontecendo?

Edu Gaspar: Eu sempre tive um sonho de jogar nos profissionais do Corinthians, nunca pensei na Europa, na Seleção. Eu sabia que para atingir esse objetivo maior, eu precisava de um bom trabalho no Corinthians.

Então, meu foco total foi sempre jogar no profissional do Corinthians quando eu cheguei. Quando eu subi para a equipe profissional, eu sabia que precisava jogar e jogar bem. Para depois, abrir o leque de opções e o mundo estaria muito mais aberto para eu aproveitar as oportunidades.

NEGOCIAÇÃO DE EDU COM O ARSENAL

Edu Gaspar
(Credit: Daily Mirror)

PL Brasil: Em relação ao interesse do Arsenal, foi só ele que surgiu ou você teve uma gama de clubes para escolher? Em que sentido, o futebol inglês te pareceu mais atraente?

Edu Gaspar: Na verdade, surgiu o Arsenal e eles foram muito rápidos. E, logo na sequência, veio o Barcelona. Eu estava no radar deles, tanto que o Barça contratou na época o Fábio Rochemback.

E diziam eles que era a segunda opção porque a primeira seria eu. Mas como eu tinha acertado com o Arsenal e, pela velocidade que eles fizeram o negócio, acabou inviabilizando outras opções. Foi uma surpresa porque eu fui convidado para um jantar junto com os representantes do Arsenal.

Depois da eliminação do Corinthians para o Palmeiras na Libertadores, dias depois, eu sentei em um jantar num hotel e eles foram muito sinceros comigo.

A primeira pergunta que fizeram foi: ‘Edu, você gostaria de jogar no Arsenal? Você consegue se enxergar na Inglaterra e em um clube como o Arsenal?’ Eu falei: ‘Claro que sim. Pelo país, pela cidade de Londres, pelos atletas que lá estão, obviamente, que sim. Para mim, seria uma honra’.

A resposta dele foi: ‘Você está contratado pelo Arsenal. Agora o problema vai ficar do nosso lado'. Foi um pedido do Arsène , que veio ao Brasil, viu quatro ou cinco jogos e acompanhou outros mais. E, dali do jantar, eu saí praticamente contratado.

INÍCIO COMPLICADO NOS GUNNERS

PL Brasil: E, logo quando você chegou ao Arsenal, foi um pouco complicado. Teve problema com passaporte…

Edu Gaspar: Foi um início terrível. Acho que o Arsenal tem um reconhecimento por mim, um carinho por mim tão grande por entender que esse cara aqui venceu com perseverança, profissionalismo. Foi um começo muito ruim.

Eu saí de um período de férias aqui no Brasil e a liga inglesa estava no meio da temporada, voando. E o Petit tinha saído e eu estava indo para o lugar dele.

O meio-campo era ele e o Vieira, dois caras da seleção francesa, já com experiência e eu super jovem. Eu não tinha treinado muito tempo ainda e já me colocaram para jogar em 10, 15 dias e eu acabei me machucando.

Comecei o problema com passaporte, que inviabilizou minha chegada. Dessa forma, tive que ficar mais quatro meses aqui treinando e jogando.

Quando eu fui para lá, regularizei todos os problemas. Fui enganado e ficou provado isso. O começo foi muito duro pelo fato de a liga já estar andando e eu não fui bem nos meus primeiros jogos.

Na estreia, eu estava bem, mas me machuquei com dez minutos. Depois, eu comecei a ter um jogo ou outro e não respondia bem. O Arsène foi um cara que ficou do meu lado.

Tive um problema pessoal que, nem todos sabem, mas minha irmã faleceu uma semana antes da minha ida para a Inglaterra. Tudo que poderia acontecer de ruim, de difícil, de adaptação, foco no trabalho, aconteceu comigo.

Mas eu fui sabendo porque eu tinha ido. Eu tinha que vencer lá. Não ia ser um brasileiro que ia bater e voltar por qualquer dificuldade. Falei: ‘Vou cumprir meu contrato, vou jogar, me destacar e acabou dando tudo certo'.

Credit: Getty

Lesão na estreia contra o Leicester

PL Brasil: ‘Falando da sua estreia, contra o Leicester. Com 10 minutos, teve sua lesão. Em seguida, você fez mais quatro jogos e ainda fez um gol contra diante do Middlesbrough perdendo por 3 a 0. Ali você pensou: ‘Está dando tudo errado para mim?'. O começo no Corinthians teve dois títulos brasileiros, e o início no Arsenal aquele choque.

Edu Gaspar: Imagine porque eu consegui muito rápido o carinho do torcedor corintiano. Minha saída não foi fácil. O pessoal sempre falou: ‘poxa, você é jogador da casa, está se destacando, é jovem, por que está saindo tão cedo?', aquela cobrança.

Eu já com uma certa representatividade no clube, uma certa “moral”. Mas queria um novo desafio, no mundo europeu e a oportunidade que o Arsenal estava me propondo era muito grande.

Mas, mesmo com as dificuldades com que cheguei lá, teve alguns momentos que eu cheguei: “puta vida, está difícil né”.

Estava tudo bem no Brasil, jogando bem, minha esposa bem, dobraram meu salário três vezes, a torcida tinha muito carinho por mim… Mas sabia que no Arsenal teria que conquistar tudo de novo.

O Arsenal era muito bem preparado, um time praticamente formado. Eu falei: ‘Vou ter que ir de novo, jogar os jogos que eu puder bem, poder conquistar meu espaço e conquistar tudo o que não consegui no Corinthians. Nesse sentido, coloquei na minha cabeça. Tive o apoio da minha esposa que estava comigo lá nos momentos duros. Tive um problema com o Henry.

Tivemos um problema sério, discutimos, me senti muito mal e me fez pensar: ‘Por que está acontecendo tudo isso? Será que era para eu vir?'. E aí não: ‘Vou vencer, lutar e brigar para me destacar. Então na outra temporada já fui muito melhor, as coisas foram acontecendo e se estabilizaram.

PL Brasil: ‘Logo na temporada seguinte você já ganha a Premier League – o primeiro brasileiro a ganhar – e a FA Cup também. Como que foi esse salto? De vir lá de baixo pra ganhar tudo?'

Edu Gaspar: Não vou negar que é uma conquista pessoal, porque eu entrei para a história como o primeiro brasileiro da história do futebol inglês a ganhar um título. Pra mim, sem dúvida, foi muito bacana.

O Arsène me ajudou muito também. O Arsène foi um cara que me pegou como um filho ali. Tanto é que hoje nós temos um carinho recíproco. A gente lembra das histórias, de tudo que nós passamos juntos. Um cara que esteve do meu lado. Me levou pro lado humano e não só do profissional.

Entendeu o momento que eu estava passando, que aqueles seis meses iniciais iriam ser duros mesmo. Foi um cara que me abraçou. E depois (me levou) a conquistar a Premier, a conquistar o doblete – as duas ligas. E aí começa a te dar mais confiança, você fica um pouquinho mais “parrudo”… e aí deslancha, né. Vai embora.”

PL Brasil: Edu, na temporada seguinte – do ano que você ganhou a Premier League – foi a era dos Invencíveis que foi a melhor temporada do Arsenal e a sua pessoal também, não foi? Você fez três gols no campeonato, dois contra o Chelsea – um lá e um no Highbury – e você foi o décimo segundo titular. Era um cara que entrava em quase todos os jogos. Foi a sua melhor temporada na Inglaterra?

Edu Gaspar: Foi. Se você pegar em termos estatísticos, fiz muitos jogos. Jogos importantes. O Arsène rodava muito o time, porque nós estávamos brigando por tudo: estávamos jogando a Liga, a Copa, a Champions… estávamos jogando tudo.

Então ele estava muito bem com a equipe nos três campeonatos. Pra mim, sem dúvida nenhuma, essa temporada foi muito boa. Certamente, foi muito marcante.

MAIOR RIVAL, ELIMINAÇÃO PARA O CHELSEA E OS INVINCIBLES

Edu Gaspar
Credit: Arsenal Football Club / Stuart MacFarlane.

PL Brasil: Eu citei o Chelsea nos dois que você fez e, no mesmo ano, na Champions, vocês perdem para eles nas quartas de final com gol do Bridge no finalzinho do jogo. O Chelsea foi o rival que mais te marcou na Inglaterra?.

Edu Gaspar: Pra mim, foi o Manchester United. O Manchester foi o que mais me marcou. E esse jogo – essa competição, no caso – se a gente passa pelo Chelsea, a gente ganharia a Champions League. Porque o Porto foi campeão nessa época e o nosso time tava realmente num momento espetacular. Mas é aí o que eu falei.

Nós estávamos brigando por três títulos: brigando pela FA, brigando pela Premier, brigando pela Champions. E aí nós fizemos uma sequência muito grande de jogos decisivos. Da Copa da Liga – brigando pelo título – e da ida e volta da Champions. E esse jogo foi o quinto decisivo nosso.

No meu ponto de vista, como jogou praticamente a mesma equipe nesses cinco jogos decisivos, nós tivemos uma queda de rendimento no segundo tempo. Tanto é que nós perdemos para o Chelsea, para mim, no segundo tempo. Talvez se tivesse uma estratégia um pouquinho melhor ali… não tem jeito.

Brigou por tudo, alguma coisa ficou para trás. E a Champions infelizmente ficou por causa dessa questão. Foram muitos jogos decisivos e no final nós fomos pegos de surpresa pelo Chelsea. Mas eu acho que nosso time era mais time que o Chelsea pra passar.

O CONJUNTO É A DIFERENÇA

PL Brasil: Edu, nesse time dos Invencíveis do Arsenal, muita gente fala da contribuição do Henry, do Vieira… Mas tinha algum outro jogador muito importante para o time mas não foi normalmente muito lembrado? Ou era um conjunto?

Edu Gaspar: Não, era o conjunto. O conjunto era sensacional. É lógico que, dentro de um conjunto, quando todos estão trabalhando bem, se destacam o Henry por fazer mais gols, o Bergkamp pela classe que tinha, o Patrick Vieira no meio-campo… enfim, o time era sensacional. O conjunto era muito forte.

Nós tínhamos uma comissão técnica excepcional, um grupo de atletas excepcional. E eu acho que foi a engrenagem perfeita pra que a gente pudesse conseguir um título tão importante como foi a era dos Invencíveis.

WENGER E A MENTALIDADE VENCEDORA

O Arsène colocava na nossa cabeça – e também é uma coisa que marcou muito pra nós na época – que tínhamos equipe pra ganhar em qualquer lugar, desde que tivéssemos uma mentalidade de vencedor. Tinha que entrar em campo já sabendo que, se jogar bem, vai ganhar.

Nós sentíamos, nós entrávamos em campo com um respeito tão grande do adversário que parecia que o adversário já sabia que ia perder. Então isso para nós era mais motivante ainda.

Os caras já olhavam e falavam: ‘Vão vir esses caras aí e não vai dar, não vai dar…' e para nós foi muito positivo isso. Então o Arsène colocava: ‘Vamos jogar em casa? Vamos jogar igual a gente joga fora'. Criamos já um respeito e isso daí foi criando uma áurea interna que até nós, quando saímos do campo… Um olhava para o outro e falava: ‘Meu pai, vamos atropelar!'

PL Brasil: Ainda nessa questão do Leicester, vale lembrar que, quando você jogou a partida da Champions contra o Chelsea, o técnico era o Ranieri. Então eu queria te perguntar o seguinte, Edu: o que é mais difícil? Um time grande e forte como o Arsenal ganhar invicto ou um time pequeno ganhar o campeonato?

Edu Gaspar: “Boa pergunta, viu. Olha, certamente, a dificuldade dos dois é incrível. Se você puxar da história, pra te dar um pouquinho mais de argumentos, quanto tempo não tinha acontecido o que aconteceu com o Arsenal na nossa época?

Foi puxar na história lá atrás em 1600 e bolinhas (risos). E era outro futebol, né. Menos jogos, etc. E um time como o Leicester numa liga tão forte, tão competitiva conseguir também uma façanha como essa, com menos recursos… é um bom comparativo. Acho que a dificuldade dos dois é bem similar.”

PL Brasil: Dessa época que você ia jogar, principalmente fora de casa – claro que tinha a grandeza dos clássicos – mas a Inglaterra tem essa peculiaridade de jogos com times pequenos. Copa da Inglaterra você ia jogar com time da quinta divisão, quarta… Desses adversários tinha algum que você pensava: ‘putz, a gente vai jogar naquele buraco, meu deus do céu, difícil de jogar…'?

Edu Gaspar: Leeds! Sem dúvida, era difícil de jogar contra o Leeds. Everton… era terrível jogar contra eles. Terrível. Eu lembro que eu falava: ‘Parece que os ingleses querem te dar a bola, pra depois te dar porrada e depois tomar a bola. Eles não querem tentar jogar. Era chutão.

PL Brasil: Muitas pessoas buscam entender qual é o segredo do Wenger. Porque assim como teve o Ferguson no Manchester United, o Wenger foi exemplo de longevidade. Qual é a grande qualidade do Wenger como treinador? É um cara da parte tática, da questão humana? Por que que ele tem esse sucesso de se manter no Arsenal por tanto tempo?

Edu Gaspar: Para mim – e eu posso falar pessoalmente – o que me chamou mais atenção foi o lado humano que ele demonstrou no pior momento que eu pude viver na minha vida pessoal e profissional, que foi a perda da minha irmã.

Ele foi o cara que entendeu essa dificuldade, pois sabia que eu não ia conseguir desenvolver o meu melhor trabalho dentro de campo porque fora as coisas não estavam bem. Nesse sentido, tive que levar toda a minha família pra Inglaterra: meu pai, minha mãe, meu irmão… para todos ficarem suportando um ao outro. Assim, o dia a dia depois do treino é muito duro.

Dessa forma, o Arsène entendeu e sempre me chamava para saber como que eu estava, nunca falava da parte tática ou técnica. Queria saber como eu estava com a minha cabeça, se estava concentrado, se precisava de alguma coisa, se o Arsenal poderia ajudar com qualquer coisa. Convidava meus pais para irem ao treino para quebrar essa sensação ruim de perda familiar.

Então, para mim, o Arsène, taticamente, precisa nem falar nada, porque é um cara que revolucionou – na época era 2000 – a forma de jogar, no 4-4-2, na forma que ele colocava a equipe em campo. Mas o lado pessoal, sem dúvida nenhuma, foi o diferencial e hoje levo pra minha vida, inclusive, no cara que sou hoje.

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  • Esquadrões Imortais – Arsenal 2003/2004