André Santos: ‘Wenger me surpreendeu positivamente no Arsenal’

Brasileiro fez gol em clássico e até se envolveu em polêmica com a torcida

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entrevista andré santos

O início da temporada 2011/2012 não foi nada bom para o Arsenal, que acumulou resultados ruins e vendeu o jovem destaque Samir Nasri ao Manchester City. A pressão no clube era enorme. Três jogadores acabaram chegando ao Emirates: André Santos, Yossi Benayoun e Per Mertesacker reforçariam o Arsenal na sequência da temporada.

Contratado por 6,2 milhões de libras junto ao Fenerbahçe, da Turquia, o brasileiro chegou assumindo a camisa 11.

Por lá, fez 33 jogos em duas temporadas, contribuindo com três gols. Depois de uma lesão no tornozelo, teve dificuldades para recuperar seu espaço com a contratação de Nacho Monreal.

Foi emprestado ao Grêmio no início de 2013 e, depois, vendido ao Flamengo, se despedindo dos Gunners em definitivo.

PL Brasil entrevista André Santos, ex-lateral do Arsenal

– O Arsenal teve um início ruim de Premier League e acabou contratando logo três jogadores no último dia da janela: você, Per Mertesacker e Yossi Benayoun. Como essa negociação em tão pouco tempo? Ficou ansioso?

Eu fiquei muito feliz. Quem primeiro me ligou foi o Wenger. Meu sonho era sempre jogar em times de ponta e o Arsenal é um dos principais clubes do mundo, seja pela estrutura, qualidade e por estar na Inglaterra.

Eu estava no Fenerbahçe e o pessoal não queria me liberar para o Arsenal. Fui falar com o presidente e o diretor. No outro dia, eu já viajei porque teríamos até a meia noite para fechar e assinar o contrato. Foi uma chegada de muitas surpresas para mim.

Eu cheguei lá e fiquei nessa incógnita se ia dar para assinar a tempo ou não, se o Fenerbahçe ia liberar mesmo. Acabou que deu tudo certo.

Meu primeiro dia eu cheguei e fiz exames médicos com o Mertesacker. Eu e ele já começamos ali uma amizade. Foi tudo uma surpresa muito boa e muito grande. Foi a realização de um sonho.

– Você disse que o Wenger ligou para você. O que ele disse? Já acompanhava seu futebol na Turquia e na seleção brasileira?

Ele falou que acompanhava meu futebol há muito tempo, na seleção e no Fenerbahçe. Falou que seria muito bom jogar na Inglaterra. Disse que tentou me contratar há um bom tempo, mas o Fener não queria.

No último dia de janela, eles deram uma tacada bem forte. O Wenger disse que contava com a minha parte para o negócio sair. Então, eu comecei a forçar para sair.

– Algum outro time inglês tentou contratar você nesse período?

Não que eu saiba. Não lembro de detalhes, mas não chegou nada disso até mim.

– André Santos, no seu tempo no Arsenal, um dos jogos que mais marcou foi a vitória por 5 a 3 sobre o Chelsea em Stamford Bridge. Foi o seu melhor jogo pelos Gunners?

Meu primeiro ano no Arsenal foi muito bom. Joguei 25 ou 28 partidas (Nota: foram 21 jogos), mas acho que aquele ali foi um dos momentos mais marcantes.

Você jogar um clássico fora de casa e poder fazer um dos gols e vencer uma equipe da qualidade que era o Chelsea naquela época, com cinco gols, foi muito bom e marcante.

Foi um momento gostoso de lembrar com a camisa do Arsenal, mas teve outros como o jogo da Champions League (Nota: marcou um dos gols da vitória por 2 a 1 sobre o Olympiacos).

Foram dois anos de Arsenal e dois anos de muitas alegrias. Não tive títulos, mas foram dois anos intensos.

– No seu período na Inglaterra, houve alguns episódios fora dos gramados que você teve seu nome envolvido. Você chegou a ser parado pela polícia por andar acima do limite de velocidade.

Eu estava indo para o treino às 9h30 da manhã e acabei sendo parado por exceder o limite de velocidade. Eu tinha três carros na época: Land Rover, Maserati e Smart. Sempre que eu saía com a Maserati, a polícia me parava.

Tinha uma pista lá chamada M-25 que me deixava no CT do clube. Quando chegava ali, eu acelerava. O limite era 80 milhas por hora e eu estava a 120. A polícia me parou, só que eu não tinha visto eles antes. Eu estava ouvindo som muito alto no carro e acelerando.

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Jogador ficou um ano sem poder dirigir na Inglaterra (Crédito BBC)

Cheguei no CT e a polícia já estava lá me esperando. Muitos jogadores me viram com os policiais porque eu estava do lado do CT. Eu lembro que o seu João, um português que trabalhava no Arsenal, foi lá, pegou meu carro e colocou no pátio.

Alguns jogadores como Wilshere, Koscielny, Walcott olhavam, passavam e não entendiam o que estavam acontecendo. Eles mesmos avisaram o pessoal do CT que a polícia tinha me parado e eu não estava conseguindo chegar ao treino.

A Justiça inglesa me proibiu de dirigir por um ano depois disso e eu tive que contratar um motorista nesse período.

– Teve também o episódio da troca de camisas com o Van Persie no clássico entre Arsenal e Manchester United. Isso gerou muita polêmica com a torcida e a imprensa. Como foi tudo isso?
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Troca de camisas de André Santos não foi bem vista no Arsenal (Credit: Ian Holloway)

O van Persie não saiu bem do Arsenal e a torcida estava muito chateada com ele. Nós dois temos uma grande amizade até hoje. No dia do clássico, trocamos camisa e o torcedor e ídolos do Arsenal ficaram muito chateados.

A troca de camisas no Brasil é super normal até em clássicos, mas lá não foi. Depois daquele momento, a torcida começou a pegar no meu pé por causa disso.

Internamente, não tive nenhum problema. Quando voltei para a Turquia, sempre que eu tinha folga, eu ia para Londres, assistia ao jogo do Arsenal, conversava com o Wenger e a comissão no vestiário. Nunca tive problema algum dentro do clube.

– O van Persie era seu melhor amigo lá?

Dos que conviviam comigo lá, tinha van Persie, Cazorla, Arteta, Sagna, Mertesacker. Eles que viviam mais próximos. A cada semana tínhamos um jantar em um restaurante diferente com nossas famílias.

– Falamos do Arsenal x Manchester United antes, mas qual clássico foi o que sentiu mais pressão? Qual o mais importante?

É o clássico do norte de Londres, contra o Tottenham. Para eles, é o mais forte da Inglaterra e o que tem mais rivalidade.

– Como era a relação com o Wenger? Ele ficou conhecido por sempre tentar implementar um estilo de bonito de ver. Havia pressão dele para jogar sempre dessa forma?

Ele é um cara atencioso, sempre atento aos detalhes e me ajudou bastante desde que eu comecei. Ele está sempre querendo ajudar, independentemente do país, da língua. Isso foi algo que me surpreendeu positivamente no Arsenal.

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O Wenger mudou o futebol inglês, sempre querendo jogar um futebol mais jogado, sem chutão. Procurava sempre jogar bonito.

Ele falava bastante com seus jogadores que queria trabalhar a bola, passando de pé em pé. Isso me surpreendeu bastante até mesmo nesse detalhe.

– A diferença no estilo de jogo é tão grande entre o futebol brasileiro e o inglês?
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André Santos destacou trabalho de Arsène Wenger no Arsenal (Crédito: Getty)

É sim. Não é à toa que a Premier League é um dos melhores campeonatos do mundo. É diferente do Brasil como do resto do mundo. Não só para mim, mas para outros, a adaptação é um pouquinho difícil.

É um jogo mais rápido, até porque eles molham o campo antes do jogo começar.

– E qual o estádio mais hostil que você jogou na PL?

Na verdade, eu gostava muito de jogar em casa. Essa educação do torcedor inglês é para admirar. Falávamos que eles iam ao estádio para admirar o futebol.

Para mim, um dos momentos mais marcantes era jogar em casa. Não tinha nenhum estádio especial. Todos tinham a mesma cultura e o mesmo calor.

Arsenal
André Santos destaca ambiente no Emirates
(Photo credit ADRIAN DENNIS/AFP/Getty Images)
– Você jogou no Brasil, Inglaterra e Turquia. Quais as diferenças entre as torcidas brasileiras, turcas e inglesas?

Vejo muita diferença entre as torcidas. O torcedor inglês vai mais para ver um espetáculo. Ele chega antes ao estádio, leva sua família, vai almoçar… É muito diferente do Brasil e da Turquia.

– E para fechar: no geral, como você avalia sua passagem pela Inglaterra?

Eu tinha um contrato de cinco anos no Arsenal. Minha primeira temporada foi muito boa e eu joguei muitas partidas. Depois eu quebrei o tornozelo e, a partir daí, ficou difícil para mim.

No segundo ano, eu fiquei recuperando e fiquei cinco meses fora dos gramados, sem poder treinar. Ali eu perdi minha chance, minha vaga e, em um time desse porte, não tem jeito quando você fica fora.

Eles contratam outros jogadores de qualidade. Foi aí que eles fecharam com o Monreal, da seleção espanhola. Quando eu voltei, acabei sem espaço e pedi para sair mesmo tendo mais três anos de contrato.

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