A paixão de Elton John pelo Watford: “Nunca quis existir sem o clube”

Músico foi dono, presidente e levou o Watford da quarta divisão a Premier League

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Ainda faltam um par de horas para o show, mas a ansiedade começa a tomar conta dos presentes. Nos camarins, a ansiedade também passa a invadir seu corpo. Até por isso, Elton John decide sentar-se confortavelmente em seu sofá e navega pelos diversos canais de esporte até que tem a sorte de se deparar com o videotape de algum jogo do Watford, e enfim relaxa.

Momentos como esse são comuns, apesar de cada vez mais raros, nos shows de Elton John, mas ilustram bem sua relação com o futebol, e, principalmente, com o Watford, do qual é o mais ilustre torcedor. Ainda assim, não chega perto de contar toda a história do Rocket Man com seu clube do coração.

A paixão de Elton John pelo Watford: “Nunca quis existir sem o clube” 

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Paixão pelas teclas e pelo Watford

Elton Hercules John, nascido como Reginald Kenneth Dwight na pequena cidade de Pinner, ao leste da Inglaterra, teve as horas da infância divididas entre a cadeira do piano e os arredores de Vicarage Road, o estádio do time homônimo da cidade de Watford, localizada míseros nove quilômetros de Pinner.

Talvez pela doce memória de uma difícil relação com o pai, com quem ia aos jogos, talvez por Roy Dwight, primo e camisa sete do Nottingham Forest ou até pela idolatria por Cliff Holton, centroavante inglês que jogou pelo Watford entre 1965 e 1966, Reginald se apaixonou pela bola tanto quanto pelas teclas, em especial pelos Hornets.

Se com 18 anos Reginald comemorava os gols de Cliff, com 21 lançava seu primeiro disco, já como Elton John. Com 22, estreia o álbum “Elton John”, que o disparou ao estrelato.

O pouco tempo (e a pouca idade) com que tudo isso aconteceu o manteve igualmente ligado ao futebol como à música.

Mesmo após os primeiros milhares de libras, a consolidação na indústria fonográfica e aclamação popular, Elton manteve-se leal aos Hornets. Mencionava sua paixão em entrevistas, assistia aos jogos e frequentava Vicarage Road, quando possível.

De torcedor a vice-presidente

Não por acaso, o músico tornou-se vice-presidente do Watford, meses após o lançamento de Honky Chatêau, trabalho que o fez explodir internacionalmente. A princípio uma relação publicitária, a vice-presidência foi tornando-se séria, a medida que John se mostrava cada vez mais dedicado ao crescimento do clube.

Em 1974, por exemplo, organizou um show em seu mais querido estádio, de forma a arrecadar fundos para o time.

Dois anos depois, tendo uma breve experiência como acionista minoritário do Los Angeles Aztecs, clube da liga norte-americana, Elton John usou parte de sua fortuna para comprar o Watford.

John foi além, acumulando a função de presidente e anunciando a intenção de levar o modesto clube à elite do futebol inglês.

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O irmão Graham Taylor e os anos de ouro

Graham (dir) e Elton (esq) capitanearam a “revolução” do Watford. (Foto: The Times/News Group Newspapers Ltd)

A promessa, que parecia apenas mais uma excentricidade de uma estrela do rock, surpreendentemente tornou-se realidade.

Em cinco anos, o Watford de Elton John pulou da quarta para a primeira divisão inglesa, com direito ao avanço em duas fases da Copa da UEFA; em seis, o histórico vice-campeonato da Copa da Inglaterra, caindo diante do Everton em um Wembley lotado.

Tudo isso veio à custa de muita dedicação e determinação do presidente, além, é claro, de cerca de 800 mil libras do bolso do dono. Mas nada disso seria realmente efetivo sem a presença de Graham Taylor, o técnico.

Ex-zagueiro de Grimsby Town e Lincoln City, seus únicos clubes, Graham chegou ao Watford em 1977, indicado por Don Revie, à época treinador da Inglaterra. O técnico aplicou aos Hornets um jogo simples e direto, ao maior estilo inglês, que seria essencial para decidir diversas partidas.

No entanto, o diferencial para os três acessos conquistados em cinco anos foi a sinergia absurda que estabeleceu com o presidente, rendendo frutos para além dos resultados esportivos.

Graham promoveu políticas de aproximação entre o clube e a torcida, ideia comprada de imediato por Elton, que aproveitou sua figura pública para alavancar o projeto do comandante.

Até hoje, o Watford tem ótima relação com a comunidade local, algo vital para a recente regularidade do time na Premier League.

Além do trabalho, Taylor foi horizontal, honesto e direto em seu relacionamento com John, certamente acostumado com as bajulações do mundo da música.

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“Nós éramos próximos, quase como irmãos. Eu ajudei Elton porque, enquanto as pessoas ao seu redor nunca falavam a verdade, eu dizia a ele o que pensava. Nós entramos em um acordo que se ele não me falava qual time escalar, eu não diria a ele quais músicas cantar. Isso funcionou bem”, declarou ao The Guardian.

A cumplicidade foi tamanha que redefiniu a própria gestão do músico. Depois da saída do técnico, em 1987, rumo ao Aston Villa, não demorou muito para Elton também deixar seu cargo, em 1990, não sem antes amargar um rebaixamento em 1988/1989.

Mas a paixão de Elton John era, e sempre foi, forte, assim como sua ligação com seu “irmão” Graham Taylor. Os dois viriam a se reencontrar em Watford, em 1997.

No meio tempo, o pianista continuou lançando sucessos, como “Something About The Way You Look Tonight” e a trilha sonora do filme “Rei Leão”; o treinador teve uma passagem frustrante pela seleção inglesa, eliminado na primeira fase da Eurocopa de 1992 e sem conquistar a vaga para a Copa do Mundo de 1994.

O feitiço funcionou novamente, e os dois guiaram o Watford a mais um acesso a Premier League, em 1999. A dinâmica da primeira divisão inglesa, porém, já estava em transformação, e o time amarelo durou apenas uma temporada na elite.

Graham pouco ficou, desta vez, saindo em 2001; Elton seguiu a deixa e vendeu novamente o clube, em 2002. O sonho acabava, mas não o seu respeito pela torcida, nem a bela relação entre os dois, bons amigos até o falecimento de Graham, em janeiro de 2017.

Elton prestou uma bela homenagem em forma de carta, apenas alguns dias depois.

Afastado, mas ainda ligado

Desde 2002, não houve mais nenhuma reaproximação do Rocket Man aos Hornets, até porque não houve um afastamento por completo. A época da primeira venda, em 1990, tornou-se presidente honorário, uma bela homenagem, além de um cargo vitalício.

No mais, Elton seguiu a tônica dos primeiros anos de carreira, demonstrando sua paixão sempre que possível, exigindo os canais de esportes em seus camarins, apesar da menor frequência no estádio.

Mesmo assim, organizou mais um show em Vicarage Road, em 2005, novamente para levantar fundos para o clube, dessa vez para salvar o próprio estádio, hipotecado.

Merecida foi, portanto, mais uma homenagem recebida pelo pianista: em 2014, deu nome a um setor da arquibancada, que conta com trecho da música Your Song, um dos primeiros sucessos de Elton, do disco de 1970.

“Your Song” é um dos primeiros singles de Elton John (Foto: Goal/Getty)

Com o nome gravado na história do clube, no imaginário do torcedor e até no estádio que tanto habitou, a frase que proferiu em 1982 nunca pareceu tão verdadeira: “Eu nunca quis existir sem o Watford”.