Dubai-Gate, campos destruídos e o eterno problema de calendário da WSL

Em meio a vários contratempos, a Women's Super League parece não abrir os olhos para o erro

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Dubai-Gate, campos destruídos e o eterno problema de calendário da WSL
(Foto: Charlotte Tattersall/Getty Images)

O problema de calendário da WSL parece nunca ter fim. Se achávamos que a temporada 2020/2021 seria diferente de 2019/2020, totalmente afetada pela pandemia da Covid-19, foi um ledo engano.

A Women’s Super League mais uma vez sofre para conseguir unificar o calendário e organizar as rodadas para todos os times. E entre novas e velhas problemáticas, uma situação que já afeta há anos a liga volta com força em mais uma edição do campeonato.

Na temporada 2019/2020, a WSL viveu um dilema no calendário. Por conta das más condições de vários campos, especialmente com a chegada do inverno e a mudança de clima, vários times ficaram com jogos a menos do que o normal. A expectativa era que todos pagassem seus débitos em campo até o fim.

Porém, veio a pandemia da Covid-19. Diferentemente da Premier League no masculino, a Women’s Super League no feminino foi encerrada. Mas como quase ninguém tinha a mesma quantidade de jogos, foi na média de pontos que a tabela se decidiu.

Isso gerou uma situação curiosa (e bizarra): o Chelsea fez um ponto a menos do que o Manchester City, mas foi o campeão. O fato se deu porque, na divisão de pontos por jogos, a média das Blues foi maior que a das Citizens.

Dubai-Gate, campos destruídos e o eterno problema de calendário da WSL
(Foto: Catherine Ivill/Getty Images)

Veio 2020/2021, uma nova temporada, uma nova história. Mas a pandemia, aquela que atrapalhou tudo na temporada anterior, continua – e em alguns casos, ainda mais forte. Com isso, fatalmente se imaginava que um problema estouraria. E ele se deu com uma grande crise no fim de 2020.

No feriado do Natal, algumas jogadoras de Arsenal, Manchester City e Manchester United postaram nas redes sociais registros viajando em Dubai. Resultado: três jogadoras do Arsenal e quatro do Man City testaram positivo para o coronavírus. Os jogos contra Aston Villa e West Ham, respectivamente, pela 11ª rodada, foram adiados.

Ainda na mesma rodada, o Manchester United não chegou a ter casos confirmados, mas enfrentaria o Everton, que teve jogadoras positivadas. Por fim, o Brighton não enfrentou o Bristol City pelo mesmo motivo; e o Birmingham não foi a campo contra o Tottenham graças a uma “série infeliz e extraordinária de lesões”.

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Esta última situação foi polêmica: como a FA não aceitou o adiamento, o próprio Birmingham decidiu não jogar. Ainda será tomada uma decisão sobre o resultado.

Além da discussão que foi gerada por uma viagem de jogadoras de uma liga com várias companheiras abertamente gays para um local que desrespeita totalmente os direitos da população LGBTQIA+, obviamente a pandemia entrou em pauta. E daí o Dubai-Gate ganhou também as opiniões de não envolvidas.

Isso porque, enquanto Arsenal, Manchester City e Everton tiveram seus jogos adiados, outras equipes já sofreram com o calendário da WSL. Em novembro, na sexta rodada, o lanterna Bristol City precisou isolar cinco jogadoras por terem contato com pessoas positivadas. Foi feito o pedido à FA pelo adiamento, mas este foi negado. Resultado: as Citizens venceram por 8 a 1.

Na rodada seguinte, mesmo com apenas 13 atletas, o Birmingham venceu o histórico clássico contra o Aston Villa por 1 a 0. Sem contar o exemplo já citado do mesmo Birmingham na 11ª rodada diante do Tottenham, onde as próprias Blues tiveram que abrir mão do confronto.

A situação fez atletas se manifestarem reprovando a situação nas redes sociais. A vice-artilheira da WSL em 2019/2020, Bethany England, do Chelsea, citou o tweet em que seu clube anuncia o adiamento do duelo contra o Man City pelas quartas de final da Copa da Liga com emojis sorridentes irônicos e a legenda: “se eu falar…”.

A zagueira Emma Mitchell, ex-jogadora de Arsenal e Tottenham e hoje no Reading, publicou: “Jogo do Arsenal sendo adiado… estamos vendo vocês, Barclays FA WSL e FA, regras diferentes para times diferentes”. Mas a declaração mais forte foi da zagueira Gilly Flaherty, do West Ham, que citou o peso do dinheiro sobre as jogadoras:

“Por mais que o crescimento do jogo feminino seja brilhante agora, possamos ser profissionais em tempo integral e inspirar a geração mais jovem, eu realmente não gosto da arrogância que o dinheiro e os salários trouxeram para isso. As jogadoras precisam permanecer humildes e lembrar como isso pode mudar rapidamente”, disse Flaherty.

A técnica do Manchester United, Casey Stoney, veio a público para pedir desculpas, e o treinador do Arsenal, Joe Montemurro, rechaçou a atitude. Mas a situação obviamente abriu uma crise, e causou dificuldades no calendário. Outros jogos já haviam sido adiados anteriormente, e alguns times já ficaram devendo partidas.

E na última rodada, o antigo problema dos campos ruins voltou a explodir de forma mais forte, bagunçando ainda mais o calendário da WSL que já estava fora do lugar.

Com a virada de ano, chega o inverno, e vários gramados de times da liga feminina não aguentam a variação pesada. Nesta 13ª rodada, metade dos jogos foram adiados por conta de problemas com campos: Bristol City x Chelsea, Arsenal x West Ham e Tottenham x Everton.

Para se ter uma ideia, após 13 rodadas oficiais do calendário, apenas um de 12 times (o Reading) já jogou 100% de suas partidas programadas. E obviamente, existe uma possiblidade de vermos a história de 2019/2020 se repetir na WSL em 2020/2021 – principalmente com a nova variante do coronavírus que tem gerado um boom de casos.

Dubai-Gate, campos destruídos e o eterno problema de calendário da WSL
(Foto: Naomi Baker/Getty Images)

A repetição do problema, que já não é de duas temporadas, mostra uma falta de ação e de pulso firme por parte da FA. É necessário ter uma fiscalização maior, cobrar as condições de campo minimamente razoáveis e uma estrutura que traga o mínimo de risco possível.

E tal ação não deve partir só da federação, mas também dos clubes. As instituições da WSL, em sua maioria, estão também na Premier League e possuem boa estrutura financeira. Bancar condições básicas de treino e jogo para suas atletas não é heroísmo: é o mínimo.

E para quem ignora a questão, o retorno esportivo uma hora chega. Basta ver os casos do Sunderland, um dos melhores times recentes da Inglaterra e que despencou; e o Liverpool, poderoso entre os homens, mas rebaixado e ainda brigando para tentar voltar à primeira divisão entre as mulheres.

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A WSL quer ser a maior liga do mundo no futebol feminino, assim como a PL se estabeleceu no masculino. Para muitos, já é a maior. Mas um campeonato que deseja ser referência precisa ter três pilares importantes: organização, profissionalização total, e tratamento igual a todos os clubes.

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(Foto: Charlotte Tattersall/Getty Images)

Enquanto isso não acontece, mais um ano vai sendo prejudicado por conta dos problemas do calendário. Seja pelo Dubai-Gate, Covid-19 ou campos destruídos, todo um planejamento de calendário da WSL é jogado no lixo. E se a liga não abrir os olhos, sua reputação vai junto.