A pressão cada vez maior sobre os donos do West Ham

Gastos excessivos, instabilidade em campo e seca de títulos. Quais os fatores que aumentam a pressão sobre os proprietários do West Ham?

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A pressão cada vez maior sobre os donos do West Ham
Julian Finney/Getty Images

A monopolização do futebol criou o folclore de que para um time ser competitivo é necessário que haja investimentos milionários. Na Premier League, existem casos que confirmam tal premissa. O Chelsea de Roman Abramovich e o Manchester City de Mansour bin Zayed são grandes exemplos disso. No entanto, a cartada de que basta um proprietário milionário para trazer resultados positivos dentro de campo vai por água abaixo em alguns casos, como no do West Ham

No dia 19 de janeiro de 2010, os empresários David Gold e David Sullivan desembolsaram 105 milhões de libras para adquirir 50% dos Hammers. Os novos proprietários passaram a controlar os setores operacionais e comerciais do clube. Ainda em agosto de 2010, Gold e Sullivan adquiriram mais 30% das ações do time londrino.

Ao passo que o West Ham virou o “novo rico” do futebol inglês, a expectativa era de uma parceria de sucesso, sobretudo pelo histórico de Sullivan como cartola. O empresário esteve à frente do Birmingham City entre 1993 a 2009. Neste período de 16 anos, o time do centro-oeste da Inglaterra permaneceu na Premier League em 15 edições e ainda faturou uma Copa da Liga Inglesa (1994/1995).

Sullivan Gold West Ham
Julian Finney/Getty Images

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Em sua primeira entrevista à BBC como proprietário do West Ham, Sullivan traçou metas ousadas para o clube.

“Temos objetivos de curto e longo prazo. No curto prazo, queremos permanecer na Premier League e, no longo prazo, gostaríamos de lutar pelos quatro primeiros e pela Champions League. Este é um dia importante para nós. Por 20 anos, este é o clube que queríamos. O clube está agora de volta nas mãos de EastEnders, pessoas que entendem a comunidade e sua paixão pelos Hammers”.

Em janeiro de 2020, passaram-se dez anos desde que o clube foi adquirido pelos novos proprietários. Nesse meio tempo, os Hammers foram rebaixados, passaram por vexames em competições europeias e ainda não figuraram entre os principais times da Premier League. Conforme os resultados dentro de campo não vêm, a pressão é cada vez maior sobre os donos do West Ham.

Instabilidade na Premier League

Mesmo com os novos donos, a vida do West Ham não continuou mais fácil na Premier League. O final da temporada 2009/2010 quase teve um desfecho catastrófico aos Hammers. Sob comando de Gianfranco Zola, o clube passou sufoco na primeira divisão do futebol inglês. O clube permaneceu na zona de rebaixamento por dez rodadas e só conseguiu escapar da degola, de fato, no segundo turno. O clube da capital terminou na 17ª colocação com apenas 35 pontos.

Acontece que as chegadas de Gold e Sullivan no meio da temporada não deram resultados imediatos. O planejamento e contratações da última diretoria ainda estavam em vigência. De acordo com a BBC Sports, Sullivan destacou que não havia muito o que fazer durante a janela de inverno e criticou jogadores da equipe.

“Janeiro não é a melhor época para comprar jogadores. Você não consegue muitas barganhas. Mas o clube tem um elenco tão desequilibrado que os jogadores terão que ser comprados, emprestados ou adquiridos”.

A temporada 2010/2011 foi certamente o início da era Gold e Sullivan no West Ham. A primeira mudança foi no comando técnico. Avram Grant chegou para substituir o italiano Gianfranco Zola. Além disso, o clube contratou 12 jogadores entre a janela de verão e inverno.

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No entanto, o principal objetivo imposto por Sullivan de “permanecer na Premier League” foi por água abaixo. O West Ham terminou como lanterna na elite do futebol inglês na temporada 2010/2011. Os Hammers ainda tiveram a façanha de ser o time com menos vitórias na PL e com o terceiro pior ataque e defesa. Dessa forma, o clube retornou à Championship depois de seis temporadas.

Acesso na Championship e ostracismo na Premier League

O West Ham não teve vida fácil na Championship em 2011/2012. O time terminou na terceira colocação da tabela com 86 pontos, três a menos que o Reading, campeão daquela edição. Conforme o regulamento da segunda divisão, os times que terminam entre a terceira e sexta colocação vão aos playoffs para decidir a última vaga para a Premier League.

Sob o comando de Sam Allardyce, técnico que permaneceu por mais tempo na era Gold e Sullivan, o West Ham passou com tranquilidade sobre o Cardiff nas semis. A decisão foi contra o Blackpool. Os Hammers abriram o placar e levaram o empate.

No entanto, aos 42 minutos do segundo tempo, Vaz Tê marcou o gol que colocou o time londrino de volta à elite do futebol inglês. Sendo assim, a vaga nos playoffs da temporada 2011/2012 foi a única conquista com os novos proprietários.

Sam Allardyce West Ham
IAN KINGTON/AFP/Getty Images

Entre as temporadas 2012/2012 a 2014/2015, o West Ham não passou de um mero coadjuvante na Premier League. Respectivamente, os Hammers terminaram na décima, 13ª e 12ª colocação.

Segundo o Transfermarkt, o clube investiu, neste período, mais de 83 milhões de euros em contratações e não conseguiu nenhum título. O mais próximo que o time comandado por Allardyce chegou a uma conquista foi na Copa da Liga Inglesa da temporada de 2013/2014. Contudo, o time londrino foi massacrado pelo Manchester City nas semifinais.

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GLYN KIRK/AFP via Getty Images

Apesar da campanha modesta na Premier League em 2014/2015, o West Ham, inesperadamente, garantiu vaga à Europa League na temporada seguinte. Isso em virtude da Inglaterra figurar entre os três primeiros países de Fair Play da Uefa.

Os Hammers terminaram o campeonato como a equipe com o melhor Fair Play. Assim, o clube conseguiu classificar-se a uma competição europeia pela primeira vez na era Gold e Sullivan.

Fracassos europeus e gastos exorbitantes

A temporada 2015/2016 foi de mudanças ao West Ham. Depois de quatro anos à frente do clube, Sam Allardyce deixou o comando da equipe. Ainda naquele ano, os Hammers dariam adeus ao Boleyn Ground e se mudariam para o Estádio Olímpico de Londres

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Por mais que o clube estivesse classificado apenas na primeira fase das eliminatórias, Gold e Sullivan não economizaram para formar uma equipe competitiva. Foram gastos quase 53 milhões de euros em 16 reforços. O time ainda contava com um novo técnico, o quarto comandante dos novos donos.

Slaven Bilić foi o escolhido para conduzir os Hammers a um possível sucesso continental. Conforme o alto investimento e novo comando técnico, era de se acreditar no discurso de Gold e Sullivan no final da temporada 2015/2016.

“Queremos garantir ao Boleyn Ground a melhor despedida possível, e o progresso nesta competição (Uefa Europa League) certamente ajudará nisso”.

Consequentemente, os magnatas se enganaram. Após eliminar os Lusitanos, clube de Andorra e classificar-se no sufoco contra o Birkirkara, time de Malta, nos pênaltis, os Hammers despediram-se precocemente da competição. A eliminação foi contra o modesto Astra Giurgiu. Após sofrer empate no Boleyn Ground nos minutos finais, os ingleses foram derrotados por 2 a 1 na Romênia e deram adeus à Europa League.

Dan Mullan/Getty Images

Surpreendente, mesmo com o vexame europeu, foi justamente em 2015/2016 que o West Ham teve sua melhor campanha na Premier League com os novos donos. Com exímia temporada de Dimitri Payet, os Hammers terminaram na sétima colocação com 62 pontos. Pela segunda temporada consecutiva, o time conquistou vaga na Uefa Europa League.

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Em 2016/2017, a diretoria investiu pesado em contratações. Foram investidos mais de 83 milhões de euros em novos atletas para acabar com a seca de títulos da era dos novos proprietários. Assim como a temporada 2015/2016, o West Ham passou por vexames nacionais e europeus.

A eliminação na Europa League foi logo na segunda fase dos playoffs. O empate por 1 a 1 no Estádio Olímpico resultou na eliminação dos ingleses contra o Astra Giurgiu pelo segundo ano consecutivo.

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Na segunda temporada de Bilić à frente do West Ham, o clube terminou na 11ª colocação da Premier League e acabou com a sequência de dois anos na Uefa Europa League. Entre julho de 2015 a janeiro de 2017, os Hammers gastaram mais de 130 milhões de euros e, do mesmo modo, amargaram mais fracassos.

Mudanças de comando e risco de rebaixamento

Em janeiro de 2010, durante a apresentação dos novos proprietários, um dos discursos de Sullivan foi de que prezava pela manutenção de treinadores. Inegavelmente que a diretoria cumpriu tal premissa em um determinado período. Entre janeiro de 2010 e outubro de 2017 os Hammers esteviveram sob o comando de quatro técnicos.

“Nomeamos quatro técnicos e demitimos dois no Birmingham City em 16 anos. Acreditamos em nossos treinadores e damos a eles o tempo e o suporte de que precisam”.

O páreo de continuidade de trabalho deu-se fim em novembro de 2017. Após maus resultados no começo da Premier League, Slaven Bilić foi demitido ainda na 11ª rodada da liga. Até a demissão do croata em novembro de 2017, passaram apenas quatro técnicos no mandato dos novos proprietários. Gianfranco Zola (31,37% de aproveitamento), Avram Grant (31,25%) Sam Allardyce (45,85%) e Slaven Bilić (46,84%).

Como sucessor, David Moyes assinou um contrato de seis meses e apagou o incêndio. O treinador tirou o clube da zona de rebaixamento. Por mais que o escocês evitasse o segundo rebaixamento do clube na era Gold e Sullivan, não houve nenhuma possibilidade de renovação.

Dessa maneira, a diretoria decidiu apostar em um velho conhecido do futebol inglês para comandar o West Ham. Em maio de 2018, Manuel Pellegrini, campeão da Premier League em 2013/2014, assinou um contrato de três anos com os Hammers. Apenas na janela de 2018/2019, o clube investiu mais de 100 milhões de euros em contratações.

manuel pellegrini west ham
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Ainda que Pellegrini tenha terminado a temporada com 47,28% de aproveitamento – terceiro técnico com maior aproveitamento na era Gold e Sullivan – os Hammers tiveram um ano modesto. Em ambas as copas nacionais, o clube foi eliminado na quarta fase e terminou a Premier League apenas na décima colocação.

Sobretudo, os investimentos não cessaram na temporada 2019/2020. Na ocasião, o clube quebrou recorde de transferência e valores gastos – foram embolsados mais de 120 milhões de transferências. Uma das principais contratações foi a do atacante Sébastien Haller. A diretoria dos Hammers pagaram uma bagatela de 50 milhões de euros, tornando o francês a contratação mais cara da história do clube.

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Ainda que, pela segunda temporada consecutiva, o time tenha investido muito dinheiro em contratações, foi mais um ano tímido nos gramados. O início da temporada foi catastrófica. Sob o comando de Pellegrini, o West Ham terminou o primeiro turno da Premier League na amarga 17ª colocação, com dez derrotas, quatro empates e apenas cinco vitórias.

Diante esse cenário quase catastrófico, a diretoria optou por trocar de treinador ainda em dezembro de 2019. Velho conhecido da torcida e marcado por evitar o segundo rebaixamento dos Hammers na era Gold e Sullivan, David Moyes retornou ao clube com um principal objetivo: afastar qualquer possibilidade de queda à segunda divisão.

David Moyes West Ham
ADAM DAVY/POOL/AFP via Getty Images

Missão dada e missão cumprida. Ainda que o clube tenha continuado na zona de rebaixamento em algumas rodadas sob o comando de Moyes, o principal objetivo – e modesto – de evitar a queda foi concluído. O West Ham terminou na 16ª colocação com 39 pontos e um aproveitamento de 34,21%.

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Resumo da gestão dos novos proprietários

Já são mais de dez anos desde que Gold e Sullivan assumiram as ações do West Ham e os resultados ainda estão aquém do esperado. Entre janeiro de 2010 a outubro de 2020, os novos proprietários investiram mais de 570 milhões de euros em contratações. Além disso, foram seis técnicos em sete mudanças no comando e a diretoria ainda não conquistou nenhum título desde que assumiu o clube. 

As contratações questionáveis, gastos excessivos, risco de rebaixamento, instabilidade dentro de campo e nenhuma taça conquistada. Esses são os principais motivos que resultam em pressão cada vez maior sobre os donos do West Ham.

Mark Robinson/Getty Images

Abaixo, alguns números dos Hammers sob o comando de Gold e Sullivan.

Aproveitamento do West Ham na Premier League 

2009/2010: 17ª posição – 35 pontos* (Com a compra das ações de Gold e Sullivan em janeiro de 2010, os novos proprietários estiveram à frente do clube em apenas 17 jogos. Foram quatro vitórias, quatro empates e nove derrotas – apenas 16 pontos).

2010/2011: 20ª posição – 33 pontos.

2012/2013: 10ª posição – 46 pontos.

2013/2014: 13ª posição – 40 pontos.

2014/2015: 12ª posição – 47 pontos.

2015/2016: 7ª posição – 62 pontos.

2016/2017: 11ª posição – 45 pontos.

2017/2018: 13ª posição – 42 pontos.

2018/2019: 10ª posição – 52 pontos.

2019/2020: 16ª posição – 39 pontos.

Aproveitamento geral: 39,18%. 

Aproveitamento do West Ham nas Copas domésticas

2010/2011: Copa da Liga Inglesa – Semifinal; Copa da Inglaterra – Quartas.

2011/2012: Copa da Liga Inglesa – 1ª fase; Copa da Inglaterra – 3ª fase.

2012/2013: Copa da Liga Inglesa – 3ª fase; Copa da Inglaterra – 3ª fase.

2013/2014: Copa da Liga Inglesa – Semifinal; Copa da Inglaterra – 3ª fase.

2014/2015: Copa da Liga Inglesa – 2ª fase; Copa da Inglaterra – Oitavas.

2015/2016: Copa da Liga Inglesa – 3ª fase; Copa da Inglaterra – Quartas.

2016/2017: Copa da Liga Inglesa – Oitavas; Copa da Inglaterra – 3ª fase.

2017/2018: Copa da Liga Inglesa – Quartas; Copa da Inglaterra – 4ª fase.

2018/2019: Copa da Liga Inglesa – 4ª fase; Copa da Inglaterra – 4ª fase.

2019/2020: Copa da Liga Inglesa – 3ª fase; Copa da Inglaterra – 4ª fase.

Aproveitamento do West Ham na Europa League

2015/2016: Europa League – Playoffs.

2016/2017: Europa League: Playoffs.

Aproveitamentos de técnicos

Gianfranco Zola (2010): 17 jogos – quatro vitórias, quatro empates e nove derrotas. Aproveitamento de 31,37%.

Avram Grant (2010/2011): 48 jogos – 15 vitórias, 12 empates e 21 derrotas. Aproveitamento de 31,25%.

Sam Allardyce (2011 – 2015): 181 jogos – 68 vitórias, 45 empates e 68 derrotas. Aproveitamento de 45,85%.

Slaven Bilić (2015 – 2017): 111 jogos – 42 vitórias, 30 empates e 39 derrotas. Aproveitamento de 46,84%

David Moyes (2017/2018; 2019/2020): 52 jogos – 15 vitórias, 15 empates e 22 derrotas. Aproveitamento de 38,46%.

Manuel Pellegrini (2018 – 2019): 64 jogos – 24 vitórias, 11 empates e 29 derrotas. Aproveitamento de 43,22%.

Contratações mais caras por temporada

2009/2010: Benni McCarthy – 2,6 milhões de euros.

2010/2011: Pablo Barrera – 4,8 milhões de euros.

2011/2012: Kevin Nolan – 3,4 milhões de euros.

2012/2013: Matt Jarvis – 9,5 milhões de euros.

2013/2014: Andy Carroll – 17,5 milhões de euros.

2014/2015: Enner Valencia – 15 milhões de euros.

2015/2016: Dimitri Payet – 15 milhões de euros.

2016/2017: André Ayew – 24,1 milhões de euros.

2017/2018: Marko Arnautovic – 22,3 milhões de euros.

2018/2019: Felipe Anderson – 38 milhões de euros.

2019/2020: Sébastien Haller – 50 milhões de euros.

2020/2021: Tomáš Souček – 16,2 milhões de euros.

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