Desastre de Hillsborough: a história de uma das maiores tragédias do futebol

96 torcedores morreram e mais de 700 ficaram feridos em uma partida de Copa da Inglaterra enter Liverpool e Nottingham Forest, em 1989

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Naquele 15 de abril de 1989, 96 torcedores saíram de casa para assistir a uma partida válida pela semifinal da Copa da Inglaterra, mas nenhum deles voltou. O Desastre de Hillsborough foi, certamente, uma das maiores tragédias do futebol e mudou completamente o panorama do esporte na Inglaterra. Após o desastre, a relação torcedor-estádio nunca mais foi a mesma na Inglaterra.

O contexto da época anterior ao Desastre de Hillsborough

O futebol inglês, na época, era muito diferente do que é hoje em dia. Estádios acabados e com infra-estrutura precária, uso de grades para impedir invasões ao campo e muitas brigas envolvendo hooligans. A violência era um problema grave do futebol inglês, que lutava para reforçar a segurança.

Quatro anos antes, uma outra grande tragédia mudou a história do esporte. Liverpool e Juventus se enfrentavam na final da Liga dos Campeões em Heysel, na Bélgica, e o clima era tenso.

(Foto: Getty Images)

Hooligans derrubaram as grades que separam as torcidas e agrediram torcedores da Juventus. 39 pessoas morreram, a grande maioria de italianos. A tragédia não impediu a realização do jogo, e a Velha Senhora derrotou o Liverpool por 1 a 0 num melancólico 1 a 0.

As imagens chocaram o mundo do futebol, e os clubes ingleses foram proibidos pela Uefa de disputar competições europeias por cinco temporadas.

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Problemas antes do jogo começar

A partida entre Liverpool e Nottingham Forest foi disputada em campo neutro, na cidade de Sheffield, no estádio de Hillsborough, que recebia muitos jogos de semifinais da Copa da Inglaterra, embora tivesse claros problemas de infraestrutura.

Mesmo com muito mais torcida, o Liverpool foi destinado ao menor setor do estádio. A torcida dos Reds ficou limitada a um espaço e entradas menores. Isso virou um perigoso problema.

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Os torcedores foram entrando no estádio, mas a polícia não soube organizar a entrada dos mesmos. Com isso, novos portões foram abertos em um setor que já estava abarrotado de gente.

A segurança do estádio deixou entrar o dobro do número de torcedores que o permitido no setor chamado Leppings Lane. O resultado foi uma catástrofe sem precedentes na história do futebol inglês.

Jogo mal começa, e situação fica caótica

Aos três minutos de jogo, uma bola na trave animou a torcida, e a movimentação piorou a situação dos torcedores aglomerados no setor do Liverpool.

Quando a confusão se agravou, muitos torcedores avisaram os atletas em campo do que estava acontecendo. Os gritos de desespero chamaram a atenção dos jogadores, que alertaram a arbitragem, mas pouco se sabia o que estava realmente acontecendo naquele momento.

O caos estava instalado e o desespero tomou conta de todo o estádio. A vítima mais nova dentre os 96 mortos era John-Paul, de 10 anos, dois a mais que seu primo Steven Gerrard.

Autoridades e parte da imprensa culpam torcedores…

As autoridades locais responsabilizaram o hooliganismo e o consumo de bebida alcoólica para justificar as 96 mortes e mais de 700 feridos no Desastre de Hillsborough.

Além disso, a polícia afirmou, à época, que torcedores do Liverpool sem ingresso forçaram a entrada no estádio, o que teria causado a confusão.

O tabloide The Sun foi mais um a tentar emplacar a culpa dos torcedores. Com a manchete chamada “A verdade”, o periódico alegou que torcedores urinaram nos policiais, roubaram os mortos e bateram nos médicos. Nenhuma das alegações era verdade.

O jornal “se baseava” em informação de dentro da polícia local e demorou décadas para reconhecer seus erros na cobertura do caso. Até hoje, o diário é odiado em Liverpool.

Mas…a culpa não foi dos torcedores

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(Torcedor chora na arquibancada de Hillsborough / Credit: PA)

Depois de muitas disputas – e derrotas – na Justiça, os familiares das vítimas resolveram se reunir novamente em 2009 e lutar contra as acusações. O grupo montou um painel independente e coletou provas para apresentar um novo caso.

Segundo o relatório das famílias, ficou claro que autoridades orquestraram uma narrativa para culpar os próprios torcedores pela tragédia. Eles, inclusive, alteraram evidências que culpavam a polícia e omitiram provas importantes, como imagens das câmeras do estádio.

Mais de 150 depoimentos foram alterados pelas autoridades. Além disso, segundo o relatório, 41 pessoas poderiam ter sido salvas, se a ajuda médica fosse mais efetiva e rápida.

Aliás, só em 2012 o governo britânico pediu desculpas pela tragédia. Três anos depois, o chefe de polícia David Duckenfield assumiu a culpa pela tragédia e pediu desculpas aos familiares das vítimas.

“Todos sabiam a verdade, os torcedores e a polícia sabiam da verdade, que nós abrimos os portões”, disse Duckenfield.

Em 2016, a Justiça inglesa finalizou as investigações e concluiu que houve crime de negligência dos responsáveis pela segurança.

Além de Duckenfield, outros cinco foram indiciados: Graham Henry Mackrell, diretor de segurança do Sheffield Wednesday, clube dono do estádio; Peter Metcalf, advogado que representou a Polícia nas primeiras investigações; e Donald Denton, Alan Foster e Norman Bettison, três policiais do condado de South Yorkshire, .

O Desastre de Hillsborough foi resultado da má administração dos estádios e do despreparo e irresponsabilidade das autoridades.