Depressão e suicídio no futebol – um segredo revelado

Um assunto sério a ser discutido

depressão e suicídio no futebol

Narrado por Clarke Carlisle, ex-defensor de nove clubes e ex-presidente da Associação dos Jogadores Profissionais da Inglaterra. Especial da BBC sobre depressão e suicídio no futebol inglês e traduzido pela PL Brasil

Todos pensavam que eu tinha conseguido, que eu tinha uma vida dos sonhos. E eu tinha. Era um jogador de futebol profissional de 21 anos de idade pelo Queens Park Rangers e pela seleção da Inglaterra Sub-21. Eu tinha um bom apartamento, um bom carro e uma família amorosa. Entretanto, minha mente irracional me fez pensar que o suicídio era uma ação racional.
Então, fui para um parque próximo de casa, em Acton, munido de muitos analgésicos e pensei: “Vou tomar todas essas pílulas e me matar porque não sirvo para nada”. Eu tinha acabado de sofrer uma grave lesão no joelho e tinha me convencido que sem o futebol, as pessoas me viam como eu realmente era, ou seja, nada.

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Eu sentei no banco daquele parque, engoli as pílulas tomando uma lata de cerveja e esperei acontecer. No final, eu tive uma incrível sorte, porque minha namorada me encontrou e fui levado para o hospital a tempo de ter meu estômago bombeado.

Eu sobrevivi e nunca disse para nenhuma outra alma sobre o incidente por anos e não pedi nenhuma ajuda. Eu apenas tranquei essa tentativa de suicídio na “Caixa da Pandora”.

Como você pode imaginar, foi horrível voltar para lá [além do texto, Carlisle gravou um documentário para a BBC e voltou ao parque onde tentou cometer suicídio], eu não aguentava. Era horrível pensar que algo tão forte poderia ter caído sobre mim, de modo a me fazer perder de vista tudo de bom na minha vida. Eu pensei sobre o que eu poderia ter perdido – o ótimo relacionamento com minha filha, encontrar minha esposa – e eu fiquei muito envergonhado.

É por isso que conversar com a irmã de Gary Speed [ex-jogador e técnico do País de Gales, que cometeu suicídio em 2011], Lesley, foi um momento marcante, uma epifania de fato. Falar com ela me fez ver o que eu poderia ter feito a minha própria família passar.

Eu vi o “Efeito Borboleta” – como as vidas dos pais de Gary, filhos, esposa, vizinhos e a comunidade próxima do futebol estavam todas abaladas com sua decisão de tirar a própria vida. Foi a primeira vez que Lesley falou publicamente sobre a morte de Gary. Ela disse que se alguém lhe perguntasse se Gary sofria de depressão antes disso, ela diria que absolutamente não.

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“Ele escondeu isso de nós e isso o evitou de pedir ajuda”, disse Lesley. Ela lamenta não poder ter ajudado o irmão. “É um enorme peso pensar que eu não o chamei num canto e perguntei: ‘está tudo bem?'”.

Sei muito bem que a maioria dos depressivos são grandes atores que podem se transformar em uma pessoa diferente, de fachada. O que você precisa é ser capaz de abrir-se, no entanto, a crueldade da doença reside no fato que ela não vai deixar isso acontecer.

Falei com outros jogadores profissionais que sofreram em silêncio com a depressão, e agora eu acredito que há centenas de profissionais e ex-profissionais que estão sofrendo com a doença, embora possam não saber.

Falei com o ex-meia do Aston Villa Lee Hendrie, que ganhava £40 mil por semana e tinha £10 milhões em propriedades no auge de sua carreira. “Eu pensei que tinha chegado ao lugar onde eu queria estar”, disse Hendrie.

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No entanto, sua vida mudou quando caiu na falência após o calote em uma série de hipotecas. “Eu me senti como se todo o mundo tivesse caído em cima de mim e pensei: ‘Eu não posso seguir em frente'”. Por duas vezes, tomou doses exageradas de pílulas para dormir e assim como eu, foi encontrado e sobreviveu. “Estar aqui e saber que atingi o fundo do poço era horrível“.

Leon McKenzie, ex-atacante do Norwich City, também tentou se matar após uma séria contusão combinada com o fim do seu casamento e ruptura na família.

Como presidente da Associação dos Jogadores Profissionais (AJP), fiquei chocado ao ouvir que Leon tinha telefonado para a minha entidade para falar sobre sua depressão e uma resposta clara ainda não havia sido dada. Foi muito revelador saber que nem Hendrie, nem McKenzie sentiam que poderiam falar com qualquer um sobre seus problemas.

De repente, essa percepção fez sentido a um monte de coisas que tinha feito na vida e me levou a descobrir o máximo que pude sobre a doença.

Como presidente, também tive um senso de responsabilidade para ajudar os meus colegas profissionais. Eu tenho um corpo muito forte, mas que pode quebrar, e a mente é a mesma coisa.

A depressão é uma lesão mental que precisa de diagnóstico e tratamento.

Você tem que encontrar os estopins, analisá-los e em seguida, reduzir as chances de um episódio depressivo. Se as pessoas são educadas sobre a depressão, eles têm uma melhor chance de entender os estopins, detectar os sinais de depressão e fazer algo sobre isso – seja para si ou para outrem. É tudo uma questão de conhecimento e educação.
Precisamos de investigação científica sobre os “gatilhos” potenciais para a depressão. Por exemplo, quando um jogador se aposenta, suas chances de desenvolver uma depressão clínica sobem 40%.

Outros “gatilhos” comuns são lesões, ser transferido, a incapacidade separar a vida profissional da pessoal. No entanto, devo também salientar que muitas vezes não há um “gatilho” lógico, porque a depressão é uma doença indiscriminada.

Eu viajei para a Alemanha e fiquei muito impressionado com os mecanismos que eles colocaram em prática para enfrentar a depressão após o suicídio do goleiro Robert Enke, em 2009. Cada clube profissional tem acesso a tratamento psiquiátrico e a Fundação Robert Enke tenta aumentar a conscientização sobre a doença mental.

Como parte do documentário, eu juntei todas as minhas descobertas e as levei para o presidente da Football Association (FA), David Bernstein. Eu disse: “O que você vai fazer?”. Ele admitiu que a questão havia sido negligenciada por muito tempo. Disse que quer enfrentar o estigma que envolve questões de saúde mental porque “a própria natureza do problema é que ele tende a ser mantido quieto”.

O futebol precisa resolver isso de uma maneira coordenada e estou determinado a ajudar a fazer isso acontecer.