De olho no Reading, líder invicto da Championship

Campanha dos Royals é histórica, com seis vitórias em sete jogos

Rafael Cabral no Reading
Naomi Baker/Getty Images

Após sete rodadas, o Reading é líder isolado da Championship 2020/2021. O fato, por si só, já é inesperado. Mas ainda mais surpreendente é a campanha do clube nesse início de temporada. Em sete jogos pela liga, seis vitórias e um empate, com 11 gols marcados e apenas um sofrido. Ou seja, seis cleans sheets, além, é claro, de uma arrancada incrível na tabela.

Em função desse grande momento do Reading, a PL Brasil resolveu contar um pouco da ótima sequência na segunda divisão e dos bastidores por trás dessa história.

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Investimento e reforços

Um time conhecido, incrível desempenho na Championship, investimento chinês e jogadores portugueses em destaque. Olhando assim, parece até a descrição o Wolverhampton da temporada 2017/2018. Mas não, estamos falando mesmo do Reading 2020/2021. E não, Alexandre Mattos não chegou a assumir a diretoria esportiva do clube.

Tendo disputado a Premier League pela última vez na temporada 2012/2013, os Royals recentemente estiveram muito perto tanto de subir, em 2017 (quando derrotados pelo Huddersfield na final dos playoffs), quanto de cair, em 2018 e 2019 (quando terminaram na 20ª colocação). Já na última edição, um discreto 14º lugar.

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Nesse ínterim, após o quase acesso, o Reading foi passou a ser controlado pelo capital dos bilionários irmãos Dai Yongge e Dai Xiu Li. Com eles, veio o apoio financeiro, voltado, sobretudo, à renovação da estrutura dos Royals, destacadamente o centro de treinamento da equipe em Bearwood Park.

Contudo, os altos valores despendidos também ajudaram a colocar o time no radar da English Football League (EFL), que impôs certas restrições de transferências aos Royals, sobretudo em relação a quantidade de jogadores e seus contratos. Até por isso, no elenco apenas investimentos mais modestos, destacando-se, para 2019/2020, as chegadas de Lucas João, do Sheffield Wednesday, e George Puscas, da Inter de Milão.

George Puscas
Naomi Baker/Getty Images

Na sequência, o clube manteve sua postura até certo ponto tímida no mercado para esta temporada, focado principalmente em segurar as joias do elenco. No radar de clubes da Premier League, o camisa 10 John Swift e o jovem talento Michael Olise não foram vendidos, enquanto Ovie Ejaria, antes emprestado pelo Liverpool, foi contratado em definitivo.

Já no mercado de transferências propriamente dito, poucas movimentações, mas nem por isso irrelevantes. Na verdade, muito pelo contrário. Por empréstimo, chegaram Lewis Gibs e os badalados Alfa Semedo e Tomás Esteves, revelações de Everton, Benfica e Porto, respectivamente. Sem custos, juntou-se ao grupo Josh Laurent, do Shrewsbury Town.

Boa fase do Reading: Veljko Paunovic e a força do elenco

Para dar sequência ao promissor – e por que não ambicioso – projeto, o clube resolveu apostar em uma figura nova no comando técnico. Mark Bowen deu lugar a Veljko Paunovic. Ex jogador do Atlético de Madrid, o treinador sérvio acumula passagens pelas equipes de base de sua seleção, além de longo período no Chicago Fire. E a aposta, por enquanto, vem dando muito resultado.

Após uma temporada razoável e sem sustos, o clube sonhava sim em alçar voos maiores para, quem sabe, lutar por uma vaga nos playoffs. Por outro lado, a cautela preponderava e o cenário atual era inimaginável. Até porque, a até aqui incrível campanha dos Royals já é histórica: o melhor início de um clube na segunda divisão inglesa na era Championship.

Em uma liga tão equilibrada e competitiva, o feito é realmente extraordinário. Basta observar, por exemplo, que a diferença de pontos do Watford para o 2º colocado, no momento de cinco pontos, é maior que a do 2º para o 14º, apenas quatro.

Veljko Paunovic, treinador do Reading
Naomi Baker/Getty Images

E Veljko Paunovic tem conseguido isso com certa autoridade, demonstrando que pode ter um elenco confiável para aguentar a longa temporada, superando desde já grandes adversidades. A ótima sequência foi alcançada praticamente inteira sem John Swift, um dos craques do time, lesionado. Aliás, junto dele, Felipe Araruna e Andy Yadom também estão no departamento médico.

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Assim, em sete jogos, Paunovic lançou mão de seis escalações diferentes. Além disso, já utilizou 21 jogadores nesse curto período de tempo. E ainda cabe lembrar que os extremamente promissores Alfa Semedo e Tomás Esteves, que devem ser bastante aproveitados, recém chegaram ao Madejski Stadium.

E durante essas sete rodadas, o Reading mostrou que, embora alternando boas e médias atuações, é possível manter a regularidade e a eficiência. Mas claro que também contando com um pouco de sorte. Até aqui, mesmo quando não convence, vence.

Reading Championship 2020/2021
Naomi Baker/Getty Images

E por mais que a amostra ainda seja pequena, o desempenho de certa forma reflete bem o que o clube tem a enfrentar na temporada, sobretudo pelo variado nível (e padrão de jogo) dos adversários.

Das seis vitórias, três contra adversários que provavelmente figurarão na parte de baixo da tabela (Barnsley, Wycombe e Roterham), mas também três contra fortes candidatos a brigar pelo acesso (Derby County, Watford e Cardiff). Destaque especial para a vitória sobre o Watford, grande postulante a retornar à Premier League, por enquanto o único revés dos Hornets.

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Os destaques do Reading 2020/2021

Rafael Cabral no Reading
Naomi Baker/Getty Images

Com apenas um gol sofrido em sete jogos, impossível o maior trunfo do time ser outro que não sistema defensivo. E a começar por aquele que desde a temporada passada já vinha sendo um dos principais, senão o principal, pilar da equipe. Rafael Cabral, goleiro titular do Santos campeão da Libertadores em 2011, foi eleito o melhor jogador dos Royals em 2019/2020.

Tendo repercutido por uma série plástica de defesas em janeiro, o arqueiro acumula várias grandes atuações. Titular absoluto e incontestável desde que chegou no clube, há pouco mais de um ano, é extremamente seguro e ainda protagoniza lances espetaculares com certa frequência. E se foram 13 clean sheets na última edição, nesta já são seis.

Mas é claro que a defesa menos vazada da liga também deve, e muito, ao excepcional desempenho de seus zagueiros. Lá estão os experientes Liam Moore, capitão, e Michael Morrison. Este, líder da equipe em interceptações e duelos aéreos; aquele, em desarmes.

Já nas laterais, é a juventude que se destaca, com dois jogadores formados no próprio Reading. Aos 22 anos, Omar Richards é o dono da posição na esquerda, enquanto Tom Holmes, originalmente zagueiro, vem surpreendendo positivamente após as contusões de Andy Yadom e Felipe Araruna, as opções usuais para o setor, que agora conta também com Tomás Esteves.

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No meio-campo, a qualidade empolga. Na formação 4-2-3-1 de Paunovic, a contenção fica com a dupla Andy Rinomohta, o ladrão de bolas da equipe, e Josh Laurent, que desde que chegou faz por merecer a vaga no time titular. Logo à frente, dois nomes para prestar atenção: Michael Olise e Ovie Ejaria. Já são três assistências e um gol para o primeiro, um de cada para o segundo.

Quem completa a linha é Yakou Meité, formado no PSG e grande destaque no último sábado, autor de dois tentos na vitória por 3 a 0 sobre o Rotherham. Aliás, foi o artilheiro do Reading na edição passada, com 13 gols, um a mais que George Puscas, com quem teve excelente parceria. A estrela romena por sua vez, contudo, perdeu o posto de titular absoluto nesta temporada, em função, sobretudo, do ótimo momento de Lucas João.

Angolano naturalizado português, ele esteve fora de grande parte da Championship 2020/2021, lesionado, mas mesmo assim já comprovara seu potencial. Já tendo jogado ao lado de Puscas, imaginou-se que agora seria um reserva de luxo, mas tomou a posição. De invejável porte físico, Lucas João iniciou a temporada com um hat trick na Copa da Liga. Depois disso, titular em cinco jogos da Championship, com quatro gols e uma assistência.

Assim, o Reading é sim uma forte equipe. Contudo, a 39 rodadas do fim de um árduo e cruel campeonato, ainda impossível cravar o quão longe podem chegar os comandados de Veljko Paunovic. Neste início, rodada a rodada, os Royals vêm se mostrando dignos candidatos a lutar por uma vaga na Premier League 2021/2022. Se conseguirão, só o tempo vai dizer, mas certamente é um time para, desde já, ficarmos de olho.

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