De joia do Ninho a pupilo de Júlio Baptista no Real Valladolid, conheça João Pedro

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Nesta semana, o mais recém convidado do quadro “Brasileiros pela Europa” é o ponta-esquerda João Pedro, de 19 anos, promessa do Real Valladolid, da Espanha. Dessa forma, em entrevista exclusiva à PL Brasil, o jogador falou sobre a saída do Flamengo para o clube espanhol e a expectativa de alcançar o profissional.

De joia do Ninho a pupilo de Júlio Baptista no Real Valladolid, conheça João Pedro
Foto: Reprodução/Instagram

Jogador ou dançarino?

Natural de Queimados, na região de Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, João Pedro teve um começo diferente da maioria dos casos, pois ele não tinha o sonho de ser tornar jogador profissional, a paixão pelo esporte foi florescer com o passar do tempo. Assim, na infância, o garoto carioca queria ser dançarino.

“Por incrível que pareça não (sonho de ser jogador). Quando criança eu era muito dançarino, eu lembro que eu dançava muito, pagode e etc. Então no começo o futebol não era uma prioridade, era esporadicamente. Pouco tempo depois fui pegando paixão pelo futebol, aí comecei a jogar mesmo.”

Começo da carreira 

JP deu os seus primeiros passos na carreira, aos sete anos de idade, quando um professor chamado Carlos André, o convidou para realizar um teste em um time de futsal da escola da região.

“Pela rotina dos meus familiares era difícil de me levar para fazer o teste, mas mesmo assim o professor insistia muito, até que um auxiliar dele se comprometeu a me levar.

Cheguei lá, uma realidade diferente da que eu estava acostumado, fui aprovado na avaliação e comecei a jogar.

Depois de um tempo o meu irmão mais velho assumiu a responsabilidade de me levar para os treinamentos, e de fato, a me orientar na carreira.

Aos 10 anos, após ir me desenvolvendo nesse time de futsal, fui convidado para jogar em um time de campo da minha cidade chamado Parque Ipanema. Pouco tempo depois, meu irmão me levou para fazer um teste no Nova Iguaçu.”

Nova Iguaçu 

Clube tradicional do Rio de Janeiro, o Nova Iguaçu é conhecido por dar oportunidade a diversos garotos, fazendo com que eles evoluam para depois serem vendidos para clubes maiores do estado. Logo, João Pedro foi mais uma joia abraçada pelo time, onde permaneceu por cerca de um ano.

“No dia do teste, meu irmão conversou muito comigo, para me dar uma tranquilizada, tirar o nervosismo, né. Daí no teste, o avaliador tinha o apelido de Ronaldão, e então ele me chamou para conversar e propôs um desafio: ‘você tem muito potencial, mas assim, se você marcar um gol agora, você está aprovado’.

Na mesma hora peguei a bola, sai driblando todo mundo, e na frente do gol dei uma cavadinha, na hora que a bola estava entrando, um outro menino do meu time empurrou pro gol (risos).

Mas então, novamente o técnico me chamou, me abraçou e falou: ‘meu filho, você já está aprovado’. “

Chegada ao Ninho

No período que vestia as cores do Nova Iguaçu, o ponta-esquerda começou a chamar atenção pela sua velocidade e dribles. Dessa forma, em um jogo no qual ele marcou um gol e deu duas assistências, o garoto despertou o interesse do Flamengo.

“Em um jogo contra eles (flamengo) pelo Nova Iguaçu, eu fui muito bem, marquei um gol e dei duas assistências.

modéstia a parte foi um golaço, peguei a bola no meio do campo e sai arrancando, driblei a marcação e chutei entre as pernas do goleiro, foi um dia muito feliz.  e Após o jogo, algumas pessoas do Flamengo foram conversar com o meu irmão. 

Mas no primeiro momento eu acabei não indo para o Flamengo, segui no Nova Iguaçu, e ao mesmo tempo comecei a jogar futsal no Mangueira no Sub-11.

por lá, apareceu novamente a oportunidade de enfrentar o Flamengo, fui bem, recebi o convite para ir, e aceitei jogar no futsal. Pouco tempo depois, recebi a oportunidade de mudar para o campo, passei por uma avaliação e o professor Ramon Lima me aprovou, e então optei por sair do Nova Iguaçu e ficar só no Flamengo mesmo.”

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Foto: Reprodução/Instagram

Convocação para a Seleção Brasileira Sub-15

E foi no Flamengo que João Pedro realizou alguns dos seus maiores sonhos até o momento na carreira, um foi a convocação para a Seleção Brasileira Sub-15 e o outro, um contrato exclusivo de patrocínio com a Adidas. 

“Na época, fomos disputar a Copa Votorantim, éramos os atuais campeões com a geração do Reinier e do Lázaro, e não começamos bem, passamos pela fase de grupos com um certo sufoco.

Aí no último jogo contra o Grêmio, estava já no final do jogo, saiu um escanteio para eles, então a bola foi cortada, eu peguei e sai no contra-ataque, passei pelo marcador, e encobri o goleiro. Logo depois do jogo, os representantes da Adidas conversaram com o meu irmão e quando voltamos pro Rio de Janeiro, eu assinei o contrato. 

A convocação foi a realização de um sonho. Fomos disputar a Copa Nike na Europa, uma competição gigante na base.

Aos poucos, fomos avançando de fase, e os avaliadores da Seleção estavam lá, mas eu não me preocupei ou deixei isso tirar a minha concentração.

Nessa acabei me destacando, e na final fomos campeões nos pênaltis sobre o São Paulo. Ai na volta para o Rio de Janeiro, eu e mais três companheiros fomos informados sobre a convocação para a Seleção, no mesmo dia fui para casa contar a notícia para a minha família.”

De joia do Ninho a pupilo de Júlio Baptista no Real Valladolid, conheça João Pedro
Foto: Instagram

Vivência com os veteranos 

Em 2019, com a chegada do técnico português Jorge Jesus, os treinos do time profissional do Flamengo acabaram sendo mais fechados, para evitar que vazassem informações para a imprensa. Neste momento, JP teve seus primeiros contatos com os veteranos do time de cima, com Diego Alves e Diego, os que mais falavam com os meninos da base.

“Na Gávea são cinco campos, e quando o Jorge Jesus chegou, ele fechou o treino do profissional. então o contato era quando íamos treinar com eles, logo o Diego Alves e o Diego falavam muito com a gente, davam confiança.” 

Tragédia no Ninho 

Em fevereiro de 2019, aconteceu uma das maiores tragédias do futebol nacional. Na época, cerca de 10 garotos da base do Flamengo acabaram perdendo suas vidas em um incêndio no Ninho do Urubu.

Assim, o fogo se expandiu até o alojamento onde os meninos dormiam, das vítimas, João Pedro era amigo de três, e por pouco, conseguiu escapar da tragédia, junto de outro companheiro de clube.

“Ninguém sabe explicar o que aconteceu, Quando eu cheguei não podia ficar no alojamento pela idade, mas depois passei a ficar por lá, e no alojamento, é algo como uma família, os monitores e os jogadores se tornam amigos.

Mas no dia em si, estávamos treinando, e depois do treino, fomos informados que no dia seguinte teríamos folga já que era feriado, então decidi que ia voltar pra casa, aí eu acabei indo para a casa de um amigo que a mãe dele é empresária e conhecia a gente, e nisso eu consegui levar um menino comigo, pois em cada quarto nos alojamentos eram cinco garotos.

Já os outros três não foram, porque um era de Minas Gerais, e os outros dois moravam em Madureira e São João de Meriti, e não tinham tanta proximidade com essa família que eu e o meu amigo fomos.

Até brinquei com eles na época, porque eles queriam que eu dormisse lá também, mas acabei que não fiquei e nem consegui dar um abraço neles.

Fui dormir na casa desse amigo na Barra da Tijuca, e foi quando no outro dia de manhã, acordei com o meu antigo treinador do time da escola me ligando, mas como estava com sono não atendi, aí o outro menino que foi comigo me acordou dizendo que o Ninho estava pegando fogo, e vimos na televisão.

Foi uma situação desesperadora, sai avisando os meus familiares que estava tudo bem comigo, mas das 10 mortes, as primeiras confirmadas foram dos meninos que estavam no meu quarto, o Samuel Thomas, Jorge e o Christian. Chorei muito, fui pra casa arrasado, foi difícil, abalou todo mundo.”

Saída do Flamengo 

Em fevereiro desse ano, o ponta-esquerda viu o seu vínculo com o Flamengo se aproximar do fim. Logo, ele já poderia assinar um pré-contrato com o outro clube e sair de graça ao final do seu acordo.

Contudo, ele acabou recebendo o contato do ex-zagueiro Paulo André, atual dirigente do Real Valladolid, da Espanha, clube que pertence a Ronaldo Fenômeno. Assim, durante as conversas, o brasileiro e o seu staff gostaram do projeto apresentado pelo dirigente, e decidiram partir para o país europeu, encerrando uma passagem de sete anos no Rubro-Negro.

“A minha saída foi boa para ambos os lados, tive a oportunidade de treinar no profissional, mas não cheguei a estrear.

E como o clube vive um bom momento administrativo, é difícil que os meninos da base tenham espaço no profissional, os próprios treinadores conversavam com a gente sobre isso.

Então quando eu recebi o contato do Paulo André, pelo Real Valladolid, enxerguei uma boa oportunidade, um bom projeto, óbvio que eu acredito no meu potencial, poderia ter ficado para tentar brigar por um espaço, mas seria bem difícil, por conta disso aceitei essa oportunidade de poder jogar fora do país.”

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Foto: Reprodução/Instagram

Vida nova na Espanha 

Em poucos meses no Velho Continente, o garoto sofreu no começo para se adaptar a nova realidade. Afinal, o clima frio e a língua espanhola estavam bem longe do que ele estava acostumado no Brasil. Esses motivos, atrapalharam na sua adaptação, mas aos poucos, JP foi entrando no ritmo, e diz ser outra pessoa atualmente.

“Quando eu cheguei aqui, encontrei uma realidade totalmente diferente. Já no aeroporto, tive que lidar com o frio intenso da Europa. Temporada passada disputei no time juvenil (Sub-19), terminei bem, mas mesmo assim, eu sabia que poderia entregar mais, sabe?

Nessa nova temporada, estou no time promessas (Sub-23), treinado pelo Júlio Baptista, ele conversou muito comigo, pediu comprometimento para brigar pelo meu espaço e é isso que está acontecendo. Comparada a temporada passada? Já me vejo outra pessoa, bem mais adaptado ao estilo de futebol daqui, estou muito feliz. Se Deus quiser, vou conseguir minha chance no profissional, é só focar e trabalhar para fazer isso acontecer.

Relação com Reinier e Lázaro

Dentre os colegas da época de Flamengo, dois que João Pedro mantém contato frequente, são o meia Reinier, e o atacante Lázaro. O primeiro pertence ao Real Madrid, mas está emprestado no Girona. Já o segundo, se transferiu nesta última janela de transferências para o recém promovido Almería.

“Quando eu cheguei aqui o Lázaro não tinha vindo ainda, só o Reinier. O Reinier me explicou muito sobre como as coisas funcionam aqui, para eu seguir sendo o mesmo dentro de campo, tenho uma boa relação até com a família dele.

Já com o Lázaro, quando ele chegou, conversei com ele, depois do jogo contra o Almería, fui encontrar com ele no hotel, lá falei até com o Kayky (ex-Santos), peguei Seleção com ele, conversei com os moleques tudo.”

Expectativa para a temporada

Habituado ao futebol espanhol, o ponta-esquerda diz que tem como meta poder ajudar a equipe coletivamente, mas que também irá buscar destaque individual para poder realizar o sonho de subir e estrear no time profissional.

“Estou pronto para o profissional. Já treinei diversas vezes com o time profissional no Flamengo, então me sinto confiante, adaptado as diferenças de base para o profissional, no próprio Valladolid tive a chance de treinar no profissional, as expectativas são de conseguir essa oportunidade trabalhando no Sub-23, quero seguir jogando, ajudando dentro de campo, com bons números, espero seguir evoluindo.”

Fala, João Pedro!

Fala, Brasil! Eu sou o João Pedro, e em campo eu sou ambicioso, sempre que pego a bola busco partir para o enfretamento, no drible, veloz, explosivo. Busco chegar ao gol para finalizar, ou dar uma assistência, me dedico pelo time, comprometido e focado, trabalhador e humilde.

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Foto: Reprodução/Instagram
Cristian Moraes
Cristian Moraes

Estudante de jornalismo que sonha em trabalhar nos maiores eventos esportivos do mundo. E, assim, ser referência na área. Meu principal objetivo é ser correspondente internacional em Londres. Sou fascinado por futebol, e como o esporte tem influência na sociedade e no mundo. Não me limito apenas a assistir, gosto de consumir em sua totalidade, estudando e entendendo regras, conceitos, histórias e tudo que envolve o mundo das quatro linhas. No entanto, gosto de acompanhar outras modalidades, como: Basquete, Surf, Futebol Americano, Hóquei, Tênis, dentre tantas outras. Junto a isso, tenho o amor pela leitura e a escrita como minhas aliadas na hora de passar para os meus textos, todas as sensações e emoções que estou sentindo, ao lado de informações relevantes com apuração precisa. Seja bem-vindo (a)!