Laurie Cunningham, Cryille Regis e Brandon Batson: o trio do West Brom que enfrentou o racismo

Preconceito racial se fez muito presente no futebol inglês

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Cyrille Regis West Bromwich Lynne Cameron Getty Images fevereiro 2018
(Crédito: Lynne Cameron Getty Images)

Com as distâncias cada vez mais curtas graças à globalização, a mistura de culturas é algo corriqueiro no mundo atual e, por muitas crenças distintas estarem juntas, infelizmente, há intolerância.

No meio do futebol, pelo fato deste ser um retrato da sociedade, a situação é semelhante. Com os campeonatos cada vez mais repletos de etnias diferentes, torna-se dificultoso imaginar um cenário no qual o sincretismo e os preconceitos sejam inexistentes.

Diante disso, a PL Brasil vai contar a história de Laurie Cunningham, Cryille Regis e Bradon Batson, jogadores do West Bromwich Albion que lutaram contra o racismo na terra da rainha.

Mas antes, é necessário começar do começo. No fim da década de 1950, as colônias inglesas no Caribe conseguiram suas independências políticas e, por esse motivo, imigrantes (majoritariamente negros) de países como Jamaica, Bermudas e Trindade e Tobago mudaram-se, em sua maioria, para as periferias dos grandes centros urbanos e industriais da Inglaterra, e também para a região de West Midlands, onde se localizam clubes como Wolverhampton, Coventry City e West Bromwich.

Em menos de dez anos, no fim dos anos 1960, a nova cultura trazida pelos imigrantes começou a ter notoriedade. Música, culinária, esportes: os negros estavam aparecendo em todos os âmbitos, e isso irritava muitos cidadãos brancos ingleses.

Diante dessa conjuntura, grupos conservadores radicais racistas, como a Frente Nacional e o British Movement, conduziam protestos nas ruas exigindo o fim da imigração e a expulsão dos imigrantes, alegando que eles eram os responsáveis pelo crescimento do desemprego e pela crise econômica vivida pelo país na época (década de 1970).

Esses movimentos também possuíam influência no ambiente futebolístico. Nos estádios, torcedores ofendiam atletas negros e atiravam bananas no campo.

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Foi então que, nesse momento de muito preconceito vivido na Inglaterra, um trio de jogadores negros (o primeiro trio de atletas negros a atuar junto na Inglaterra) surgiu no West Bromwich Albion. Eram eles: Laurie Cunningham, Cryille Regis e Brandon Batson, apelidados como ‘The Three Degrees’ (em alusão ao grupo musical homônimo dos Estados Unidos).

Aos 21 anos, o primeiro a chegar no clube foi o ponta Laurie Cunningham, descendente de jamaicanos, em março de 1977. Ex-jogador do Leyton Orient, o jogador havia sido destaque na segunda divisão por três temporadas, e chegou em West Midlands como uma grande promessa. Ponta agudo, o inglês fazia diversas jogadas na linha de fundo, misturando velocidade e dribles para deixar seus companheiros em condições de marcar.

Posteriormente, os Baggies anunciaram a vinda do atacante Cyrille Regis, nascido na Guiana Francesa. Com 19 anos, trabalhava em obras para sustentar-se, enquanto jogava em divisões inferiores na Inglaterra. Foi aí, então, que tudo mudou.

Em maio de 1977, foi descoberto pelo treinador do West Brom, Ronnie Allen, que financiou sua contratação com dinheiro do próprio bolso. Dentro de campo, Regis era forte fisicamente, mas não era atrapalhado. Homem de referência do time, impressionava todos com sua habilidade, velocidade e finalização letal.

O último a se transferir para o clube foi Brendon Batson. Natural de Granada (Caribe), o lateral-direito chegou ao West Brom em fevereiro de 1978, depois de ter jogado poucas partidas pelo Arsenal e ter passado quatro anos no Cambridge United, jogando em divisões inferiores do Campeonato Inglês.

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Meio-campista de origem, tornou-se um defensor de destaque, mostrando muita habilidade pelos flancos.

Com o trio junto no West Brom, a equipe se destacou dentro de campo ao alcançar, por exemplo o terceiro lugar do Campeonato Inglês de 1978/79, e conseguiu encantar e queimar a língua de muitos ingleses racistas. Essa era a filosofia dos ‘Three Degrees’: responder o racismo com o futebol.

Cyrille Regis West Bromwich Lynne Cameron Getty Images fevereiro 2018
(Crédito: Lynne Cameron Getty Images)

Dessa forma, mostrando suas habilidades com a bola e não se igualando ao baixo nível dos preconceituosos, o trio tirou forças para encarar inúmeras situações de intolerância.

Foi assim em partidas contra o Tottenham, em que os torcedores levavam bananas aos estádios, faziam imitações de macaco e entoavam o canto de “o grande Cyrille está em uma árvore”.

Em partidas contra o Everton, com torcedores pressionando o treinador Atkinson para não escalar seus “macacos”. E também em dias de treino, como contou Batson no livro ‘The Three Degrees’, escrito por Paul Rees.

“Nós saíamos do treino em partidas fora e a Frente Nacional estava bem na nossa cara. Naquela época, não tínhamos segurança . Chegávamos à entrada dos jogadores e cuspiam na minha jaqueta ou na camisa de Cyrille. Foi um sinal dos tempos. Eu não me lembro de fazer um escarcéu e chorar sobre isso. Nós lidamos. Não foi um fenômeno novo para nós”, disse o lateral.

Na seleção, não era diferente. Em setembro de 1978, no primeiro de jogo Cyrille Regis com a camisa do time sub-21 da Inglaterra, Garth Crooks, também negro, marcou três gols e garantiu a vitória de sua nação diante da Dinamarca.

O normal seria uma comemoração dos ingleses, mas não foi o que aconteceu. O autor do hat-trick saiu de campo, para surpresa de seus companheiros, ao som de ofensas racistas vindas de sua própria torcida.

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E não era só dentro das quatro linhas que o racismo era escancarado. Cunningham, por exemplo, era alvo de diversas mensagens de ódio por conta de seu relacionamento com sua noiva Nicky Brown (branca).

Ameaças de morte foram feitas para o casal na sua casa em Birmingham, além de uma bomba de gasolina jogada na porta da frente dela. Ademais, jogadores brancos do próprio West Brom recebiam cartas de torcedores sendo questionados sobre como “ingleses legítimos” poderiam tolerar companheiros de equipe negros.

Para completar, além dos absurdos praticados pelos torcedores, a mídia e Associação de Futebol (FA) ignoravam o racismo. A resistência deles é motivo de muito orgulho.

Por terem enfrentado de cabeça erguida a intolerância e calado a boca dos racistas em campo, o trio foi fundamental na abertura de espaço para novos atletas negros na Inglaterra. A luta não foi em vão.

Em maio deste ano, o trio virou estátua no centro da cidade de West Bromwich, financiada por torcedores. É a materialização de seus enfrentamentos, que ficarão marcados para sempre na história, e servirão de exemplo para as gerações futuras.

Hoje, apesar de ainda existir racismo em alguns cantos da terra da Rainha, não é nada comparado ao passado lamentável das décadas anteriores.