Copa do Mundo Feminina 2019: Um balanço da campanha da seleção inglesa

Inglesas deixaram a boa impressão no Mundial da França

Copa do Mundo Feminina 2019: Um balanço da campanha da seleção inglesa

A edição da Copa do Mundo Feminina 2019 chegou a fim e o balanço da competição não poderia ter sido melhor.

Tivemos, de fato, uma edição histórica. Público recorde na França de mais de um milhão de pessoas, estádios lotados, o maior número de emissoras transmitindo jamais visto, mais de 130 países na cobertura, e um crescimento gigantesco de visibilidade para a modalidade.

Além disso, tivemos recordes quebrados dentro de campo, como a maior goleada em Copas do Mundo da história, os 13 a 0 dos Estados Unidos sobre a Tailândia, e Marta assumindo a artilharia dos Mundiais com 17 gols.

E falando especificamente do Brasil, tivemos transmissões realizadas em duas emissoras de TV aberta, Globo e Band, o que elevou ainda mais os números de audiência. Inclusive a Fifa registrou o Brasil como sendo o país que mais deu audiência para a final, com 19 milhões de pessoas de média. Audiência maior do que nos próprios países das seleções finalistas, Estados Unidos e Holanda.

Estados Unidos levantando a taça da Copa do Mundo Feminina 2019

E mais uma vez a seleção inglesa bateu na trave de uma disputa de final, e um possível título. Vamos fazer um balanço do caminho percorrido e das atuações das Lionesses até serem derrotadas pela Suécia no confronto válido pelo terceiro lugar. Mas antes disso, retomaremos informações gerais da Copa e do retrospecto da equipe.

Copa do Mundo Feminina: origem e desenvolvimento

A primeira Copa do Mundo Feminina aconteceu em 1991 na China, 61 anos após a primeira edição do mundial masculino (1930 no Uruguai). E na época, a competição ainda tinha moldes diferentes do que conhecemos nesta última edição, inclusive no quesito de quantidade de seleções disputando (12 seleções, exatamente a metade da atual).

O que era mais discrepante dos dias atuais, mas ainda podemos observar em certas equipes, era a falta de investimento e atenção com a modalidade. Já houve o tempo em que ela era considerada atração de circo, como uma coisa bizarra e engraçada.

Além de que, em alguns lugares do mundo, inclusive no Brasil, o futebol feminino foi proibido por lei. Por isso, ainda era muito recente a prática profissional das mulheres neste esporte.

Na época, as mulheres sofriam com a falta de equipamentos básicos adequados, como chuteiras, uniformes, aparelhamento de proteção, e o respaldo das confederações e reconhecimento como literalmente uma seleção que representa o país.

Muitas vezes usavam sobras das equipes masculinas, ou tinham seus equipamentos próprios negados por não se adequarem ao patrocinador da equipe (que não as patrocinava).

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Os Estados Unidos já eram uma grande potência desde a primeira edição. Logo de início realizaram a primeira grande goleada (7 a 0 contra o Taipé Chinês), a artilharia do campeonato (Michelle Akers com 10 gols) e se consagraram campeãs no confronto final com a Noruega por 2 a 1. E a partir de então foi desenhando sua hegemonia, estando em absolutamente todos os oito pódios. Somam atualmente quatro títulos, um vice e três terceiros lugares.

Já a seleção da Inglaterra não participou de todas as edições. A primeira que disputou foi em 1995 na Suécia, quando foi eliminada nas quartas de final pela Alemanha por 3 a 0. Voltou a participar do Mundial apenas 12 anos depois, na edição de 2007 da China, outra vez sendo eliminada nas quartas, só que pelos Estados Unidos.

E daí para frente disputou todas as edições. 2011 na Alemanha, caindo nas quartas novamente para a França nos pênaltis por 4 a 3, depois de um empate por 1 a 1. E mais recentemente a grande campanha da Inglaterra, que aumentou as expectativas dos torcedores e os fizeram virar os olhos para as Lionesses. Em 2015, com a conquista do terceiro lugar e a revanche por 1 a 0 contra a Alemanha.

Expectativa de boa Copa para as Lionesses

A Copa do Mundo Feminina 2019 já havia começado com grandes expectativas para os ingleses. A seleção britânica vinha de uma boa fase sendo o terceiro lugar de 2015, semifinalistas da Euro de 2017, na Holanda, e atuais campeãs da SheBelieves Cup 2019, nos Estados Unidos. Era, sem sombra de dúvidas, uma das favoritas ao título, juntamente com Estados Unidos e com a própria anfitriã, a França.

As Lionesses, como são chamadas, por conta do escudo com três leões da Federação Inglesa, começaram a competição com confiança e muito apoio por parte da torcida.

Segundas colocadas no Ranking FIFA até então, atrás apenas da favorita seleção dos Estados Unidos, contavam com um elenco experiente e comandadas pelo técnico Phil Neville, tinham a ambição de fazer sua melhor campanha de todos os tempos.

Técnico da Seleção Inglesa, Phil Neville

A seleção inglesa começou realmente com grande força e completo domínio. Disputou o Grupo D, composto pela própria Inglaterra, além de Japão, Argentina e Escócia. Um grupo considerado relativamente fácil e praticamente definido, que terminou como já era esperado, com Inglaterra e Japão classificados para as oitavas.

As Lionesses conseguiram terminar com o máximo de pontos possível, 100% de aproveitamento, cinco gols marcados e apenas um sofrido no confronto contra a Escócia.

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Nikita Parris e Jodie Taylor anotaram um gol cada na conta, e Ellen White, atacante e grande craque da seleção, colocou três bolas no fundo da rede.

Ao avançar para as oitavas de final, a seleção inglesa pegou o considerado mais difícil lado do chaveamento rumo à final em Lyon. No seu primeiro confronto, enfrentou Camarões e passou com tranquilidade, fazendo 3 a 0 contra a seleção africana.

Stephanie Houghton e Alex Greenwood deixaram cada uma o seu primeiro gol. E Ellen White colocou mais um na sua conta, alcançando a marca de quatro no Mundial, igualando na artilharia junto com Cristiane, e colando em Alex Morgan (EUA), que já tinha cinco.

Nas quartas de final, a Inglaterra enfrentou a seleção norueguesa, detentora de um título do Mundial em 1995 e um vice em 1991. No confronto finalizado em 3 a 0 para as Lionesses, Jill Scott anotou o seu primeiro gol aos dois minutos de primeiro tempo, o mais rápido da edição 2019.

Quem mais uma vez colocou outra bola pro fundo da rede foi Ellen White, chegando à marca de cinco gols nesta Copa e se igualando com Alex Morgan na artilharia do campeonato. E Lucy Bronze fez história ao marcar o terceiro gol da seleção inglesa, o qual foi o 900º gol das Copas do Mundo Femininas.

Lucy Bronze, jogadora a marcar o 900º gol das Copas do Mundo Femininas

Semifinal histórica com os EUA

A Inglaterra chegou por dois anos consecutivos na semifinal do Mundial, e um jogo que poderia ter sido facilmente o duelo da final, não só pela qualidade do jogo em si técnica e taticamente falando, mas pela quantidade de polêmicas levantadas e mais recordes sendo quebrados.

Inglaterra e Estados Unidos travaram um confronto de gigantes em plena semifinal da Copa do Mundo Feminina 2019. Em um jogo que começou equilibrado e disputado, Christen Press abriu o placar para os EUA aos 10 minutos.

Mas a Inglaterra não deixa barato, nove minutos depois já dá o troco com Ellen White que anota o seu 6º gol na conta, mais um feito histórico. Além de assumir (por poucos minutos) a artilharia da competição, ela se torna a maior artilheira inglesa em Copas do Mundo, ultrapassando Fara Williams, que tinha cinco gols.

Além disso, também se torna a segunda atleta inglesa a marcar gols em quatro jogos consecutivos do Mundial, e a primeira a marcar em uma só edição. Gary Lineker fez gols em quatro jogos seguidos, porém divididos entre as Copas do Mundo masculinas de 1986 e 1990.

E Ellen White também cravou de vez a sua comemoração de “olhos de coruja” ou de “óculos”, que ficou bastante conhecida neste mundial. Quem criou a comemoração foi o jogador francês Anthony Modeste. White gostou e pegou para si.

Ellen White fazendo sua comemoração após gol

Comemoração polêmica?

Aos 31 minutos do primeiro tempo, Alex Morgan anota também o seu 6º gol, se igualando mais uma vez com Ellen White na artilharia. Mas o que realmente causou uma polêmica foi a comemoração da atacante norte-americana que parecia “tomar um chá”.

Possibilidades levantadas foram da alusão ao chá das 5, tradicionalmente tomado na Inglaterra, e que Alex Morgan estaria provocando, não só a seleção inglesa, como também a torcida.

Outra possibilidade foi o “Boston Tea Party” movimento revolucionário que levou à Independência dos Estados Unidos em 4 de julho, e o confronto da semifinal foi disputado em 2 de julho.

Mais uma alternativa seria sobre Alex Morgan ter feito aniversário no dia do jogo, e Megan Rapinoe ter postado em seu Instagram uma foto com legenda escrita “Parabéns para a Rainha!”. Porém a versão defendida pela própria atleta, é de que ela fez referência à gíria “What’s the T?” (lida como what’s the tea?), que significaria neste contexto “qual a novidade?”.

Morgan disse, em entrevista, que era um gesto repetido inúmeras vezes por sua atriz favorita, Sophie Turner, da série Game Of Thrones, e também que ela estava apenas comemorando o fato de saber que é uma grande jogadora, ter feito um gol importante, e ser muito decisiva em jogos de peso.

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Alex Morgan fazendo a polêmica comemoração “tomando um chá”

E de fato, a seleção inglesa, apesar de ainda ter lutado muito para conseguir derrotar as norte-americanas, tiveram o psicológico abalado por dois momentos. Tinham conseguido aos 22 minutos do segundo tempo marcar mais um gol com Ellen White, mas que acabou anulado pelo VAR por impedimento.

E aos 37 minutos ganharam um pênalti para cobrar com Stephanie Houghton, também assinalada pela arbitragem de vídeo, mas que a goleira dos Estados Unidos, Alyssa Naeher, defendeu. Com 41 minutos e muito abaladas, Millie Bright também acabou recebendo um cartão vermelho, o que dificultou mais ainda uma tentativa de empate pra levar para prorrogação.

Disputa do terceiro lugar

E, portanto, a seleção inglesa acabou se classificando mais uma vez para a disputa do 3º lugar, e batendo na trave novamente. O confronto, disputado um dia antes da final da Copa, no dia 6 de julho, foi contra a seleção da Suécia, seleção que possui um vice (2003) e, agora, três terceiros lugares (1991, 2011 e 2019).

A Suécia chegou pressionando muito a seleção inglesa, conseguindo abrir o placar logo aos 10 minutos do primeiro tempo com Kosovare Asllani. Aos 21 minutos, Sofia Jakobsson fazia o segundo gol, e a Inglaterra parecia não ter entrado em campo, apenas se defendendo.

Até que aos 30 minutos, Fran Kirby consegue marcar um gol para as britânicas. Mas a partida seguiu até o fim muito equilibrada, e, por fim, colocando a seleção sueca no pódio mais um ano, e a Inglaterra ficando em quarto lugar.

Seleção Inglesa 2019

Ao final da Copa, a seleção inglesa conseguiu uma boa campanha. Foram 7 jogos, 13 gols marcados e apenas cinco sofridos. Ellen White foi uma das artilheiras, junto com Alex Morgan e Megan Rapinoe, com 6 gols.

A Inglaterra sai da Copa em 3º lugar no Ranking FIFA, perdendo uma posição para a Alemanha, mas ainda assim mostrando um excelente trabalho e um futebol altíssimo nível.

E com a promessa, não só da FA, mas também do técnico Phil Neville, que a modalidade terá um grande investimento nos próximos anos para conseguir a tão desejada taça do Mundial em um futuro próximo.