Como um cachorro salvou o Manchester United da falência

Um cachorro salvou o Manchester United? Pois é, confira essa história curiosa!

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Experimente você, torcedor do United, nunca ter vencido um campeonato em 26 anos de história, assistir seu time num estádio com o campo lamacento, inalando gases tóxicos e ainda ver seu clube ameaçado pela falência.

Esse, meu caro, era o Manchester United no início do século XX. Ou melhor, era o Newton Heath, o primórdio de um dos maiores clubes do mundo.

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Fundado em 1878 a partir da autorização da Lancashire & Yorkshire Railway (LYR) aos seus funcionários para fundar um clube, o Newton cresceu a partir da liberação do pagamento de salários aos jogadores, em 1885.

Com a grana da LYR, o Heath atraiu bons jogadores para trabalhar na dobradinha clube-ferrovia e aumentou a influência no cenário nacional, chegando à primeira divisão em 1892.

O Verde e Dourado vinha do LYR e mudaria somente em 1902. (William Ramsbottom/Pinterest)

Heróis e maus bocados

Em 1902, porém, o Newton Heath estava mal das pernas. Na soma entre um par de anos na segunda divisão, a estrutura, os salários dos jogadores e a baixa produção em campo (10º em 1900/01 e 15º em 1901/02), o clube contraiu uma dívida de 2.670 libras.

Dinheiro que hoje não paga a semana de um destaque da base do United, o débito punha o Heath sob ameaça de falência.

Para se ter noção da pindaíba, o clube havia trocado de estádio, de North Road para a Bank Lane, por custos mais baixos e porque o campo escolhido não se dividia entre futebol e críquete, caso do local abandonado. Até aí, normal.

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Acontece que Bank Lane não tinha somente um gramado completamente enlameado como ficava no meio de um bairro de indústrias pesadas, que levavam fumaças tóxicas para as arquibancadas. Pior: era da sua renda que saía o ordenado dos jogadores.

Não tardou para a Football Association bater na porta do Heath para conversar sobre, bom, toda essa situação. Após negociações, a FA propôs amortizar a dívida em 2.000 libras, se paga à vista, e permitiu o clube a manter as operações, se alterasse seu nome.

Eis que, não mais do que de repente, a maré virou para o Newton Heath. O clube foi salvo pela combinação de um cachorro, um empresário que amava sua filha e um capitão que amava o seu clube.

Harry e Major

Foi Harry Stafford quem teve o infortúnio de ser o capitão do Heath em 1902. Isso porque à época a responsabilidade de alguém na sua posição ia além do campo, sendo um representante do time e fazendo parte das decisões do dia-a-dia do clube, na medida do possível.

E Harry fazia o possível e o impossível pelo NW. Era ele quem se dispunha a buscar financiamento para as operações diárias, fazendo empréstimos, atraindo investidores pontuais, até arrecadando dinheiro nas arquibancadas.

Nos primórdios da profissionalização, era comum jogadores terem um segundo emprego; Harry tinha um Pub. (Foto: Streety News)

Neste último cenário, usava Major, seu São Bernardo, para “passar o chapéu” entre os torcedores.

Além do apelo de um cão fofo e peludo, Major era extremamente obediente e era treinado a levar recipientes em seu pescoço, notoriamente para salvamentos, mas naqueles tempos era para arrecadações mesmo.

Tamanha era a eficiência de Major que ele chegou a salvar a vida de seu dono.

Por algum motivo, antes mesmo da ida ao Newton Heath, Harry se viu em uma situação de salva-vidas ao ver um homem se afogando no mar do oeste inglês.

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Naturalmente, o afogado puxava Harry para baixo, ao invés de se deixar puxar para cima. O futuro capitão então nocauteou o homem, mas não conseguia levá-lo à margem, começando ele mesmo a afundar junto.

Entra em cena Major: o São Bernardo caiu na água ao primeiro sinal do seu dono e o carregou à margem, enquanto este levava o homem por um braço. Major, portanto, salvou a vida de ambos.

Mas o que isso tem a ver com o Newton Heath? Ou com o Manchester United?

Bom, foi Harry quem, dada a proposta da FA, se prontificou a conseguir as duas mil libras necessárias para salvar o clube.

Seguindo sua ousada atitude, Harry bolou um evento ainda mais ousado, uma feira de quatro dias de duração, com diversas atrações e mais diversos convidados, cujo dinheiro deixariam nas bilheterias e que seria convertido para o pagamento da dívida.

E o Major?

O Encontro

A história de Major foi muito contada ao longo dos anos; na imagem, o Tropical Times de 1935 dá sua versão. (Foto: Reprodução/Pinterest)

Especificamente neste ponto, a história fica um pouco confusa, talvez por sua grande tradição oral, talvez pela inexistência dos personagens em vida, enfim, são distintas versões do que aconteceu a seguir.

O que se sabe é que:

  1. O evento foi um fracasso;
  2. Major, o São Bernardo, encontrou com o homem que viria a mudar a história do clube, John Henry Davies.

Algumas versões dizem que Major, solto pela feira para juntar doações da mesma maneira que fazia as arquibancadas, perdeu-se, e foi encontrado por Mr. Thomas, um subalterno de Davies, que então contatou o chefe.

Outras dizem que quando Major se perdeu, foi encontrado diretamente na residência dos Davies; outra diz ainda que foi J.H. Davies quem foi a feira e viu o cão.

O fato é que o Davies, empresário milionário do ramo das cervejas, se encantou pelo São Bernardo e pretendia dá-lo de presente à filha Elsie, que fazia 12 anos há alguns dias do encontro.

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Davies não titubeou ao propor a Harry a compra de Major, o que recusou imediatamente. Como Harry iria vender seu cachorro, seu companheiro, aquele que salvou sua vida?

Empresário bem sucedido que era, Davies sabia que todo mundo tinha seu preço. O ricaço então pesquisou sobre o capitão, e logo descobriu toda a questão do Newton Heath, o papel de Harry, a dívida, tudo.

Então J.H.D fez a barganha que mudaria a vida de Harry e de milhares de torcedores da cidade de Manchester: ofereceu não somente quitar a dívida como trazer outros investidores e tomar conta do clube, em troca do cachorro.

Com o que você se importa mais, com o seu cão ou com seu clube? – ele teria perguntado a Stafford, segundo contou a própria Elise, à BBC.

A resposta, como vemos hoje, foi um duro sim, que separou os amigos, mas mudou a história de um clube e de todo o futebol mundial.

Os anos J.H. Davies

Com o aporte de Davies, o Heath pode seguir a proposta da FA, quitando as 2000 libras, e, em abril de 1902, mudou seu nome para Manchester United.

Além do nome, o clube mudou de endereço, recebendo cerca de 70 mil libras para iniciar a construção de Old Trafford, o lendário estádio do United.

“Pai” do projeto, J. H. Davies assumiu como presidente do clube, cargo que exerceu até a sua morte, em 1927.

Durante seu mandato, os Red Devils levantaram cinco troféus, sendo dois da Liga, um da FA Cup e outros dois da Charity Shield.

Harry Strafford continuou como capitão do time, o primeiro da história do United, até 1903, quando se transferiu para o Crewe Alexandra.

Virou scout e diretor do clube após sua aposentadoria, em meados de 1904.

Major ficou com Elise até o fim de seus dias caninos. (Foto: Reprodução/BBC)

Major, por outro lado, seguiu sob os cuidados de Elise Davies até o fim. Foi mascote do United até 1905, quando foi substituído por Billy, o bode.

Billy teve uma carreira curta: morreu em 1909, por coma alcoólico, na comemoração do título da FA Cup.