Como Arteta devorou ‘Universidade Manchester City’, e revolucionou treinos e Gabriel Jesus ao lado de Guardiola

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Adversários deste domingo por Arsenal e Manchester City, respectivamente, Mikel Arteta e Pep Guardiola tem uma longa história de parceria e colaboração.

O então meio-campista Mikel Arteta se aposentou em 2016 como jogador do Arsenal e rapidamente emendou a carreira de treinador. Sua escolha poderia ser permanecer nos Gunners para ser auxiliar de Arsene Wenger, mas preferiu ir ao Manchester City trabalhar com o recém-chegado Pep Guardiola.

Antes da partida do Arsenal contra o City, neste domingo (31), válida pela Premier League, o site inglês The Athletic descreveu os anos de Arteta como auxiliar de Guardiola. Um estilo de aprendizado militar e que fez com que o espanhol fosse classificado por companheiros como “um animal” tamanha a atenção às minúcias.

Arteta ‘maluco' para aprender com Guardiola

Uma fonte do The Athletic ressaltou a maneira como o atual técnico dos Gunners circulava pelos vários escritórios dentro do Centro de Treinamento dos Citizens. A ideia era entender como cada departamento funcionava e como ele poderia absorver mais conhecimento de cada situação.

— Desde o primeiro dia, parecia que ele estava na universidade. É um animal. Uma atenção aos detalhes incomparável — revelou a fonte ao site.

Mais do que apenas aprender de superiores, Arteta teve a oportunidade de liderar certos projetos fora de sua função diária de auxiliar. Ele elaborou uma parte considerável da estrutura de observação de jogadores para o City Football Group (CFG), por exemplo.

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Foto: Icon Sport

Essa rede de observação agora é um documento de 80 páginas. Nela, há instruções detalhadas sobre as diferentes funções dentro da estrutura da equipe de Guardiola e o que os olheiros devem procurar ao identificar jogadores que se encaixam para o time.

E além de aprender, o ex-jogador também passou a dar sugestões que fizeram o City crescer — principalmente depois da temporada estreia de Guardiola na Inglaterra ter sido sua única sem títulos em toda a carreira.

A relação do treinador com as bolas paradas contrastava com a atitude de Arteta, que sentia ser um aspecto do jogo pouco treinado. Por isso, sugeriu a contratação de um especialista em 2019. Ele entrou em contato com Nicolas Jover, então no Brentford, na segunda divisão, para assumir o cargo. Hoje, é seu companheiro no Arsenal.

Antes do Arsenal, a revolução no Manchester City

Em 2017, houve outro projeto encabeçado pelo então auxiliar, que mudou o rumo do City. O clube havia produzido um trabalho que comprovava a hipótese:

Quanto maior o nível competitivo, menos tempo e espaço os jogadores têm para chutar de dentro da área, onde a maioria dos gols são marcados.

Eles calcularam os tempos variados e um treinador da base do clube elaborou um exercício para trabalhar isso no treinamento. Por “vagar” em vários departamentos, Arteta construiu boas relações com as equipes de base, ficou sabendo disso e introduziu a ideia na equipe principal.

Arsenal Arteta
(Foto: Icon sport)

O treino que revolucionou o Manchester City

Segundo o The Athletic, o exercício consistia em um movimento dos atacantes, que realizavam uma corrida de alta intensidade antes finalizar dentro de uma área demarcada sob pressão dos defensores. Se não fizessem tudo dentro do tempo determinado, a bola era parada

Isso fez com que a finalização de Raheem Sterling, Leroy Sané e Gabriel Jesus melhorasse quase imediatamente no início da temporada 2017/18:

  • Sterling passou de sete gols no campeonato em 2016/17 para 18;
  • Sané de cinco para 10;
  • Jesus de sete para 13;
  • O aumento da taxa de conversão de Sterling foi particularmente impressionante: de 10,9% na Premier League 2016/17 para 20,7% um ano depois.

Não por coincidência, a equipe que havia terminado em terceiro e 15 pontos atrás do campeão Chelsea na primeira temporada de Guardiola, foi campeã naquela campanha. Essa temporada, inclusive, foi a única em que um time atingiu marca de 100 pontos na história da Premier League.

O sucessor de Guardiola?

O contrato inicial do catalão com o Manchester City era de três temporadas. Ou seja, se não renovasse, ficaria até o fim da Premier League de 2018/19. A expectativa do próprio clube era que Guardiola não passasse de 2020 em Manchester.

— Em 2018, ninguém esperava que Pep ficasse tanto tempo. Nunca foi explicado em um PowerPoint, mas você podia sentir que no momento em que ele saísse, esse cara (Arteta) estava pronto para assumir. Você podia sentir que fazia parte do plano — disse uma fonte do The Athletic.

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Foto: Icon Sport

Nem uma coisa, nem outra. Pep não saiu, e Arteta deixou o City depois de uma vitória na Copa da Liga, em novembro de 2019. Na época, seu nome estava sendo fortemente ligado ao Arsenal para substituir o pressionado Unai Emery.

Segundo o relato, o espanhol foi conversar com Guardiola ainda no ônibus após o jogo para comunicar sua decisão. Os jogadores sequer conseguiram comemorar a vitória, tamanha a conexão que tinham com o auxiliar.

Fontes do The Athletic descreve que três elementos se combinaram para criar o Arteta atual:

  • Os aprendizados táticos de Guardiola;
  • O caminho que trilhou no futebol britânico, o que lhe deu uma rara mistura de estilo e “garra”;
  • E sua compreensão de como todos os departamentos de um clube de futebol moderno e de elite devem funcionar e se combinar.
Guilherme Ramos
Guilherme Ramos

Jornalista pela UNESP. Escrevi um livro sobre tática no futebol e sou repórter da PL Brasil. Já passei por Total Football Analysis, Esporte News Mundo, Jumper Brasil e TechTudo.

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