Tim Vickery: Há 50 anos, em uma Data Fifa, eu começava minha carreira no jornalismo

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Difícil acreditar, mas faz 50 anos que uma Data Fifa, de certa maneira, ajudou a começar o que eu risivelmente chamo de minha carreira.

É outubro de 1973, e estou me preparando para minha primeira Copa do Mundo. Tenho oito anos — estava, então, um pouco jovem demais para a Copa de 1970, quando havia acabado de fazer cinco. Tenho vagas lembranças – uma televisão aparece em casa pela primeira vez porque o meu pai estava querendo assistir. Mas a minha hora não tinha chegada ainda.

Mas em 1973 o cenário é bem diferente. Já estou bem crescidinho. Agora estou pronto para entrar em campo. Bastava Sir Alf Ramsey, o sisudo técnico da seleção inglesa, conhecer minhas capacidades e eu estaria em campo. Faltam oito meses para a Copa da Alemanha — tempo suficiente para ganhar a vaga.

Primeiro, claro, a Inglaterra tem que classificar. Mas aí não tem problema. Sempre se classifica. Sim, chegou tarde na Copa do Mundo, participando desde 1950. Mas desde então nunca ficou fora. Não pode ficar fora agora. Quem está na frente, barrando o caminho? A Polônia. Verdade, a gente perdeu 2 a 0 para eles fora de casa alguns meses atrás. Mas agora estamos em casa, no estádio do Wembley, e basta uma vitória simples para carimbar a vaga. Moleza.

E lá vem um amistoso de preparação. A Inglaterra ganha da Áustria por 7 a 0. Será que a Polônia seria mais difícil? Parece que não. Na televisão antes do jogo, Brian Clough, um jovem brilhante técnico sem papas na língua, classifica o goleiro polonês como ‘palhaço.’ Esta noite então, sete vai ser pouco. 

Mas pensando bem, talvez uma vitória mais apertada seria melhor. Uma goleada ia deixar a cabeça teimosa de Alf Ramsey com a impressão de que não era necessário mudar nada. E aí, como ia abrir uma vaga para mim na Copa? Sim, chego à conclusão que 2 a 0 seria bem satisfatório.

E logo no primeiro minuto Tomaszewski, o goleiro polonês, quase jogou a bola nos pés de um atacante inglês. Palhaço mesmo! Só que o palhaço sabia defender. Durante o primeiro tempo inteiro a bola quase não saiu da área polonesa. Foram, nos primeiros 45 minutos, 14 escanteios ingleses e nenhum da Polônia. 

Jan Tomaszewski, Polônia
Jan Tomaszewski, o goleiro “palhaço” (foto: IconSports)

A pressão foi alucinante. Mas, lance após lance, aparecia um pé desesperado de um zagueiro polonês para afastar o perigo. E quando a Inglaterra conseguia penetrar a defesa, lá estava Tomaszewski, com uma defesa magnífica para o lado direito, outra para o lado esquerdo e mais uma no alto. Zero a zero no intervalo, mas ainda sem grandes preocupações. Então, o gol chega.

Para a Polônia. Em uma dos poucos lances de perigo visitante, com a ajuda de uma sequência de erros na defesa inglesa, 1 a 0 Polônia. Agora a gente precisa de dois gols.

O empate vem logo – só que o juiz apita. Até hoje não vejo a falta. Mas logo compensa. Dá para Inglaterra um pênalti bem mandrake. 1 a 1, com bastante tempo ainda para marcar o segundo.

Pressão, pressão e pressão. Tomaszewski defendendo tudo, misturando o incrível com o ridículo. O tempo passa. Alf Ramsey sem mexer. Bobby Moore no banco implorando para botar o atacante Kevin Hector. Minuto 87, entra Hector. Minuto 88, 22º escanteio do jogo, Hector antecipa Tomaszewski e cabeceia para o gol. É agora! Até que um zagueiro se estica e tira a bola em cima da linha. Ainda há tempo para um chute de Colin Bell que também é tirado da linha. Apito final — e as lágrimas não são do palhaço.

Muito cruel. A minha primeira Copa do Mundo e nem vou. Azar dos torcedores – e talvez azar dos leitores também. Porque reagi escrevendo um ensaio sobre o jogo para a escola, a minha primeira tentativa com jornalismo esportivo. E 50 anos depois, aqui estamos.

Tim Vickery
Tim Vickery

Tim Vickery cobre futebol sul-americano para a BBC e para a revista World Soccer desde 1997, além de escrever para ESPN e aparecer semanalmente no programa Redação SporTV. Foi declarado Mestre de Jornalismo pela Comunique-se e, de vez em quando, fica olhando para o prêmio na tentativa de esquecer os últimos anos de Tottenham Hotspur.