Klopp pode sofrer ‘efeito Bill Shankly’ ao deixar o Liverpool?

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A ficha já caiu que logo Jurgen Klopp não vai ser mais o técnico do Liverpool?

Alguém com idade de lembrar da ficha efetivamente caindo no orelhão talvez lembra o nome do Bill Shankly, lendário técnico do Liverpool que provocou um choque tão grande – talvez maior ainda – quando de repente se demitiu em 1974. 

Na verdade, acho que o choque foi maior ainda; antes do Klopp houve Shankly, mas antes do Shankly não houve nada parecido. 

Um escocês com uma paixão pelos filmes de gângster de Jimmy Cagney, Shankly pousou em Liverpool em 1959 com o clube na segundona.  Naquele momento dava para ver o Everton com a maior força na cidade.  Quinze anos depois, já estava diferente. 

Shankly simplesmente fez o clube, não somente construindo o time mas também estabelecendo uma ligação extraordinária com a torcida. 

A cidade nos anos de Shankly estava passando por altos e baixos – com os Beatles e outros virou o centro cultural do mundo, enquanto o seu porto estava em declínio e a sua economia estava começando a sofrer.  Shankly entendeu tudo isso. 

Bill Shankly, lendário treinador do Liverpool (Foto: Icon sport)
Bill Shankly, lendário treinador do Liverpool (Foto: Icon sport)

Andava com uma arrogância que não deixava dúvidas – ele estava no centro do mundo e o time dele era o melhor na história de todas as histórias.  Sacou a importância do futebol como uma afirmação quase religiosa de um povo que com orgulho e humor enfrentava uma realidade cada vez mais difícil. 

Simplesmente, Bill Shankly era Liverpool FC. 

Era impossível, impensável imaginar o clube sem a sua presença tão extraordinária, e as pessoas ficaram tão chocadas que nem sabiam como reagir quando ele anunciou a sua aposentadoria.

Logo logo se arrependeu.  Quis voltar, mas era tarde demais.  Foi agridoce assistir o seu assistente, o baixo perfil Bob Paisley, levar o clube para uma sequência de triunfos inéditos.  Sair do comando do Liverpool deixou um buraco na alma do Shankly que ficou impossível preencher.  Se ele pudesse voltar em tempo ele nunca teria largado o osso em 1974.

Será que Klopp vai sentir algo parecido?

De uma certa maneira, Klopp é um tipo de Shankly para a época globalizada.  O alemão tem um carisma e um senso humanista de coletividade parecido com o grande escocês.  Ele também saca a cidade, tem plena consciência de quem ele está representando.  Tem sido um casamento muito feliz.  Mas chegou o cansaço.

Em novembro, quando parece que tomou a decisão e informou o clube, isso é relativamente fácil de entender.  No seu tempo no Liverpool, Klopp foi capaz de construir um time vistoso e vencedor, com um trio na frente que será lembrado para sempre. 

Klopp Liverpool
Foto: Icon Sport

Juntar as peças de uma forma tão bem sucedida é difícil.  Quebrar um time e juntar novas peças e’ muito mais ainda.  Dá para entender que em novembro Klopp se achava no sopé da montanha sem forças para subir.  Mas agora é diferente.  Um time novo já existe.  Klopp conseguiu renovar tanto que agora tem consolidado um novo meio campo junto com um ataque repleto de opções. 

Como argumenta o meu colega Renato Senise, essa temporada pode ser o melhor trabalho do Klopp com o Liverpool.  Verdade, pode até sair da cena como campeão da Premier League.  Seria uma despedida fantástica. 

Mas ganhando o título ou não, tem grande probabilidade de o Liverpool disputar a Liga dos Campeões na próxima temporada. 

Klopp não quer fazer parte disso? 

Não tem vontade de testar o seu novo time no nível mais exigente? 

Vai ficar feliz assistindo um outro técnico morar na casa que ele construiu? 

Ou vai vagar tristemente nas sombras, como fazia Bill Shankly nos seus últimos anos?

Tomara que a história não se repita, pois Klopp merece descansar e ser feliz.  Mas pode ser difícil reproduzir a felicidade que deve ter sentido quando ele estava construindo seus “puxadinhos” na casa que Bill Shankly ergueu.

Tim Vickery
Tim Vickery

Tim Vickery cobre futebol sul-americano para a BBC e para a revista World Soccer desde 1997, além de escrever para ESPN e aparecer semanalmente no programa Redação SporTV. Foi declarado Mestre de Jornalismo pela Comunique-se e, de vez em quando, fica olhando para o prêmio na tentativa de esquecer os últimos anos de Tottenham Hotspur.