O dia em que a Inglaterra parou e se comoveu por Jürgen Klopp. Eu nunca tinha visto algo assim

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Eu nunca havia visto uma comoção tão grande por causa da saída de um técnico. Parece que a Inglaterra inteira parou depois que Jürgen Klopp anunciou que deixaria o Liverpool ao final da temporada. As principais emissoras de TV e de rádio, os maiores sites de notícias, os grandes influencers. Todos comentando, analisando, tentando entender e explicar os motivos para a decisão do treinador alemão. 

Trabalhei no jogo entre Tottenham e Manchester City ontem à noite. Para chegar no estádio dos Spurs, peguei transporte público, bem na hora do rush e no momento em que milhares de torcedores também se deslocavam para a partida.

Overground (trem de Londres que vai pela superfície) completamente lotado. Era difícil ouvir gente falando de um assunto que não fosse o Klopp.

Escutei desde “fui pego de surpresa e estou em choque”, passando por “só espero que eles não venham atrás do Ange”, até “dane-se o Liverpool, é problema deles”. 

Já no estádio, um clima diferente. Cobrir o futebol inglês é legal porque você acaba convivendo com jornalistas do mundo inteiro. E, de novo, esse era o único assunto. Uma disputa para ver quem havia ficado mais surpreso, ou quem já esperava e tinha dica de bastidores, ou até um ou outro que já colecionavam indícios de quem será o próximo treinador.

A verdade é que não dá para tratar Jürgen Klopp como um cara qualquer, mais um que passou pele futebol inglês, fez história, e vai embora. Dentre algumas coisas que ouvi no Tottenham Hotspur Stadium, algumas ficaram na minha cabeça. Por exemplo:

“Graças ao Klopp, a Premier League teve emoção nos últimos seis anos. Ele evitou que o City ganhasse seis vezes seguidas. A Premier League só não virou a Bundesliga por causa dele“.

Claro que existe um pouco de exagero, talvez até pelo calor do momento. Mas é fato que o domínio do time de Guardiola só não é completo, por causa do time do Klopp.

— Tenho o sentimento de que, com ele saindo, parte da gente, do Manchester City, está saindo também. Ele e o Liverpool têm sido nossos maiores rivais por todos esses anos. Pessoalmente, também posso dizer que ele é o meu maior rival. Então, sentiremos falta dele. Eu sentirei falta dele. Mas vou dormir um pouco melhor nas noites anteriores aos jogos com o Liverpool — palavras de Pep Guardiola depois da vitória sobre o Tottenham nessa sexta-feira. 

Um repórter israelense, sempre presente nas grandes coberturas, falou  algo mais ou menos assim ontem no estádio do Tottenham:

O Guardiola é o maior de todos. Mas é difícil imaginá-lo sem o Klopp. Os dois, juntos, construíram uma nova era na Premier League. Um futebol ofensivo, mas sobretudo, com amor pelo jogo, pela disputa honesta, por entregar jogos e campeonato memoráveis.

Guardiola x Klopp lembra um Federer x Nadal

A mais pura verdade. É preciso dizer que a rivalidade entre os dois treinadores é uma das mais legais e cordiais de todos os tempos. Lembra muito um Federer versus Nadal. Dois caras que se respeitam imensamente, que se estudam, que evoluem sem parar justamente para tentar superar o rival. Um faz o outro ser melhor, o tempo todo.

Para se enfrentarem, precisam pensar em táticas diferentes, criar novas maneiras para enfrentar e surpreender o adversário. E tudo no mais absoluto respeito. Nesses já quase oito anos que se enfrentam na Inglaterra, que se juntam às duas temporadas em que disputavam o domínio do futebol alemão, nunca houve uma palavra sequer de animosidade, um atrito, uma provocação.

O mais inacreditável é que o confronto pode ficar empatado na última vez (pelo menos por enquanto) que se encontrarão. Jogo marcado para 9 de março. Klopp tem 11 vitórias sob Guardiola, mais que qualquer outro treinador. Guardiola ganhou 10 vezes de Klopp, mais que qualquer outro técnico. São ainda sete empates. 

Klopp: um dos maiores da história do Liverpool

Não dá para falar da saída de Klopp, sem citar a idolatria. Entra sim para o panteão dos maiores que já passaram pelo Liverpool. Daqueles que chegam e mudam a história do clube.

Estamos falando de um time que, com 131 anos de vida, teve somente 21 treinadores. Tom Watson passou DEZENOVE temporadas no cargo (de 1896 a 1915). Bob Paisley ganhou SEIS títulos ingleses e TRÊS Copa dos Campeões da Europa, entre outros. Bill Shankly virou praticamente uma religião. Tirou o clube do limbo, criou uma filosofia, e de quebra ainda ganhou o campeonato inglês três vezes. Klopp já faz parte desse seleto grupo.

Bill Shankly – 17.10.1974 – Liverpool (Foto: IconSports)
Homenagem a Bill Shankly – 01.09.2013 – Foto: IconSports)

Primeiro, porque construiu uma identificação fora do comum com a torcida e com a cidade. Um alemão que representou a todos, dentro e fora de campo. Segundo, porque  levou o Liverpool ao primeiro título nacional em 30 anos. Ganhou uma Champions League. Outro que tirou o time de um buraco que parecia sem fundo.

Só para a gente ter uma ideia: Mignolet; Clyne, Skrtel, Sakho e Alberto Moreno; Lucas Leiva, Emre Can e James Milner; Lallana, Philippe Coutinho e Origi. Esse é o time titular na estreia do técnico alemão. Empate em 0 a 0 com o Tottenham, no dia 17 de outubro de 2015. Menos de nove anos atrás! O salto de qualidade foi gigantesco. E o maior responsável chama-se Jurgen Klopp. 

O primeiro jogo oficial de Jürgen Klopp à frente do Liverpool (Foto: IconSports)

Alemão foi um frescor para a Premier League

Para encerrar, o carisma. Klopp trouxe algo diferente para o futebol inglês. As gargalhadas nas entrevistas coletivas, as respostas de três, quatro minutos quando se empolgava ao analisar um jogo, a sinceridade ao comentar assuntos espinhosos como a pandemia e o Brexit.

Ele é, acima de tudo, autêntico.

Por tudo isso, fico muito triste pela saída dele. Sou daqueles que sentiu o impacto da notícia. Mas, ao mesmo tempo, fico feliz e aliviado.

Era nítido que Klopp estava cansado. Recentemente, passou a se irritar facilmente. Em uma ou duas ocasiões, maltratou jornalistas sem nenhuma necessidade. Realmente, era hora de descansar. Klopp é 100% passional. Tudo que faz é baseado em emoção, intensidade, entrega. Os times dele são construídos e jogam desse jeito. O cargo é prazeroso, mas exige muito. Foi autêntico e sincero até na hora de sair.

E é tão grande que ainda pode se despedir com QUATRO títulos na temporada. Quer saber? Vou torcer por isso. 

Renato Senise
Renato Senise

Renato Senise é correspondente em Londres desde 2016. São mais de cinco temporadas cobrindo Premier League e Champions League. No currículo, duas Copas do Mundo “in loco”, além de entrevistas com nomes como Pep Guardiola, José Mourinho, Juergen Klopp, Marcelo Bielsa, Neymar, Kevin De Bruyne e Harry Kane.