Senise: Este é padrão inglês: é mais fácil Antony ser punido no Brasil

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As mensagens que mostram Antony ameaçando, intimidando, humilhando a ex-namorada. As imagens da DJ Gabriela Cavallin ferida nas mãos e na cabeça. A informação de que ela teria sido agredida enquanto estava grávida. Tudo isso foi retirado do inquérito que corre na Polícia Civil de São Paulo.

Gabriela denunciou o jogador na Inglaterra também, já que todas essas agressões teriam acontecido quando eles moravam juntos em Manchester. Mas, em terras britânicas, investigações como essa caem em uma espécie de buraco negro. Ninguém sabe de nada. As acusações, os detalhes, a defesa. Pouquíssima coisa se torna pública.

Chama a atenção que, dos casos recentes, este é o que está sendo tratado com mais desdém pela imprensa na Inglaterra.* Os motivos? Difícil saber. Talvez porque trata-se de uma brasileira sendo possivelmente violentada, não uma inglesa. Ou, quem sabe, porque esses casos têm se repetido tanto ultimamente, que já não causam mais tanta comoção.

*Nota do editor: a PL Brasil pautou repórteres para monitorar capas dos principais jornais ingleses na manhã desta terça-feira (5) em busca de menções ao caso de Antony. Nada foi encontrado.

Coincidentemente, outro atacante do Manchester United acabou de se livrar de uma acusação de violência contra mulher. Mason Greenwood não foi a julgamento porque testemunhas-chave saíram do caso meses antes do julgamento. Por que saíram? Ninguém sabe. Quem era essas testemunhas? Ninguém sabe. Sua ex-namorada, Harriet Robson, o acusava de violência sexual, tentativa de estupro, agressão, conduta controladora e coercitiva.

Os vídeos e áudios divulgados são de embrulhar o estômago.

O Manchester United fez de tudo para reintegrá-lo, mas depois da péssima repercussão, o jovem de 21 anos acabou emprestado para o Getafe, da Espanha. O clube inglês segue responsável por diversas mordomias do atacante: irá pagar o aluguel de uma luxuosa casa de seis quartos, no valor de 8 mil libras por mês. Arcou também com todas as passagens de familiares e amigos que quiseram se juntar a ele em Getafe. 

Também em Manchester, Benjamin Mendy foi inocentado de seis acusações de estupro e uma de violência sexual em janeiro deste ano. Os promotores chegaram a alegar que ele era um “predador” que “transformou a busca por mulheres e sexo em um jogo”. O então lateral-esquerdo do Manchester City foi preso no início das investigações, mas liberado 134 dias depois, com pagamento de fiança.

Em julho, o atleta francês não foi considerado culpado em outro julgamento que analisava o possível estupro de uma mulher e a tentativa de estupro de outra. Ao todo, TREZE mulheres o acusaram de violência sexual. Os supostos crimes teriam ocorrido entre outubro de 2018 e agosto de 2021. Mas, para a justiça britânica, nada disso aconteceu.

A lista recente é grande. Ryan Giggs, por exemplo, deveria ter sido julgado em julho deste ano. O ídolo do Manchester United era acusado de comportamento coercitivo ou controlador contra sua ex-parceira, Kate Greville, e de agressão à irmã dela. O julgamento não aconteceu porque a duas alegaram estar cansadas de apresentar evidências, sem que o caso andasse. Meses antes, elas já tinham entregado todas as provas que achavam ser necessárias, mas o júri não conseguiu chegar a nenhum veredito.

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Giggs pelo Manchester United – Foto: Twitter/@PremierLeague

Geralmente esses casos correm em segredo de Justiça. Não se sabe o nome das possíveis vítimas, a não ser que elas sejam as parceiras dos atletas. Os detalhes mais importantes das acusações não são divulgados. A imprensa inglesa trata o assunto com cautela. O motivo para tanto sigilo é a “proteção às possíveis vítimas”.

Mas, no final, quem sai protegido é o possível agressor. Ele é inocentado, mesmo que sequer tenha ido à julgamento. Faz um post bonito nas redes sociais. Como ninguém tem informações sobre o que de fato aconteceu, fica difícil contra-argumentar. Ele deixa o país e segue a vida. As possíveis vítimas ficam para trás, tentando lidar com seus fantasmas.

Aproveitando que tantos casos têm vindo à tona, cada vez mais estudos estão sendo feitos para apontar a relação entre futebol e abusos contra mulheres. Os resultados são perturbadores.

De acordo com a Warwick Business School, violência e abuso de homens contra suas parceiras (esposas, noivas, namoradas, etc.) crescem 47% depois que a seleção inglesa vence uma partida de Copa do Mundo ou da Euro. Em dias de jogos da seleção inglesa nessas competições, os casos de violência contra mulher começam a crescer 3 horas antes da partida, e têm o ápice nas 3 horas posteriores ao apito final. 

mason greenwood manchester united
Mason Greenwood não atua pelo Manchester United desde janeiro de 2022 (Foto: Icon Sport)

A violência doméstica permanece acima da média no dia seguinte ao jogo: 18% a mais de casos envolvendo o consumo de álcool. E aqui, é importante deixar claro: nem o álcool, nem as competições de futebol são o principal motivo de tamanha crueldade. Eles apenas intensificam padrões já existentes, dando “coragem” para os violentadores realizarem os maus-tratos. 

Padrões. É difícil combater os padrões no Reino Unido, uma sociedade tão avessa à quebra de padrões. É padrão o jogador ser inocentado. É padrão ninguém ficar sabendo de muitos detalhes do que aconteceu. É padrão o atleta se colocar como vítima. É padrão as mulheres anônimas sofrerem caladas, porque sabem que, mesmo apresentando provas, é muito difícil ganharem o caso. E assim, os padrões vão se perpetuando. Resta saber qual jogador será o próximo.  

Renato Senise
Renato Senise

Renato Senise é correspondente em Londres desde 2016. São mais de cinco temporadas cobrindo Premier League e Champions League. No currículo, duas Copas do Mundo “in loco”, além de entrevistas com nomes como Pep Guardiola, José Mourinho, Juergen Klopp, Marcelo Bielsa, Neymar, Kevin De Bruyne e Harry Kane.