Scarpa é mais uma prova do abismo entre o futebol brasileiro e o inglês

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Gustavo Scarpa foi o craque do Campeonato Brasileiro de 2022.

Autor de sete gols e distribuindo 13 assistências, tornou-se o principal jogador do Palmeiras, time que conquistou o título com certa folga (oito pontos de vantagem para o segundo colocado).

Aos 27 anos, vivia o auge da carreira. Aquela idade em que a maturidade e o o ápice da forma física se encontram. Chamou a atenção do Nottingham Forest, que havia acabado de subir para a primeira divisão e montava um time com a intenção de permanecer na elite.

O meia brasileiro realizou o sonho de jogar na Europa. Melhor ainda: na Premier League, o campeonato mais disputado e assistido do mundo. Só que, como em vários outros casos, Scarpa não conseguiu se firmar. Aliás, pouco entrou em campo. Disputou apenas UMA partida inteira.

Fatos sobre Gustavo Scarpa na Inglaterra:

  • 1 jogo completo: Nottingham Forest x Blackpool, na Copa da Inglaterra
  • Total de 10 partidas pelo Nottingham Forest
  • 488 minutos em campo
  • Na Premier League: 6 partidas jogadas, 4 delas saindo do banco
  • 0 gols
  • 0 assistências

Depois de seis meses, foi emprestado para o Olympiacos, da Grécia. Agora, sem nenhum interesse de permanecer com o jogador, o clube inglês o vendeu para o Atlético-MG.

Scarpa saiu do Brasil como um jogador MUITO acima da média. Inteligente, acha passes e espaços que poucos conseguem encontrar. Bate bem na bola, tanto com a ela parada ou rolando. Mas, jogar na Europa é diferente. Ainda mais na liga mais difícil do mundo.

O muito acima da média no atual futebol brasileiro, se torna algo comum na Premier League. A inteligência do meio-campista não foi suficiente para torná-lo sequer competitivo na Inglaterra.

Para ele, talvez falte a intensidade, o vigor físico, a velocidade. Mais uma prova de que o futebol brasileiro, infelizmente, segue muito abaixo do praticado na terra do rei. 

E os outros brasileiros na Premier League?

Os exemplos são muitos, mas ficarei em dois que ainda podem dar certo.

1. Danilo, 22 anos, Nottingham Forest

Danilo, que se destacou com Scarpa no Palmeiras, também sofre para se firmar no mesmo Nottingham Forest. Hora é titular, hora é reserva. Na atual temporada, começou jogando em metade das 12 partidas que atuou. Mas, talvez por ser mais jovem (apenas 22 anos), ou até mesmo por ter características que se encaixam mais com o futebol inglês, segue recebendo chances.

danilo nottingham forest
Danilo em ação na vitória do Nottingham Forest sobre o Sheffield United (Foto: Icon sport)

Passou a jogar mais adiantado, provavelmente porque o treinador achou que não tinha o vigor físico necessário para atuar como primeiro volante.

2. João Gomes, 22 anos, Wolverhampton

João Gomes, que atua na mesma faixa do campo, também está penando no Wolverhampton. Começou como titular, mas logo foi para o banco. Agora, voltou a frequentar o time que sai jogando. Vem evoluindo, ganhando intensidade e melhor leitura do jogo. Destacou-se nas duas últimas partidas, somando 17 roubadas de bola entre elas.

João Gomes em ação na Premier League (Foto: Icon sport)

São apenas dois casos de jovens de 22 anos que saíram do Brasil com grande destaque, mas para brilharem na Premier League, precisam evoluir. E muito. 

Afinal, por que Scarpa não deu certo?

O pior é que, quando um jogador como o Scarpa vai tentar a sorte na Premier League e acaba não recebendo muitas chances, muitos tendem a culpar o treinador. Quantas vezes já ouvimos frases como: “Ah, ele não deve gostar de brasileiro”, ou “se fosse inglês, estaria jogando”? Não, não estaria.

Na Inglaterra, os treinamentos são melhores. A atenção a cada detalhe tático, técnico e psicológico é muito maior. Os gramados são melhores. Os técnicos são melhores. O calendário é melhor. A intensidade é muito maior. Juntado tudo isso, vemos times que têm muito mais variedade tática. Treinadores que arriscam mais. Um ambiente que faz todos que estão dentro dele melhorarem. Chegar ao nível de excelência, em todos os aspectos do jogo, é questão de sobrevivência.

Soma-se a tudo isso, é claro, o poder aquisitivo. Os clubes ingleses compram os melhores jogadores do Brasil, Argentina, Colômbia, França, Itália, etc. Mas usar o dinheiro como a principal justificativa para tamanha diferença é um grande equívoco. 

Derrota do Fluminense para o Manchester City é mais uma prova

A verdade é que escrever esse texto ficou até fácil depois do que vimos semana passada na Arábia Saudita. O Fluminense foi simplesmente amassado pelo Manchester City. E o time inglês estava todo desfalcado.

Dentre as ausências, Haaland e De Bruyne, os dois principais jogadores. E olha, estamos falando do clube que conquistou a Libertadores um mês atrás. Que joga bonito, tem coragem e um treinador jovem e promissor. O time que encanta na América do Sul não tem nenhuma condição de bater de frente com o clube que encanta na Inglaterra e na Europa.

A diferença é tão grande que “dominar” o jogo por 15 minutos virou motivo de comemoração.

E antes da partida, tinha brasileiro empolgado (ou iludido?) dizendo coisas como Jhon Arias (que é muito bom jogador) ser melhor do que Bernardo Silva. 

E assim, Scarpa volta ao Brasil com 29 anos. E, sem dúvida nenhuma, irá se destacar. No Galo, vai jogar com o Paulinho, artilheiro do último Brasileirão depois de passagem apagada pelo futebol alemão. Será companheiro também do Hulk, que depois de 10 anos de Europa, passou cinco temporadas no futebol chinês e voltou para o Brasil já com 33 anos. E eles fazem muito bem para o campeonato nacional! Estão muito acima da média. Assim como Gerson, Gabigol, Gustavo Gómez e muitos outros jogadores que não deram certo no velho continente.

Renato Senise
Renato Senise

Renato Senise é correspondente em Londres desde 2016. São mais de cinco temporadas cobrindo Premier League e Champions League. No currículo, duas Copas do Mundo “in loco”, além de entrevistas com nomes como Pep Guardiola, José Mourinho, Juergen Klopp, Marcelo Bielsa, Neymar, Kevin De Bruyne e Harry Kane.